Na próxima segunda-feira (13) completa um mês da chacina da Mata Escura, que vitimou quatro motoristas de transporte por aplicativos – todos brutalmente espancados e assassinados. Mas a poucos dias dessa data, uma terceira versão para a barbárie veio à tona. 

As mortes teriam sido cometidas pela facção Bonde do Maluco (BDM) como uma espécie de resposta à ação policial realizada dias antes na comunidade Paz e Vida, local da chacina. Policiais teriam ido ao local disfarçados de motoristas de aplicativo para chegar a um alvo.

A informação chegou ao CORREIO através de uma fonte da Secretaria da Segurança Pública (SSP) e confirmada por alguns motoristas de aplicativo. 

Segundo eles, uma semana antes da chacina, dois policiais civis e um P2 (como é chamado um policial militar que trabalha à paisana) entraram na comunidade Paz e Vida em um carro que tinha um adesivo luminoso indicando que o veículo era conduzido por um motorista de aplicativo.

“Eles estavam atrás de um cabeça cara da localidade e para isso não podiam chegar numa viatura porque seria fuga na certa. Então, foram como se o carro era de motorista de aplicativo que estaria levando alguém de volta à comunidade”, detalhou a fonte.

Quando chegaram, os três policiais teriam descido armados e provocado pânico nos moradores da comunidade, que fica nos fundos do Complexo Penitenciário da Mata Escura. 

“Barbarizaram daquele jeito, batendo em tudo e em todos, apontando as submetralhadoras, e as pessoas ficaram apavoradas. Entre as pessoas agredidas estava a mãe do chefe do tráfico da área”, complementou. 

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De acordo com a fonte, o líder do BDM da Paz e Vida, o traficante Jeferson Palmeira Soares Santos, conhecido como Jel, jurou vingança por acreditar que havia, de alguma forma, a participação de motoristas de app na ação dos policiais.

“Por tudo isso, ele ficou com muita raiva. Achava que foi ‘canal dado’, porque, até então, apesar do perigo, os motoristas de aplicativo entravam lá sem problema, pois a população precisava do serviço. Então, resolveu descontar na parte mais fraca e fácil de atrair para uma emboscada. Por isso que ele estava com muita raiva e dizia que iria fazer o maior número de vítimas”, comentou a fonte do CORREIO.

Foto: Bruno Wendel/Arquivo CORREIO

Procurado, o presidente do Sindicato de Motoristas por Aplicativos da Bahia (Simactter-BA), Átila Santana, disse que também soube da versão. 

“Fiquei sabendo, dias depois do episódio, que policiais foram, dias antes, até a comunidade se passando por motoristas de aplicativo”, disse ele, que ponderou em seguida: “mas acredito na versão da polícia, porque a investigação esclareceu muitos pontos”.

O CORREIO procurou a SSP para comentar as informações, mas até a publicação da reportagem a resposta não havia sido enviada.

Dúvida 
Apesar de a Polícia Civil ter dado o caso como encerrado – alegando que as mortes de quatro envolvidos no crime, entre eles o traficante Jel, e a prisão da travesti Amanda, 25 anos, apontada como a última envolvida na chacina –, dois pontos põem em dúvida não só a versão oficial para as mortes dos motoristas, como também a conclusão da investigação policial.

Segundo a fonte da SSP que conversou com o CORREIO, o motorista sobrevivente da chacina disse em depoimento à polícia e a uma emissora de TV que ao chegar no cativeiro, após ter sido levado pelos traficantes a um dos barracos da Paz e Vida, já encontrou uma das vítimas morta, indo de encontro com a versão apresentada pelo delegado Odair Carneiro, da Delegacia de Homicídios Múltiplos (DHM), unidade do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP).

No dia 27 de dezembro, numa coletiva para falar sobre a conclusão das investigações, Odair Carneiro disse que primeiramente os bandidos espancaram, depois aplicaram golpes de facão e, por último, atiraram. E que, inicialmente, a intenção era só roubar os carros, celulares e dinheiro dos motoristas para fazer dinheiro da facção, mas não contavam com a reação de duas das vítimas. 

“Mas isso não bate. Por que, então, o sobrevivente diria que ao chegar já tinha uma vítima morta? Por que mentiria?”, indagou a fonte.

Neste dia, o delegado justificou o motivo do encerramento do caso. A investigação apontou o envolvimento de cinco pessoas na chacina. Duas delas, Antônio Carlos Santos Carvalho e Marcos Moura de Jesus, que morreram em confronto com equipes da 81ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Itinga), na noite do crime. Os outros dois, um adolescente de 17 anos e Jel, líder da facção na comunidade, foram encontrados mortos dias após a chacina em locais distintos. 

Ainda no mesmo dia, Carneiro apresentou a travesti Amanda. Questionado sobre a possibilidade de haver mais envolvidos no episódio, o delegado foi categórico: “não”. 

No entanto, instantes após a declaração do responsável pela investigação e ainda no auditório do DHPP, a travesti disse que foram sete participantes da chacina, e não cinco, como foi dito pela polícia. As outras duas pessoas são também travestis. 

“Uma conheço porque andávamos juntas. E a outra não conhecia, mas também era travesti”, disse ela.

Segundo Amanda, ela e as demais levavam os motoristas para a comunidade, alegando serem moradoras da região. Questionado na hora, o delegado respondeu: “Ela está mentindo. Na verdade, essas duas pessoas são desafeto dela e, por isso, quer incriminá-las”, explicou.

Outra versão
Logo após o crime, a primeira versão que circulava entre os próprios motoristas de app dava conta de que as mortes foram uma vingança do traficante Jel pelo fato de um motorista ter se recusado a entrar na comunidade. 

Nas primeiras horas após o crime vir à tona, Átila Santana, do Simactter-BA, disse que o Coroa, como também era conhecido Jel, ficou revoltado porque a mãe dele passava mal e acionou motoristas na Paz e Vida, que recusaram devido à insegurança no local; a idosa acabou socorrida por vizinhos. 

Então, ainda de acordo com Santana, Jel determinou uma emboscada para matar o maior número de motoristas de aplicativos. Questionado sobre essa versão, o delegado Odair Carneiro negou.

Versões para motivação da chacina

  • 1ª versão contada pela categoria – As mortes foram uma vingança do traficante Jel pelo fato de um motorista de app ter se recusado a entrar na comunidade quando a mãe dele precisa do serviço, pois necessitava de deslocamento para atendimento médico de urgência.
  • 2ª versão dada pela Polícia Civil – Que inicialmente a intenção dos traficantes era só roubar os carros, celulares e dinheiro dos motoristas para fazer dinheiro da facção. Mas não contavam com a reação de duas das vítimas e decidiram matar todos.
  • 3ª versão sustentada por fonte da SSP relatada ao CORREIO – As mortes cometidas pela facção BDM teriam sido uma resposta à ação policial realizada dias antes na comunidade Paz e Vida, local da chacina. Os policiais teriam entrado no local a bordo de um ‘falso’ carro de aplicativo para prender um alvo.

Pontos sem esclarecimentos

  1. Por que a Polícia Civil disse que as mortes aconteceram devido à reação de duas das cinco vítimas que estavam no cativeiro, se o sobrevivente disse que ao chegar no local já havia um dos motoristas morto?
  2. A Polícia Civil disse que encerrou o caso com a prisão da última pessoa envolvida na chacina, a travesti Amanda – os outros quatro que participaram do crime foram mortos pela polícia e por rivais. No entanto, durante coletiva, Amanda disse que outras duas travestis também atuaram como iscas para levar as vítimas para a morte.

Fonte: Correio