Não é novidade para ninguém que o loiro virou tendência na cabeça dos meninos de Salvador. Loiro pivete, loiro ferrugem, super sayajin, platinado… são vários os nomes para definir o estilo que nem sempre – ou quase nunca – é bem visto por olhares maldosos. Na última semana, viralizou o caso do adolescente de 16 anos, morador de Paripe, agredido por um policial militar durante abordagem e que teve que ouvir insultos racistas por conta de seu cabelo.

Apesar da truculência do olhar de quem julga e das mãos que agridem, muita gente não abre mão de se expressar com o cabelo e utiliza como forma de resistência. Outros, só querem ter a liberdade de mudar um pouquinho, caso de Juan Martins – jovem que se deu, como presente de aniversário, o loiro das madeixas. 

Juan, Omar e Igor: trio decidiu entrar na moda do platinado durante o verão (Fotos: Betto JR./CORREIO)

Na verdade, não era nem loiro, o primeiro estilo dele foi um branco platinado – algo que ele já admirava por fotos que via redes sociais afora. Fez quase tudo sozinho, assistindo a tutoriais no YouTube e tirando dúvida com amigos. Platinou cabelo e barbicha em casa, adotando o visual até o fim do ano passado. Na hora de retocar, o garoto de Itapuã decidiu mudar novamente: veio o tal do loiro pivete.

Juan conta que o segundo visual não foi planejado. O cabelo já estava grande e naturalmente escureceu. Quando foi retocar o platinado, chegou ao tom característico do loiro pivete e decidiu manter.

“Sempre tive essa vontade. Admirava os cabelos brancos. Minha intenção era deixar o branco platinado, esse branco neve, mas no processo apareceu o loiro, o loiro pivete. Eu gostei, não foi nada planejado”, contou à nossa reportagem.

Juan optou pelo cabelo platinado, feito em salão, antes de aderir ao ‘loiro pivete’ (Foto: Arquivo Pessoal)

A moda na cabeça de Juan não resistiu a uma coisa: o medo da violência. Ele acabou de concluir o ensino médio e relata que já levou enquadro de policiais em seu bairro. Certa feita, estava voltando para casa com seu namorado, Omar, também platinado, após deixar uma amiga no ponto de ônibus. No meio do caminho, uma viatura da Polícia Militar lhes fez uma abordagem e revistou a dupla. Segundo Juan, o caso passou longe de ser tão agressivo quanto aquele sofrido pelo adolescente em Paripe, mas deixou um alerta.

“Quando eu vi aquele caso só consegui imaginar que poderia ser eu no lugar dele. Se uma coisa dessas rolasse comigo eu não sei como me sentiria. Acho que na minha cabeça eu seria a pior pessoa do mundo”, desabafa.

Após o caso de violência policial em Paripe, Juan decidiu ouvir o conselho de sua mãe e abandonar o estilo do loiro pivete. Ele afirma que preferiu obedecer para que ela não ficasse preocupada e também assume que ficou com medo de ser humilhado daquela forma.

Na segunda vez que descoloriu o cabelo, Juan optou pelo ‘loiro pivete’. Jovem decidiu abandonar o visual após um conselho da mãe, preocupada com o preconceito e truculência policial (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Um outro platinado de Itapuã é o modelo Igor Sacramento. Com os mesmos 19 anos de seu amigo Juan, o garoto afirma que nunca sofreu com violência policial, tampouco chegou a ser abordado. Mas sofreu com outro problema, também relacionado ao racismo: os olhares que julgam.

Ele descoloriu o cabelo pela primeira vez para curtir a virada do ano de 2018 para 2019. Preferiu recorrer a uma barbearia no seu bairro, onde seus vizinhos e conhecidos adotaram o visual. 

Igor alega que se sentiu mais seguro em buscar um profissional para fazer a primeira mudança e não se arrepende. Ficou do jeitinho que ele queria e deu confiança para que no ano seguinte ele mesmo fizesse a transformação. Comprou água oxigenada, pó descolorante e matizador e, de 2019 para 2020, ele mesmo pintou o cabelo. Dentro de casa, ‘na manha’. 

Igor explica que quando estava com os cabelos loiros, não eram raras as vezes em que percebia olhares maldosos, com pessoas na rua “olhando estranho e torto”, como ele mesmo relata. Ele já retornou aos cabelos pretos de outrora, mas garante que só fez isso porque o cabelo cresceu e ele queria preservá-lo um pouco: a transformação agride muito as madeixas porque o procedimento químico é bem pesado – assim como o preconceito dos olhares.

O modelo Igor Sacramento é outro que já retornou à cor natural do cabelo, mas foi para preservá-lo já que a química é muito agressiva com as madeixas (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Acompanhando o caso do garoto agredido pelo PM em Paripe, Igor se resume a dizer que ficou muito triste e, se tivesse o poder, acabaria com todo o preconceito que as pessoas negras sofrem em Salvador e no mundo.

“A cabeça até dói um pouco quando penso. Nunca sofri com abordagens quando estava com o cabelo pintado, mas via os outros me olhando estranho, como se eu tivesse fazendo alguma coisa de errado”, lamenta.

Cada cabeça, cada um e cada um canta seu mundo. Os versos do Parangolé em seu disco ‘A Verdade da Cidade’ se mostra longevo em Salvador. Na pisada do barro, e do asfalto, os meninos de fé de seguem caminhando e lutando para ficar na moda e numa boa. Contra o preconceito e o que mais incomodar.

*Com orientação da editora Mariana Rios

Fonte: Correio