Sair de casa para visitar outras casas. Esse é o programa preferido de quem adora visitar amigos, vizinhos e familiares no fim de semana. Mas já pensou conhecer casas cheias de gente desconhecida, e que ficam de portas abertas para quem quiser chegar? Se você estiver disposto, nem precisa de convite. Neste fim de semana será possível conhecer pelo menos uma das cinco que vão integrar a segunda edição do Circuito CASAS Alternativas de Salvador (veja programação no fim desta matéria). Dessa vez, participam do evento a Casa Rosada, Casa Charriot, Casa Preta, Casa d’A Outra e a PachaMãe LatinoAmerica – as quatro primeiras localizadas no Centro da cidade, entre os bairros dos Barris, Dois de Julho, Politeama e Comércio, e a última no Monte Serrat. 

Bairro que já abrigou uma das mais importantes salas de cinema de rua de Salvador e também um pomposo teatro, o Politeama hoje pode aparentar se resumuir a prédios residenciais e comerciais. Mas é ali, exatamente no primeiro andar do Centro Comercial Politeama, que funciona a A Casa d’A Outra. Quem olha para o alto da fachada do prédio, logo acima do gradil, já se depara com um letreiro informando que ali funciona a sede d’A Outra Companhia de Teatro. Basta subir quatro lances de escada para se deparar com a porta amarela que dá acesso ao que há sete anos o grupo chama de casa. Os vizinhos são uma copiadora, uma costureira, um sapateiro…

Entrada da Casa d’A Outra (Foto: Marília Moreira/ CORREIO)

“Já ouvi muita gente dizer que jamais imaginaria que um espaço como esse, que você olha do lado de fora e não imagina, pudesse abrigar um espetáculo. Porque é um espaço que você está vendo assim, mas que você transforma como você quer. Cada espetáculo é uma estrutura diferente. Esse é o encantamento, essa é a magia, e isso com certeza você não esquece!”, diz a atriz Eddy Verissimo, uma das fundadoras da companhia. 

Essa versatilidade também é vista na Casa Preta, onde a cozinha se transforma em uma “cozinharim”, uma mistura com o camarim; na Casa Charriot, onde a sala de um dos seus sete andares abriga um ateliê; e na Casa Rosada, onde a garagem pode virar bar.

Como é comum quando se trata de casa, antes de adentrar cada um dos cômodos, o visitante precisa abrir a grade, bater no portão, tocar a campanhia ou largar o bom e velho “ô de casa”. “Tem isso, e a pessoa que vem tem que estar à vontade de entrar nesse universo e nessas intimidades que cada casa constrói”, comenta a dançarina Ana Brandão, uma das gestoras da Casa Rosada, nos Barris, uma das mais novas, com pouco menos de dois anos de funcionamento. 

Residências fixas da arte e da cultura de Salvador, as cinco casas costumam agitar o Centro da cidade também à noite, quando o comércio fecha as portas e o vai e vem de transeuntes cai. Todas reúnem dezenas de artistas independentes regularmente, que têm nesses espaços as condições de produzir arte, atividades culturais, mas também criar novas condições de produção e pensamento.

Pode entrar:

  • Casa Rosada (@casarosadabarris)

Em Salvador, todo mundo sabe que a primeira referência a um endereço onde antes funcionou outra coisa é o famoso “o antigo…”. Com a Casa Rosada também é assim. Para explicar onde fica o casarão localizado em uma das pacatas travessas residenciais dos Barris, não há como evitar a referência ao “antigo bar Quixabeira”, que fez sucesso no mesmo local
nos anos 2000. “Era um lugar super movimentado, voltado para a comunidade gay, que fechou as portas em 2005, depois que um dos sócios foi morto em um crime homofóbico. O espaço ficou de luto, fechado por 15 anos, e há dois estamos aqui”, explica a dançarina Ana Brandão, uma das gestoras do espaço ao lado de outros seis amigos artistas.

Quem chega em frente ao local, não tem dúvidas que se trata do endereço certo. O casarão rosa, cheio de janelas de madeira pintadas de verde e portão de grades de ferro é o único, das cinco casas do circuito, onde realmente há dois moradores, cada um deles com o seu quarto – os únicos cômodos da casa que não têm acesso livre. De resto, é possível transitar em todos os outros: desde a acolhedora sala de estar, passando pela cozinha, e chegando ao quintal, cujos muros estampam pinturas e grafites de artistas que participaram de oficinas e realizaram eventos por lá. 

(Foto: Reprodução/ Facebook)

Na sala ficam uma cafeteira e itens de bomboniere, que podem ser consumidos no estilo “open service”. Quem quiser beber ou comer algo, basta seguir as instruções de uso, anotar o que consumiu e deixar o dinheiro em uma caixinha. Há, no entanto, quem ainda precise de uma ajuda. “Como a gente não está muito acostumado a esse esquema, então vamos avisando, explicando, e
construindo essa cultura aos poucos, juntos, dando mais autonomia a todo mundo. A gente acredita nisso, e confia nas pessoas também”, explica.

Diversas ações, como espetáculos de arte cênicas, shows, bazar (Bazá Rozê), aulas de capoeira, pilates e dança compõem a programação da “casa feminista de cultura”, cujo público é essencialmente formado por mulheres jovens e adultas. “A gente se coloca assim, como casa feminista, porque é um movimento em busca de um mundo melhor para todos”, explica Brandão.

Desenhos de vulvas estão espalhados nos quadros, e também no estandarte cheo de lantejoulas do coletivo, que foi confeccionado para o desfile de Carnaval pelas ruas do bairro ano passado, e que mês que vem volta à ativa novamente.

Travessa dos Barris, 30, Barris

  • Casa Preta (@casapretaespacodecultura)

“É ali, virando a rua, naquela casa preta!”. A cor preta era por conta da fachada desgastada pelo tempo e coberta de mofo, mas passou a ser a referência certeira, e também o nome próprio, da casa que há mais de dez anos reúne diversos grupos artísticos no bairro do Dois de Julho. Tudo começou com a ideia de quatro amigos em transformar o lugar em um bar cultural, aproveitando a vocação boêmia do local. “Quando chegamos aqui, em 2009, a casa não tinha janela, a casa não tinha porta, não tinha eletricidade, nada! Uma parada muito louca”, lembra Gordo Neto, gestor do espaço. Junto com as reformas, a ideia de um bar foi cedendo espaço ao que a Casa Preta é hoje: um espaço de troca e experimentação, sobretudo entre artistas iniciantes.

Quintal da Casa Preta, onde acontecem shows e outros eventos culturais (Foto: Marília Moreira/ CORREIO)

Alguns cômodos ainda são marcados pela passagem dos artistas que fizeram morada lá. É o caso de Felipe Cartaxo, responsável pela identidade visual da BaianaSystem, cujo trabalho ainda está registrado nas paredes do segundo andar da casa. Há banheiro e cozinha em todos os andares da casa, que é composta ainda por quatro espaços cênicos de pequeno porte. São eles o Quintal, o Teatro de Janela, o Espaço Terraço e  a Sala Ivana Chastinet – todos reformados recentemente, priorizando a acessibilidade.

Nem todos os espaços são utilizados em todos os eventos, mas quem conseguir subir ao Terraço no fim de tarde, pode se deliciar com a luz alaranjada incidindo no Museu de Arte Sacra da Ufba e cintilando o mar da Baía de Todos-os-Santos. Se der sorte como a equipe do CORREIO, capaz de flagar a lua cheia surgindo majestosa por entre os casarões antigos do Centro de Salvador. 

Vista do Terraço da Casa Preta (Foto: Marília Moreira/ CORREIO)

Dentre as casas do circuito, a Casa Preta é a que está há mais tempo na ativa – sem interrupções. Cerca de 17 pessoas gerem as oito iniciativas permanentes realizadas no espaço, dentre elas, uma biblioteca comunitária e um curso profissionalizante de teatro para jovens de 16 a 22 anos.

Rua Areal de Cima, 40, Dois de Julho

  • Casa D’A Outra (@aoutracompanhia)

Imersa numa região que já foi de intensa efervescência cultural, a Casa D’A Outra está com os dias contados. Depois de sete anos movimentando o Politeama, o espaço encerrra suas atividades em abril, quando também termina o contrato de aluguel que vinham renovando ano a ano. 

A Outra Companhia de Teatro é um dos primeiros grupos cênicos de Salvador a fundar uma casa, fenômeno que passou a ser mais recorrente a partir dos anos 2010, quando os artistas se viram com grandes dificuldades de pagar as pautas dos teatros e espaços convencionais para ensaios e apresentações. “É um baque, porque são quinze anos com o grupo, mas é uma família que se cria, a minha família. É um vínculo, e isso não é fácil. É claro que a gente fica arrasado, e dói. É uma vida”, diz, emocionada, a atriz Eddy Veríssimo, convencida de que o fechamento da sede é uma perda para a cena artística de toda a cidade.

Até abril, no entanto, as atividades seguem a plena vapor – como, aliás, nunca deixou de ser. Com exceção dos domingos, todos os dias da semana, seja de tarde ou de noite, é possível encontrar gente na casa. Ensaios, oficinas, montagem de palco, mediações culturais e espetáculos. De tudo rola lá. “É muito potente você saber que pessoas que nunca foram a um teatro convencional, assistiram à primeira peça da vida aqui, num espaço alternativo, e se sentiram muito confortáveis com essa experiência”, celebra Veríssimo.

Muitas vezes os espetáculos extrapolam as paredes da casa, e tomam conta de corredores, escadas, e até do Calçadão em frente ao centro comercial. Foi assim, por exemplo, com um dos mais bem-sucedidos projetos da companhia, o Música de Quinta, que misturava música, teatro, performance e literatura. O objetivo maior do projeto era uma aproximação afetiva com os moradores e transeuntes, compreendendo o espaço urbano como uma zona de socialização, cultura e entretenimento. 

Rua Politeama de Cima, no 114, Ed. Centro Comercial Polietama, 1o andar
 

  • Casa Charriot (@casacharriot)

Foi um dia antes de inscrever um projeto que a produtora cultura Maju Passos pensou em nomear como Casa Charriot o casarão abandonado no Comércio que vinha ocupando há quase dois anos junto a outros artistas amigos. Charriot é o nome da antiga linha que ligava a Cidade Alta à Cidade Baixa – ligação feita hoje pelo Plano Inclinado Gonçalves, que é vizinho ao casarão. Até hoje, as placas de sinalização indicam a região pelo nome francês. Com sua fachada azul e amarela, a Casa Charriot pode passar despercebida, afinal, não há um letreiro indicando que se trata do endereço, e no andar de baixo funciona uma papelaria, cujo movimento atrai os olhares somente para ela.

Uma das salas de ensaio da Casa Charriot (Foto: Marília Moreira/ CORREIO)

Quem olha para cima, no entanto, vê que o casarão colonial tem outros sete andares, nos quais se distribuem onze espaços. Há menos de dez anos, tudo estava abandonado, funcionando apenas como um depósito de camelôs.  “Na prática, a casa apresentava perigo e precisava ser reestruturada. Pensei: por que não criar uma ocupação artística aqui durante as obras?”, diz. 

Dois anos e meio depois, esse é o primeiro mês em que a casa está sem obras, e o que era permanente virou temporário. Hoje, nove amigos artistas gerenciam o espaço, que aos finais de semana de festa funciona no esquema virote, com gente saindo de lá somente às 7h da manhã. “Hoje a gente está assumindo as rédeas da casa, e a gente pode dizer que ela está realmente ocupada”, comemora Maju Passos.

Além dos eventos, a Casa Charriot pretende ser um espaço aberto para propostas artísticas diversas.  “Todo mundo é artista, todo mundo sabe a dificuldade que é achar um espaço para ensaiar, fazer show, então a gente acolhe muita proposta e aposta junto”, diz a bailarina Jack Elesbão, uma das últimas a se juntar ao grupo.

Um dos espetáculos que a casa acolheu no ano passado, Kilezuuummmm, que traz em cena os bailarinos Edu O. e João Rafael Neto, foi responsável pelas provocações que acabaram tornando o espaço acessível a cadeirantes, com um acesso pela Ladeira do Taboão e banheiro adaptado. E a ideia do espaço continua sendo essa, acolher a maior diversidade de públicos possível.

Um dos andares é ocupado pelo ateliê de do estilista Solon Diego (Foto: Marília Moreira/ CORREIO)

Mais um cômodo da Casa Charriot (Foto: Marília Moreira/ CORREIO)

Rua Rodrigues Alves, 10, Comércio (ao lado do Plano Inclinado Gonçalves)

  • Casa PachaMãe (@pachamae)

Para quem não conhece a Cidade Baixa, o acesso à Casa PachaMãe pode parecer complicado. Localizada dentro da comunidade Av. da Constelação, no Monte Serrat, nem mesmo carro chega lá. A casa fica em uma rua à beira-mar, no finalzinho da Pedra Furada.

Por ter dois andares e um terraço interligado, o visitante tem acesso a uma bela vista da Baía de Todos-os-Santos. No primeiro andar, ficam o espaço multiuso, a biblioteca infantil, a cozinha e o bar. No segundo, há o salão de encontros, onde acontecem os cursos, oficinas, festas e saraus. No terraço, são feitas as atividades após o pôr do sol, como apresentações artísticas acompanhadas por um serviço de bar e culinária. 

O forte da Casa PachaMãe são os eventos e atividades de arte-educação voltados para a promoção e intercâmbio cultural latino-americano. Vocação que já era posta em prática antes mesmo do endereço físico, tanto na Universidade Federal da Bahia, onde muitos de seus integrantes trabalham e estudam, quanto em alguns espaços culturais de Salvador.

A casa funciona como um espaço de gestão coletiva, que se mantem pela colaboração e tarefas especificas que cada integrante desenvolve para sua manutenção.  Conta com uma equipe diversificada de profissionais de diferentes áreas, estudantes, professores, pesquisadores, músicos e artistas. “Ver a comunidade participando das nossas atividades nos dá a certeza de que estamos no caminho certo, ainda que pareça utópico. Mas como diz Galeano, é esse o encanto da utopia: nos impulsionar a caminharmos pra frente”, comenta Dani Velásquez Romero, orientador geral do projeto.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

Av. da Constelação, 63 B, Monte Serrat

Programação
 

Casa D’A Outra
  
Dia 11 de janeiro – Sábado
Performance: Burcas
Horário: 19hs
Valor: 20 e 10 reais
Direção: Lene Nascimento
Atuação: Lene Nascimento
 
Casa Charriot
 
Dia 11 de janeiro, Sábado
Oficina: Pagode Baiano
Horário: 17h
Valor: R$ 10
Professoras: Grupo Bote fé
 
Filme, seguido de versos e poesias: EM´IM ME LEIO
Horário: 21h
Valor: R$ 10
Produção: JuntAs (GIRA POMBA PRODUÇÕES)
Contato: Marise Urbano e Malayca
 
Casa Pachamãe
 
Dia 11 de janeiro – Sábado
Ação: Círculo de Mulheres (Terapia)
Horário: 14h
Ingresso: R$ 30 |  R$15 (vizinhos da comunidade)
Mediadora: Lia Vasconcelos
Sambada de Coco de Mulheres
Horário: 18h às 20h30
Ingresso: R$10 (Meia) R$20 (Inteira)
Mediadoras: Thalita Batuk
 
Dia 12 de janeiro – Domingo
Oficina de teatro: Monstras, monstrinhos e monstrouoses: criações e invenções de si.
Horário: 9h às 12h
Ingresso: R$10 (Meia) R$20 (Inteira)
Mediadora: Maria Tuti Luisão
 
Oficina: Teatro brincantes
Horário: 15h às 18h
Ingresso: R$10 (Meia) R$20 (Inteira)
Mediadora: Graça Meurray
 
Casa Preta
 
Dia 11 de janeiro – Sábado
Performance-Imersão Clitorínea Deusa do Prazer
Horário: 18h     
Ingressos: 22 (inteira) 11 (meia)
Artista: Violeta Samo
 
Performance: Corpus Mundi
Horário: 20h     
Ingressos: R$10(inteira)
Artista: Bárbara Carvalho
 
Oficina: Eu vejo você – Dança do orixá para não dançarinas.        
Horário: 13h     
Ingressos: R$30,00(inscrição)    
Professora: Fabíola Nansurê

 
Dia 12 de janeiro – Domingo
Performance de 5 mulheres negras        
Horário: 19h
Ingressos: R$15 (inteira) R$7,50 (meia)
Dançarinas: Grupo Encontro com o Corpo, conduzido por Leda Maria Ornellas
 
Cena: Entre tantas outras, nós  
Horário: 18h     
Ingressos: R$10(inteira) R$5 (meia)       
Artistas:
 
Casa Rosada
 
Dia 11 de janeiro – Sábado
Exposição e Desfile: Vai ter Gorda
Horário: 13h às 16h
Valor: 1 kg alimento ou 1 lata de leite em pó
Produção: Adriana Santos e Vai ter Gorda!
 
Poket Show Jann Souza + Dj Larriel
Horário: 16h às 20h
Show às 16h e DJ inicia as 18h
Entrada: R$10
Artistas: Jann Souza e DJ Larriel
 
Dia 12 de janeiro – Domingo
Oficina: Ayurveda e Auto-Amor mulheres
Horário: 10 às 12h
Valor: R$30
Oficineira: Caroline Silva dos Reis
 
Almoço e Roda de Partilha sobre perda gestacional, violência obstétrica e os silêncios que acontecem nos processos de abortos
Horário: 13 às 15
Valor: Gratuito
Produção: Coletivo Flor de Jasmin
 
Espetáculo: Bastidores
Horário: 18 às 19h
Ingresso: R$20 (inteira) R$10 (meia)
Artista circense: Luana Serrat

Fonte: Correio