A cadeia alimentar estabelece uma relação entre matéria e energia que os seres vivos fazem uso para viver. Em uma determinada cadeia, temos o gavião devorando a cobra que, por sua vez, devora o sapo, que devora o grilo que devora a planta. Nos sistemas sociais infanto-juvenis, a hierarquia também se apresenta como natural. Existem aqueles que gozam do status de intocáveis.

Em geral, esses exercem o seu poder de forma a humilhar quase todos, exceto um seleto grupo de séquitos. Muitos dos humilhados melhoram o seu prestígio junto ao humilhador quando replicam a lógica de dominação, diminuindo aqueles mais tímidos e retraídos, divertindo o grupo dominante e sobrevivendo das migalhas de aceitação decorrentes de se sentir, ainda que momentaneamente e somente antes da próxima humilhação, membro do grupo de poderosos.

Na sociedade capitalista, os grupos de poder guardam profunda relação com o status econômico. Quem mais tem, mais pode. No nosso país, um dos mais desiguais do mundo, uma parcela ínfima de 1% da sociedade, os mais ricos, possui renda 34 vezes maior que a média dos 50% mais pobres. Entre o primeiro e o segundo grupo, existe uma ampla classe média.

No topo mais alto dessa diversa categoria intermediária estão aqules que almejam ter acesso aos símbolos de status que diferenciam o topo da pirâmide social: educação superior, um bom plano de saúde, acesso a teatros, cinemas, e frequentes viagens internacionais. Uma parte cada vez mais significativa dessa classe no Brasil é formada por pequenos proprietários. Administradores e profissionais de nível superior, além de trabalhadores não manuais de rotina a complementam.

Os pequenos prorpietários, cada vez mais voltados para os setores de comércio e serviços, dependem, sobretudo, de relações que se estabelecem com a camada de cima da sociedade. Nas grandes metrópoles, as lojas de sucesso concentram-se em shoppings e, em vários ramos, as empresas que possuem melhores resultados são fraqueadas. Nesses casos, na maioria das vezes, o bolo quando fatiado, tem as suas maiores frações destinadas às administradoras dos shoppings ou ao franqueador.

Nas grandes e médias organizações não é diferente. Gestores e administradores, representando o interesse do proprietário, ascendem e são avaliados em função de como as eventuais inovações processuais e as regulações internas diminuem o poder de barganha do trabalhador, não importa se pela automatização, pelo controle ou por potenciais ameaças, sobretudo quando cresce o exército de reserva de trabalhadores.

Se a cobra não devora o sapo, se torna menos atrativo para o gavião, mais, nesse caso, é inexorável o consumo do batráquio. O intermediário na cadeia do bullying não deixará de vitimar, da mesma forma que é vitimado, os mais indefesos. A classe média continuará buscando o seu passaporte de acesso e aceitação entre os mais ricos, à custa dos demais trabalhadores e das restrições que lhes impõe. Pode parecer antinatural, mas, nos casos de bullying e das castas sociais, vítimas e vítimas das vítimas possuem bem mais interesses comuns que sapos e cobras. O gavião é que não deixa que elas percebam.

Horacio Nelson Hastenreiter Filho é professor e diretor da Escola de Administração da UFBA

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Fonte: Correio