O açaí não é nativo do Nordeste, mas tem crescido, frutificado, e se dado muito bem por estas terras. Os números comprovam. O frutinho roxo-escuro, comum na região norte do país – em área amazônica -, vem ganhando espaço cada vez maior nos campos da Bahia. A produção no estado aumentou 467% em um período de doze anos.

De acordo com dados do IBGE, a Bahia produziu 2.023 toneladas do fruto em 2018. Um volume bem maior do que as 357 toneladas registradas em 2006, quando foram realizados os primeiros levantamentos oficiais deste cultivo no estado. 

As plantações da palmeira, antes acanhadas, agora ocupam expressivas faixas de terra. Entre 2015 e 2018, a área cultivada com açaizeiros na Bahia mais do que dobrou, subiu de 592 para 1.229 hectares.

A expansão fez a Bahia subir um degrau no ranking dos maiores produtores do país, passando a ocupar a primeira posição no Nordeste e a quarta posição nacional. O bom desempenho vem sendo registrado em municípios do Baixo Sul e Extremo Sul da Bahia, como Una, Ilhéus, Camamu, Valença, Uruçuca, Itajuípe e Porto Seguro. Nestas áreas o clima úmido peculiar e a presença de mata densa favorecem o cultivo.

Na Fazenda Nova Kênya, em Camamu, Sul do estado, a plantação que inicialmente tinha apenas três hectares, agora ocupa quarenta. 

As primeiras mudas foram plantadas há 25 anos, apenas como alternativa para os cultivos tradicionais, como o cravo e o cacau. A intenção era comercializar apenas o palmito da palmeira do açaí, mas com a crescente procura do fruto para polpas e sucos, a produção ganhou um outro rumo.

“Nós sempre trabalhamos com agricultura na região e queríamos fornecer o palmito desta palmeira, mas a demanda pela polpa cresceu e passamos a investir nisso. Começamos com uma despolpadeira improvisada, pequeninha, que processava apenas dez quilos de polpa por dia”, conta o produtor rural Augusto Carvalho.

O negócio deu certo e a produção se multiplicou. Agora a fazenda produz 120 mil quilos de açaí por ano. Eles abastecem a agroindústria da fazenda. A unidade produz 1.200 quilos de polpa por dia. O produto chega ao mercado com a marca Natuvalle.

“No início a produção era toda comercializada em Salvador. Agora o consumo aumentou muito em várias partes do estado. Atualmente a maior parte, cerca de 70% da produção, é vendida no interior, aqui mesmo na região, e os outros 30% vão para a capital”, afirma o agricultor.

Os principais compradores são lanchonetes, restaurantes e lojas especializadas em produtos fitness, geralmente frequentadas por pessoas que praticam esportes ou buscam uma alimentação saudável.

“A demanda ainda é maior do que a oferta, e o consumo vem crescendo muito, tanto no Brasil como no exterior. Por isso temos um potencial de crescimento grande e muito mercado ainda para ser conquistado”, completa o produtor rural.

Outro fator que vem impulsionando a produção do açaí é o preço de mercado. Com a oferta ainda menor do que a procura, a fruta passou a ser mais valorizada e mantem cotações estáveis, com tendência de alta e raras oscilações. Atualmente o quilo in natura está sendo vendido, em média, por preços que variam de R$ 1,80 a R$ 2,20. A barra de um quilo do fruto já processado sai em média por R$ 9.

Outro indicador importante mostra que o valor da produção agrícola do açaí cresceu 11,6% entre 2017 e 2018. Os dados referentes a 2019 ainda não foram divulgados pelo IBGE.

Produção de açaí na Bahia cresceu cerca de 467% num período de 12 anos. Plantações se espalham por mais de 1.200 hectares. Acima, fazenda no Baixo Sul do estado. (Foto: Laerte Nascimento)

FUTURO

Apesar da expansão do açaí na Bahia, o estado representa menos de 0,2% da produção nacional.

O Pará continua sendo responsável por mais de 95% do açaí produzido e consumido no Brasil. De lá saem mais de 1,4 milhão de toneladas por ano, numa cadeia produtiva que movimenta mais de R$ 3 bilhões anualmente. Os estados de Roraima e Amazonas completam o pódio nacional.

Os agricultores baianos esperam conquistar aos poucos algumas fatias deste mercado promissor. Mas é preciso paciência. Os primeiros frutos só brotam cerca de cinco anos depois do plantio da palmeira. 

Muitos agricultores estão em fase de cultivo, e outros se preparam para colher as primeiras safras. Na Fazenda São João, em Nilo Peçanha, no Baixo Sul da Bahia, os mil pés de açaí, semeados de forma experimental em 2015 estão começando a brotar.

Na Fazenda São João, em Nilo Peçanha, os primeiros frutos do açaí BRS Pará estão verdinhos e começarão a ser colhidos em janeiro. (Foto:Laerte Nascimento)

“Agora em janeiro vou fazer minha primeira colheita. Uma das vantagens do açaí em relação a outros cultivos é que ele exige poucos tratos culturais. Em geral no primeiro ano basta roçar, de quatro em quatro meses, e fazer a adubação, de seis em seis meses, que ele se desenvolve e produz bem”, conta o produtor rural Laerte Cardoso Nascimento. Ele sempre atuou como corretor de imóveis na Região Metropolitana de Salvador, mas há alguns anos decidiu se dedicar também a agricultura depois de perceber o potencial de crescimento deste setor. 

A variedade cultivada é a BRS Pará, desenvolvida pela Embrapa. A expectativa é de que a primeira safra renda mais de sete mil quilos de açaí, e o agricultor já pensa em expandir a plantação.

“Esta variedade se adapta bem, tanto em solo encharcado como em solo firme, e chega a dar até 25 quilos de açaí por pé. Além disso, ele permite colheita em até metade do tempo do açaí da área extrativista”, completa o agricultor que também cultiva graviola, cupuaçu e cravo.

Família Nascimento se prepara para colher os primeiros frutos do açaí plantado há cerca de 3 anos e meio, na Fazenda São João, em Nilo Peçanha. (Foto: Nayara Souza)

NOVA VARIEDADE

Pai d´Égua. Este é o nome da nova variedade de açaí lançada recentemente pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Amazônia Oriental). O nome é um termo comum na linguagem indígena e cabocla, muito usado no Pará para se referir a algo bom, excepcional, fora do comum. 

Além de possuir uma polpa mais espessa e mais cremosa, a variedade é considerada precoce. A primeira safra pode ser obtida depois de três anos e meio do plantio, e a produtividade anual pode alcançar doze toneladas de açaí por hectare, quase o dobro dos outros açaizeiros.

Mais a maior qualidade da Pai d´Égua é garantir o fornecimento dos frutos também no período da entressafra das outras palmeiras. A nova cultivar produz 54% dos frutos entre julho e dezembro, e 46% na entressafra dos outros açaizeiros, entre janeiro e junho.

O açaí BRS Pai d´Égua tem frutos menores e mais rentáveis. Variedade lançada recentemente já está sendo cultivada no Pará. (Foto: Ronaldo Rosa / Embrapa)

Para chegar a uma planta ideal, que garantisse a produção o ano todo, os pesquisadores fizeram cruzamentos entre espécies nativas encontradas em cidades do arquipélago de Marajó, no Pará, onde os períodos de chuva ocorrem em épocas diferentes das outras regiões. Eles acreditavam que o período de estrese hídrico, ou seja, quando há menos água, influencia no desenvolvimento dos frutos e é essencial para a palmeira florescer meses depois. A tese se confirmou.

“Para a nova cultivar, a BRS Pai d’Égua, precisávamos resolver um dos principais gargalos dessa cadeia produtiva: a sazonalidade. A demanda pelo fruto, que é rico em antocianinas e tem alto valor energético, é enorme e a produção precisa aumentar”, afirma João Tome de Farias Neto, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

O novo açaí foi desenvolvido também para produzir frutos menores, que rendem até 30% mais polpa do que os tradicionais. 

“É uma questão matemática. Se considerarmos uma lata que tem perto de 15kg de frutos pequenos, temos maior quantidade de frutos. De tal forma que se somarmos a área de processamento de cada fruto pequeno teremos maior quantidade de suco por unidade de comercialização”, completa o pesquisador.

No município de Tomé-açu, no Pará, onde já está sendo comercializada, uma caixa de 30 quilos da Pai d´Égua chegou a render quinze litros de polpa, cerca de três litros a mais do que a média dos outros açaizeiros.

NUTRIÇÃO

Com altíssima concentração de vitaminas e minerais, o açaí é considerado um alimento de elevado teor energético. Por ser rica em antioxidantes, a fruta vem sendo reconhecida como forte aliada no combate ao envelhecimento. 

Estudos também indicam que os nutrientes presentes no açaí podem auxiliar na redução do LDL, que é o colesterol ruim, diminuindo o risco de doença cardiovascular. 

O nutricionista Moisés Feitosa destaca que o açaí é rico em cálcio, por isso é indicado para quem tem problemas nos ossos, como osteoporose. A coloração escura indica a presença de ferro, e isso contribui para o combate à anemia, enquanto as fibras ajudam a melhorar o ritmo intestinal.

Com alto poder energético, os especialistas recomendam equilíbrio no consumo. (Foto: Vinicius Braga / Embrapa)

“A questão de engordar, ou não, tem a ver com o que se coloca no açaí. Algumas pessoas acrescentam leite condensado ou xarope de guaraná, por exemplo. Esta presença de carboidratos pode aumentar o valor energético da fruta”, afirma o nutricionista.

A dica é consumir de forma equilibrada e sem excessos.

“Como o emagrecimento envolve o déficit calórico, se o consumo for feito dentro de um planejamento alimentar equilibrado, e se a pessoa consumir o açaí, gastando mais energia do que consome no total, pode comer sem risco de engordar. Todo excesso acaba sendo prejuízo. Mas contabilizando as calorias através de uma estratégia feita com acompanhamento nutricional não tem problema. É um alimento super indicado, principalmente quando associado com atividade física para não ter risco de ganho de peso”, completa Feitosa.

RECEITA

Com sabor marcante, geralmente o açaí é consumido em sorvetes, cremes, mousses e na formulação de sucos, juntamente com frutas como banana e cupuaçu. Tem se tornando frequente também a utilização do açaí complementando receitas salgadas, como pratos que levam peixe frito, ou na hora de servir saladas.

Uma das dicas é usar a frutinha como ingrediente principal de molhos de acompanhamento. O CORREIO mostra abaixo como preparar o molho multiuso de açaí.

Em molho, açaí combina com verduras e legumes e pode acompanhar saladas fitness. (Foto: Georgina Maynart)

MOLHO DE AÇAÍ 

*Ingredientes:
*1 xícara de chá de polpa de açaí
*2 xícaras de chá de água
*1 e ½ tablete de caldo de legumes
*1 colher de sopa de farinha de trigo
*1/2 xícara de chá de vinho branco
*2 colheres de sopa de requeijão
*Sal

Modo de preparo: Coloque a água na panela, acrescente o caldo de legumes e a farinha. Depois coloque o açaí, o requeijão e o vinho. Sal à gosto. Mexa até encorpar. 

Molho de açaí com petiscos: fruta combina com peixes grelhados ou fritos. (Foto: Ronaldo Rosa Embrapa)

Fonte: Correio