Bem segura de seu papel como realizadora na indústria do cinema, a diretora francesa Céline Sciamma (do sensível Tomboy/2011) volta à discussão de temas ligados ao feminino no belíssimo drama de amor Retrato de Uma Jovem Em Chamas, filme que recebeu a Queer Palm e o prêmio do júri para o melhor roteiro no Festival de Cannes 2019. E não foram poucos os críticos que consideraram o quinto longa-metragem de Sciamma como uma obra-prima. 

Nesta nova incursão, ela dirige Noémie Merlant e Adèle Haenel numa história de amor que se passa no século 18 e, de cara, questiona a imposição do casamento à mulher como forma de sobrevivência social. Na trama, a pintora Marianne  (Merlant) é contratada para fazer o retrato de uma nobre noiva, Héloise (Haenel), que se recusa a subir no altar. O quadro será ofertado ao noivo como uma espécie de ‘aperitivo’ para o que ele terá.

Mas, como a moça já enlouqueceu mais de um artista, a ideia de sua mãe aristocrata é fazer o registro sem que ela perceba. Entra em cena, então, uma pintora que se dispõe a realizar o difícil trabalho, cuja natureza lhe instiga a observar a outra atentamente. Apura o olha durante o dia e pinta secretamente a noite.

São nestes silêncios que  Retrato de uma Jovem em Chamas ganha força. Os olhares trocados, as palavras não ditas, os toques contidos. Tudo isso deságua numa paixão incontrolável entre as duas mulheres que, isoladas numa ilha, não devem nada a ninguém. Muito menos à igreja que oprimia homossexuais com penitência e mais penitência.

Nessa liberdade compartilhada, as moças revelam seus anseios e desejos numa sociedade que as coloca em situações muito específicas de subalternidade. Mãe, esposa, freira, cuidadora, serva. Nunca indivíduo. A pintura, resultado de um processo coletivo da dupla, representa o quão antagonistas elas querem ser a esse sistema pouco amoroso com as mulheres.

Escolhido para abrir a programação do 27º Festival Mix Brasil, que aconteceu em novembro em São Paulo, o trabalho de Céline Sciamma se distancia do rótulo de romance lésbico puro e simples. Antes de tudo, e embora contida num recorte histórico, a diretora compôs um painel sobre o espírito feminino, suas descobertas e possibilidades. 

A história se passa quase toda em flash back, quando Marianne, já pintora renomada, é confrontada pelo retrato que dá nome à obra. A partir daí, relembra sua história com Héloise, favorecendo o público com o amadurecimento que vem com o tempo. Durante sua exibição em  Cannes, Céline Sciamma explicou que seu objetivo com o filme era mostrar o romance entre duas mulheres a partir do olhar feminino, raridade no audiovisual. E com isso, desconstrói, a ideia do amor à primeira vista. 

O que se vê neste sensível recorte dos anos 1770 é um amor construído devagar, espelhado nas poucas chances que o sexo feminino possuia, então, fora de uma relação heterossexual. Neste sentido, ajuda muito o elenco completamente feminino, apoiado por mulheres na direção, produção, fotografia e em praticamente todos os seus processos criativos. O resultado é um cinema que passa longe dos clichês contados por homens ao longo do tempo. 

Fonte: Correio