Caso foi no campus de Vitória da Conquista (Foto: Divulgação)

A Universidade Federal da Bahia (Ufba) confirmou o recebimento da denúncia que alegou fraude nas cotas no processo seletivo para acesso de alunos egressos do Bacharelado Interdisciplinar (BI) ao curso de Medicina no Campus Vitória da Conquista, no Sudoeste do estado. Segundo a universidade, uma comissão foi instaurada para apurar o caso.

A Universidade, esclareceu ainda, que o processo de apuração envolve ouvir todos os envolvidos no caso e que, assim que os trabalhos forem concluídos, o resultado é divulgado pela própria Ufba, “Ressaltamos que a UFBA não compactua com fraudes e que todas as denúncias são apuradas conforme determina a legislação pertinente”, completou a instituição. 

A denúncia que originou a investigação foi protocolada junto a ouvidoria da instituição depois que o resultado da seleção para alunos egressos do BI foi divulgado no último dia 03. A alegação de uma das alunas do BI em Saúde é de que as alunas aprovadas nas duas vagas destinadas para a cota A –  para candidatos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas, que, independentemente da renda, tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas – não teriam direito ao benefício. 

No texto da denúncia, ao qual o CORREIO teve acesso, a estudante justifica a alegação dizendo que as concorrentes selecionadas não preenchem os requisitos para serem incluídas na reserva de vagas, pois seriam “fenotipica e socialmente brancas”, como diz o texto.

A denunciante explica que, segundo regulamento da Ufba, para concorrer aos chamados cursos de progressão linear (CPL), após concluir o bacharelado, o aluno deve se manter no mesmo tipo de vaga utilizada para ingressar na instituição de ensino.
“Já sendo questionável o fato desta Universidade ter permitido a matrícula das alunas, ocupando vagas as quais não lhe são de direito, uma vez que não possuem o requisito mínimo e óbvio de ser pessoa negra ou indígena, torna-se inaceitável agora que tais injustiças permaneçam acontecendo com a conivência desta Instituição”, diz a denúncia.

O caso 
Uma das seis pessoas que escolheu o curso de Medicina em Vitória da Conquista como primeira opção para o processo seletivo, a estudante resolveu denunciar logo que tomou conhecimento do resultado.

“Me sinto lesada, eu sei que são duas pessoas que não sabem e nem conseguem perceber a gravidade que é fazer o que elas fazem. Eu queria que alguém perguntasse a elas o que é ser preta pobre e periférica, para ver se elas sabem. E elas não são as únicas, tem vários como elas, que dormem tranquilos, achando que isso é certo. Eles esfregam na nossa cara que eles têm tudo que querem, porque pra eles querer é poder, e mesmo quando a gente pode a gente não consegue”, diz a jovem de 25 anos, que ingressou no BI em 2017.

Aprovada para sua segunda opção de curso, o curso de Odontologia, a estudante diz que não pretende cursar e que vai seguir buscando a vaga. “Não tenho a menor pretensão de fazer, nem cursei matéria de Odontologia, não foi pra isso que eu estudei. Esse não é um sonho só meu. É o sonho dos meus ancestrais, teve gente que morreu, uma faculdade bicentenária, quem construiu aquele prédio? Não é só por mim é por todo mundo que é igual a mim e que tem historicamente as vagas roubadas”, declara ela.

A estudante conta, ainda, que não sabe qual sua colocação na disputa pelas duas vagas a que concorreu, mas que o sonho de ser médica motivuou que fizesse a denúncia. “O relatório não deixa claro nossa posição entre os alunos que concorrem a uma determinada cota, diz apenas a classificação geral. Mas se há reservas de vaga é para  garantir que pessoas negras ocupem esses espaço, e alguns de nós ocupam essas vagas para fazer pelos que vão sucedê-los, para que mulheres pretas possam ser tocadas no SUS, para que a consulta dure mais do que cinco minutos, para que alguém preto, quando visto em um hospital, não seja confundido”, protesta.

Fonte: Correio