A torcida do Vitória não tem um segundo de paz. O meme frequentemente usado nas redes sociais se encaixa perfeitamente à realidade da massa rubro-negra, que mal comemorou as contratações assertivas feitas para esta temporada, a exemplo do lateral Rafael Carioca e do atacante Alisson Farias, já precisou engolir uma série de maus tratos proferidos pelo presidente Paulo Carneiro em seu perfil no Twitter. 

O mais novo motivo de discórdia envolve o mascote do clube. Carneiro deu a entender que substituirá o Leão “rasta”, absoluto sucesso entre os rubro-negros, por um Leão de “perfil imperial”, como explicou o presidente. A decisão gerou protestos nas redes sociais, ao ponto em que Paulo Carneiro respondeu a um torcedor que o abordou de maneira respeitosa: “Torcedor participa da vida do clube se associando”. Questionado por outros torcedores, o dirigente disparou coisas como “o empreguismo acabou” e tentou reduzir a discussão a uma briga entre direita e esquerda que até pareceria surreal não fosse o espelho do momento político que o país vive.

É verdade que o torcedor ajudará enormemente o clube ao se associar e gerar receitas que ajudem a estancar a sangria financeira que administradores incompetentes provocaram nos últimos anos, porém não é desse jeito, atacando aqueles que amam e lutam pela agremiação, que o presidente vai atingir tal objetivo. É inacreditável que Paulo Carneiro tenha repostado a mensagem de um torcedor que se refere ao maior patrimônio do clube como “torcidinha nojenta essa do @ECVitória”, transcrita ipsis litteris. É o presidente atentando contra a razão de o Vitória existir.

É natural que se ofereçam vantagens ao quadro de associados, mas o torcedor comum, vamos dizer assim, não pode ser preterido, afinal não nos esqueçamos que o Vitória tem grande penetração nas camadas populares de Salvador, formadas por pessoas que, por mais que queiram, não têm condição de tirar o pouco do seu sustento para ajudar o rubro-negro. E mesmo os sócios reclamam que, ainda que paguem assiduamente a mensalidade, não recebem o direito de participar da vida do clube. 

Paulo Carneiro bem que poderia tirar como lição a decisão fracassada de se mudar para a Fonte Nova, que durou apenas três partidas e uma dívida com o consórcio que administra o estádio, além de um distrato do contrato que seria válido por três temporadas, simplesmente porque o presidente acreditou que seria vantajoso jogar no equipamento, mesmo com o apelo de diversos torcedores para que o Vitória permanecesse no Barradão, local histórico e sagrado para o clube, que inclusive ganhou esse status durante a primeira passagem de Carneiro pela Toca. 

Se comparado ao ano passado, o início de temporada do Vitória é muito mais promissor, com contratações mais assertivas, como já citado no início desta coluna, inclusive apostando na aquisição de direitos econômicos de atletas, o que pode colocar o clube em outro patamar, além da decisão acertada de disputar o Campeonato Baiano e a Copa do Nordeste com equipes diferentes, algo que certamente fará a diferença no final da temporada. Comprar briga com torcedores no Twitter, portanto, parece ser a decisão menos inteligente desse início de 2020.

Rafael Santana é repórter do globoesporte.com.

Fonte: Correio