Miguel não estava pronto. Ainda assim, acordou a mãe de surpresa, às 4h. Aline ficou assustada ao sentir a calcinha encharcada. A bolsa d’água preenchida pelo chamado líquido amniótico, que protegia o bebê, havia acabado de romper. Miguel, aos sete meses, precisava nascer o quanto antes. A estimativa da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) é de que, a cada dez bebês nascidos no estado, um seja prematuro como Miguel.

O bebê veio ao mundo às 8h, com 2,1 quilos e 47 centímetros – dois centímetros menor e 400 gramas mais magro que a média. Numa maca já no hospital, Aline Araújo Liberato, 40 anos, lembra de ouvir a obstetra falar para outra outra médica: “Vamos agir rápido”.

Ao nascer, em 2017, Miguel passou apenas alguns segundos nos braços da mãe e foi levado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal. No ano passado, foram 20.842 partos prematuros – 196.432 bebês nasceram em nove meses, o tempo necessário para o desenvolvimento completo.

Qualquer bebê que nasce com menos de 37 semanas é prematuro. Abaixo de 32 semanas, a prematuridade é considerada extrema; entre 32 e 35, moderada, como foi o caso de Miguel e é o mais comum nos hospitais, segundo a Sesab; e tardia, de 35 a 37. Fora do útero antes do tempo, os bebês chegam ao mundo sem estarem prontos. Os órgãos e o sistema ósseo e nervoso ainda estão em formação. 

Para ser considerado aborto fetal, o bebê precisa pesar pelo menos 500 gramas quando acontecer a interrupção da gravidez.

“Dentro do corpo, ele [o prematuro] recebe tudo através do cordão umbilical. Mas fora, é arriscado, porque ele não está mais protegido e o desenvolvimento vai acontecer de outra forma”, explica a pediatra Ana Paiva. 

Por isso, os bebês prematuros são levados o quanto antes para incubadoras do UTI. A ideia é recriar o ambiente uterino da mãe. A temperatura é mantida, em média, a 36,5ºC, e a umidade administrada por médicos e enfermeiros. Somente quando o bebê consegue regular a própria temperatura é que ele pode, enfim, ir para seu primeiro berço – mas ainda num hospital. Prematuro ou não, os bebês passam por problemas como a perda de peso depois do nascimento. 

Depois de nascer, o prematuro precisa sobreviver. 

A cada 30 segundos, uma morte
Cada semana de gestação é um período específico de desenvolvimento do bebê. A cada sete dias, tudo é diferente. Nas primeiras quatro, o sistema cardiovascular começa a se formar e, nas 28, começam a apresentar movimentos de braços e pernas, por exemplos. Só a partir das 40 semanas o bebê está completamente desenvolvido – se passar dos nove meses, o nascimento é pós-dativo. “Ele não quer sair de jeito nenhum”, brinca a médica Ana.

Os ossos de Miguel pareciam desconjuntados e ele sequer conseguia movimentar o pescoço. “A capacidade de se desenvolver fora da barriga é diferenciada. Você não pode comparar os estágios de desenvolvimento de bebês prematuros e normais. Ele é mais lentificado”, explica a pediatra Jurema Amâncio, também mãe de um prematuro.

O pequeno Miguel, 2 anos, nasceu prematuro de sete meses (Foto: Arisson Marinho)

A médica sugere um cálculo: se um bebê nasceu com sete meses, aos dois meses de vida, é como se ele tivesse acabado de nascer e assim por diante. Segundo a Associação Brasileira de Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros, a cada 30 segundos, um bebê morre em consequência do parto antecipado. Nem o Ministério da Saúde, nem a Sesab informaram taxas oficiais de mortalidade de prematuros. 

As gêmeas de Fátima Dultra, 40, nasceram há sete anos, numa gestação de apenas seis meses. As duas pesavam pouco mais de um quilo, tinham 40 centímetros e passaram 40 dias na UTI. 

“Me assustava o baixo peso e alguns reflexos que elas não tinham. Elas não conseguiam nem mamar, mas insisti até que, uma semana depois, elas começaram”, lembra a mãe. 

De 2016 a 2019, a Associação Brasileira de Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros constatou que os bebês prematuros chegavam a ficar dois meses internados para conseguir se habituar com a nova vida. Mas não há consenso científico para a pergunta: por que alguns bebês nascem antes do previsto? 

Mistérios
A prematuridade costuma ser associada a fatores que, não necessariamente, nem em todos os casos, provocam um parto antes do tempo. A gestação de Miguel, por exemplo, passou sem intercorrências. “Tinha viajado para 15 dias direto – viajava por mais de 15 cidades. Tudo com relatório médico, não parecia ter risco”, lembra Aline, sobre a semana anterior ao parto.

Os fatores de risco mais citados pelas médicas ouvidas foram a idade das mães, o uso contínuo de medicação na gravidez sem prescrição, situações estressantes e a pressão alta desenvolvida na gestação. Quando a pressão que o sangue faz contra as paredes dos vasos sanguíneos é maior que o normal significa, no caso das gestantes, que o corpo apresenta uma reação inflamatória aos hormônios placentários, explica a médica Jurema Amâncio É como se o corpo recusasse a presença do bebê. 

No caso de situações estressantes, é possível que a liberação excessiva de adrenalina e endorfina causem uma desregulação hormonal. Gestações de gêmeos também são mais arriscadas, já que os bebês compartilham o mesmo espaço no útero e podem dividir, também, a mesma placenta e a mesma bolsa. Os bebês prematuros podem apresentar de problemas neurológicos a cardíacos ou não apresentar problema algum. 

A mãe de Miguel, Aline, é também pesquisadora no campo da neurociência e dos processos neurobiológicos do desenvolvimento da leitura. Ela sabia que, o quanto antes o filho fosse estimulado, maiores as chances de ele apresentar bom desenvolvimento. Desde o nascimento, foi acompanhado por uma neuropediatra e, no dia a dia, os pais incentivavam a coordenação e os impulsos de Miguel. “Todos os bebês precisam ser estimulados. Nunca abri mão disso”, diz Aline.

Estágios da prematuridade:

Qualquer bebê que nasce com menos de 37 semanas é prematuro

Abaixo de 32 semanas, a prematuridade é considerada extrema

Entre 32 e 35 semanas, é moderada

Entre 35 e 37 semanas, tardia

Elementos que podem levar a um parto prematuro:

Pressão alta desenvolvida na gravidez

Anemia e infecção urinária

Uso abusivo de medicamentos

Idade avançada da mãe 

Estresse
 

Fonte: Correio