Quando vivo, o sambista Jamelão, da Mangueira, todo ano (durante uns 20) descia do Rio de Janeiro para o Rio Vermelho, em fevereiro, para ser um dos primeiros a saudar Iemanjá. Depositava suas oferendas na Paciência, que é vizinha à foz do Rio Lucaia, hoje quase esgoto a desaguar no mar da Mãe D’Água.

Caetano Veloso, morador de Ipanema e do Rio Vermelho, registrou a vinda anual de Jamelão ao Red River em sua canção ‘Onde o Rio é Mais Baiano’. E a alegre Bahia carioca, ó quão semelhante, é, para o cantor e compositor santamarense, a Estação Primeira de Mangueira. Mas há outro lugar por lá que também traz, ao menos na (fina) estampa, a Estação Primeira do Brasil (aka Bahia).

Trata-se do icônico bairro de Ipanema, que significa (em tupi or not tupi) algo que têm tudo a ver com o RV d’agora: “água imprópria para nadar e pescar”. Mas, para além da coincidência líquida, há sólidas referências à nossa história por lá: algumas das ruas mais importantes do bairro foram rebatizadas com nomes de personagens da Independência do Brasil na Bahia.

Troca-troca
As mudanças ocorreram em 1922 (quase 100 anos atrás), na ocasião do Centenário da Independência: quem comandou o troca-troca geral foi o então prefeito do Rio, Carlos Sampaio, que tem no currículo passagem como diretor das Docas da Bahia (órgão com função semelhante à atual Codeba, criado só nos anos 1970). 

Possivelmente, a relação (ou simpatia) de Sampaio com a terra tenha lhe motivado a meter personagens baianos por cima de datas ou nomes ligados aos fundadores de Ipanema – parentes e amigos do coronel Antonio José da Silva e do comendador Moreira filho, 2º Barão de Ipanema, davam nomes a várias vias.

Assim sendo, a Rua Otávio Silva passou a se chamar Maria Quitéria, e a Oscar Silva se transformou em Joana Angélica, heroína e mártir da libertação, respectivamente.

Outros três homenageados são irmãos que organizaram as lutas em prol do Exército libertador: a Rua 31 hoje se chama Barão de Jaguaripe; a Vinte de Novembro passou a ser Visconde de Pirajá, e a Vinte e Oito de Agosto foi rebatizada como Barão da Torre. (Estas duas últimas são ruas paralelas, e a curiosidade é que o Barão da Torre casou-se com a filha do Visconde de Pirajá, ou seja, com a própria sobrinha!).

O trio descende de Garcia D’Ávila, que botou o nome por cima da Rua Pedro Silva, mas não participou das lutas libertárias de 1822/23 por um detalhe: nasceu uns três séculos antes!

Suposto filho bastardo de Thomé de Souza, ele veio junto na comitiva que fundou Salvador, em 1549, e depois subiu o Litoral Norte para fundar sozinho o que se tornaria o maior latifúndio do mundo, sediado na Casa da Torre, em Praia do Forte. 

Rua de barão
Curiosamente, a placa que indica o logradouro não traz uma explicação sobre quem é Garcia D’Ávila – no Rio, as placas de logradouro explicam quem é o homenageado. Essa ausência deixa em dúvida se a ideia era fazer um tributo ao clã Garcia D’Ávila ou à Casa da Torre, por ele criada, e que nas batalhas pela independência se tornou um local estratégico, fora de capital, para engendrar os planos de recuperação do domínio da Bahia. 

Enquanto a placa da Rua Barão de Jaguaripe explica quem é o homenageado, a da Garcia D’Ávila não informa nada. Pra compensar a falta, uma informação interessante: o ex-técnico Evaristo de Macêdo, campeão brasileiro com o Bahia em 1988, mora na Garcia D’Ávila (Foto: Google Street View)  

Mas enquanto esse mistério do planeta permanece, outro enigma é fácil de ser desvendado: por que a Garcia D’Ávila é o metro quadrado mais caro do Brasil? (Na verdade, o título foi em 2018, perdido por ora para outra rua com nome de baiano: Oscar Freire, em São Paulo).

Explica-se: “a Garcia” (como muitos cariocas chamam a rua, na intimidade; o mesmo acontece com “a Joana” em relação à Joana Angélica – que ozadia!) concentra as principais marcas de luxo do Brasil e do mundo. No embalo dos seus descendentes, é rua de barão, literalmente.

Esse apontando a placa da Rua Vinicius de Moraes (baiano honorário) sou eu, em frente ao bar onde ele e Tom Jobim compuseram ‘Garota de Ipanema’; “a Vinicius” corta a Visconde de Pirajá e dá na Rua Nascimento Silva, onde o baiano João Gilberto concluiu o disco ‘Chega de Saudade’, obra seminal da Bossa Nova. A casa de Tom (no número 107) fica entre a Barão de Jaguaripe e a Barão da Torre (Foto: Gustavo Wittich/Airbnb/Divulgação) 

Corneta da memória
Tardiamente, uma nova lembrança, também de um prefeito carioca entusiasta de História da Bahia, colocou outro personagem no front de homenagens em Ipanema. Foi em 2004 que o então prefeito César Maia encomendou ao cartunista Ique uma estátua do Corneteiro Lopes, decisivo na Batalha de Pirajá, a mais importante de toda a guerra.

Estátua do Corneteiro Luis Lopes, encomendada ao cartunista Ique, na esquina da Visconde de Pirajá com a Garcia D’Ávila (Foto: Vera Dias/site Inventário dos Monumentos RJ)

“Esse monumento foi inspirado no filme O Corneteiro Lopes, de 2003, que o prefeito achou a história interessante para identificar a rua”, explicou-me a arquiteta Vera Dias, funcionária pública do Rio que acompanhou e registrou a inauguração da obra, na esquina da Garcia D’Ávila com a Visconde de Pirajá.

Eu até pensei em relatar como foi minha primeira vez “na Visconde”, em 2003, quando passei a passeio e não liguei o nome ao bairro vizinho de onde nasci – Marechal Rondon faz fronteira com Pirajá. Achei que por lá ter Irajá, também tinha Pirajá, então, se deixei antes, vou continuar deixando essa desatenção pra lá.

Agora toca a corneta da memória com a ordem de “avançar e apresentar” os homenageados da restauração da Bahia no Rio de Caetano, Gil, João, Jamelão e companhia.

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Maria Quitéria

Maria Quitéria de Jesus (1792-1853) foi a primeira mulher a fazer parte do Exército, e precisou se disfarçar de homem para lutar pela independência. Usou o sobrenome do cunhado (Medeiros) para entrar nas Forças Armadas. Participou de combates importantes, e com destaque em lutas na  Barra do Paraguaçu, Ilha da Maré, Itapuã e Pituba. Saiba mais.

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Joana Angélica 

Joana Angélica de Jesus (1762-1822) foi mártir da Independência. A abadessa soror do Convento da Lapa foi morta por soldados portugueses que buscavam invadir o templo em busca de conspiradores. Ela resistiu à investida. Saiba mais.

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Barão de Jaguaripe

Francisco Elesbão Pires de Carvalho e Albuquerque (1824-1856) governou a Bahia e lutou ao lado dos irmãos. Foi feito Barão de Jaguaripe por Dom Pedro I, de quem recebeu a Medalha da Independência (dita da Restauração da Bahia), em 1825, dois anos após a vitória sobre o Exército português, dominando e pacificando a província. Saiba mais.

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Visconde de Pirajá

Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque (1788-1848), o Visconde de Pirajá, foi senhor de engenho, mas também coronel de linha, e um dos primeiros a conspirar contra Portugal. Conhecido como coronel Santinho, armou soldados e também se apresentou no campo de batalha. Saiba mais. 

Barão da Torre

Antônio Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque (1785-1852) foi coronel do Regimento de Milícias e Marinha da Torre, primeiro titular do Império do Brasil. Em dezembro de 1822, recebeu o título de Barão da Torre de Garcia D’Ávila. Casou-se com a sobrinha, filha do Visconde de Pirajá. Saiba mais. 

Fonte: Correio