“Não é um caminho fácil, mas não adianta ficar só dizendo que é difícil, que está ruim. Eu sempre vou incentivar que sigam o caminho da pesquisa. Quando você cria bons pesquisadores, pessoas interessadas em fazer isso, é que você incentiva que políticas sejam criadas. Um país que não pesquisa é um país que não se desenvolve, não inova”. É assim que a pesquisadora baiana Enny Paixão, 31 anos, enxerga a profissão que a levou a receber um prêmio internacional: sua tese de doutorado foi considerada a melhor de 2019 na categoria “metodologias estatísticas” do The Bradford-Hill Prize, prêmio inglês.

A notícia sobre a conquista chegou a pouco mais de uma semana, no último dia 14. Na companhia da filha Maria Clara, de 1 ano e 8 meses, e do marido Thiago Cruz, Enny recebeu a notícia por e-mail. “Foi um momento feliz, vibramos todos, eu, meu marido, e minha neném, quem não estava entendendo nada mas vibrava também”, se recorda. A pesquisa premiada é fruto do doutorado na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres , que foi concluído em 2019. 

O doutorado em epidemiologia, iniciado em 2015, estudou impactos da dengue durante a gestação. Por meio da análise e combinação de bancos de dados como do Sistema de Informações Sobre Nascidos Vivos (Sinasc), produzida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a pesquisadora investigou o aumento de alguns riscos para mães que tem dengue durante a gestação. Foi possível concluir, por exemplo, que a combinação dengue e gravidez aumenta os riscos de mortalidade para o bebê, e para a mãe (nos casos de dengue grave).

A pesquisa foi orientada pela professora Laura Rodrigues e realizada depois da conquista de uma bolsa de doutorado pleno concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq). “Eu já havia feito meu mestrado sobre dengue, e sempre foi um interesse do grupo de pesquisa pesquisar impactos na gestação. Mas alguns fatores são de ocorrência mais rara e precisariamos analisar uma base de dados muito grande para conseguir de fato extrair, ai veio a ideia de usar dados já produzidos no Brasil e usar a técnica do Linkage  (integração de base de dados diferentes)”, explica Paixão sobre a ideia premiada. 

Trajetória 

A história de Enny como pesquisadora começou há alguns anos. Ainda na graduação de enfermagem ela fez a chamada iniciação científica, mas foi após se formar, em 2011,  que os caminhos da pesquisa começaram a se abrir. “Logo que finalizei o curso fui convidada para participar de uma pesquisa de campo, e achei que seria uma boa oportunidade de fazer pesquisa como sempre quis”, explica.  Naquela primeira experiência, o tema já era dengue: estudar se pessoas com comorbidades – como pressão alta – tinham mais chances de apresentar o tipo de dengue grave em lugar da clássica. 

Depois da primeira experiência, o caminho natural era o mestrado que foi concluído no programa de pós graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (Ufba), estudando os números da mortalidade por dengue. Agora, depois de concluído o doutorado, a pesquisadora trabalha para dar continuidade ao tema. Enny agora vai analisar os desfechos da gestação em outras infecções. “Começamos a trabalhar com sífilis, e vamos analisar também infecções como zika e chikungunya”, detalha ela que atua como pesquisadora associada da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Apesar dos 9 anos pesquisando, a carreira não era a  primeira opção da jovem estudante de enfermagem. “Quando eu comecei a fazer enfermagem achava que ia trabalhar em hospital, nem sabia que epidemiologista era uma profissão nem os caminhos que levam a gente até uma pesquisa”, explica. ”Durante a minha trajetória na Uneb tive professores doutores que acabavam nos apresentado o mundo da pesquisa e nos incentivando”, conta ela que fez a graduação na Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

O caminho profissional que Enny nem conhecia hoje toma quase todo seu tempo. O epidemiologista investiga o comportamento das doenças nas populações, usando principalmente dados.  Além de pesquisadora, Enny é também professora – mesmo que em carga horária reduzida. “Infelizmente a pesquisa no Brasil não é valorizada como ela deveria ser e, principalmente depois do doutorado, é muito difícil continuar só como pesquisador sem precisar ter outro emprego, ser professor por exemplo”, analisa. Como professora, ela prefere atuar em cursos de pós graduação, ensinando epidemiologia aplicada à pesquisa.

Apoio

Para realizar o trabalho que acabou premiado, um aspecto não científico foi fundamental: o apoio da família. “Eu sou uma sortuda que não teve que escolher entre a vida pessoal e profissional. Não tive que escolher ser bem sucedida em uma apenas”, comemora. No período de quatro anos que passou fora do país para estudar, ela esteve acompanhada do marido Tiago Cruz “Ele era concursado aqui e pediu licença do trabalho para me acompanhar nesse sonho louco de fazer doutorado fora. Aproveitou pra cursar mestrado lá”, conta ela. 

Durante o doutorado a família aumentou e nasceu a pequena Maria Clara. Com dois meses, ela acompanhou a defesa de doutorado da mãe “Ela estava lá, na minha defesa, para caso precisasse mamar ou qualquer coisa. Dá trabalho porque um bebê demanda, mas não posso reclamar, sempre tive o apoio da família”, finaliza

*Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier

 
 

Fonte: Correio