O Carnaval de Salvador não é obra deste século, nem do passado: desde 1880, explica o historiador Scott Ickes, lá estavam três clubes de elite tocando seus carros alegóricos em desfiles oficiais da folia: Cruz Vermelha, Inocentes em Progresso e Fantoches da Euterpe – este último, ainda de pé, continua a receber eventos no Dois de Julho, como este baile fotografado nos anos 1970, cuja imagem integra o acervo fotográfico do CORREIO.

Baile de Carnaval no clube Fantoches da Euterpe na década de 1970
(Foto: Arquivo CORREIO/Divulgação)

O que o pesquisador explica é que, no final do século XIX, eram os clubes quem dominavam a festa, inclusive as questões estéticas do Carnaval baiano. Mas, a partir dos anos 1930, os espaços onde aconteciam bailes e até concursos de rainha do Carnaval passaram a enfrentar uma séria crise financeira, o que só melhorou a partir da década de 1950.

Neste meio tempo, as manifestações populares preencheram o vácuo deixado pela crise dos clubes e, consequentemente, deram novo significado ao Carnaval da Bahia. É que, mesmo que tenham se recuperado financeiramente, os clubes como o Cruz Vermelha e o Fantoches não recuperaram o lugar de protagonismo que detinham anos antes.

“Depois de 1950, os clubes de elite recuperaram sua situação financeira, mas não recuperariam seu domínio quase total sobre a forma, o conteúdo ou o significado do carnaval. Por mais de uma década a balança do carnaval de Salvador favoreceu as práticas festivas populares da classe trabalhadora afro-baiana como o indicador simbólico central da identidade do carnaval de Salvador”, explica o historiador norte-americano, em artigo intitulado ‘Era das Batucadas’.

Fantoches continua a receber eventos durante o Carnaval: este aconteceu em 2004
(Foto: João Alvarez/Arquivo CORREIO)

Fazer bailes de de destaque passou a se tornar grande feito para os clubes carnavalescos. No Carnaval de 1983, por exemplo, o CORREIO publicou uma nota em que o presidente do Fantoches da Euterpe, Alival Vieira, festejava o fato de fazer o maior carnaval no Centro da cidade. Naquele ano, o tema dos cinco bailes realizados no espaço foi ‘Carnaval de Todos os Tempos’, reunindo mais de 30 mil pessoas:

“Esta manhã, depois das 5h, a turma pulando saiu pelo Largo Dois de Julho e veio até a Piedade, onde acabou a folia. Está provado que o Fantoches realmente faz o melhor carnaval no centro e mais de 10 mil pessoas brincaram no sábado. Durante os cinco bailes, a diretoria calculou mais de 30 mil pessoas”, dizia a notícia, no dia 16 de fevereiro de 1983, a Quarta-feira de Cinzas.

Em 1994, uma reportagem assinada por Hilcélia Falcão mostrava que, há 20 anos, o Fantoches havia perdido o status de entidade classe A. O texto atribuía a franca decadência do clube a partir dos anos 1960 à concorrência:

“A concorrência com os trios elétricos associada à mudança de costumes e a debandada dos ricos sócios remidos para o Bahiano de Tênis condenou o clube ao marasmo total. Dos mais de seis mil associados, restam apenas 1.200 pagantes contra os 2.800 sócios remidos que há muito não frequentam o lugar”, dizia o texto.

Ainda assim, há quase 25 anos, os mais saudosistas ainda jogavam confetes sobre os antigos Carnavais:

Fantasia-ostentação: em 1963, Fantoches ainda fazia concurso de rainhas
(Foto: Arquivo CORREIO/Divulgação)

“O Carnaval na minha época era diferente, mais romântico e todo mundo se respeitava. Homens e mulheres brincavam muito bem vestidos e o pessoal dançava embalado pelo som das orquestras”, escrevia Oscar Paris, ao abrir reportagem em 1996.

Com ou sem decadência, o Fantoches da Euterpe resiste. Todos os anos, o espaço no bairro do Dois de Julho recebe não mais bailes, mas ensaios de Carnaval de artistas como Moraes Moreira e Luiz Caldas. O Cruz Vermelha não funciona mais como clube, mas o prédio segue de pé, no Campo Grande, próximo ao Teatro Castro Alves.

*A curadoria das imagens desta coluna foi feita por Milton Cerqueira, funcionário do arquivo do CORREIO há 37 anos, e por Sora Maia, editora de fotografia do jornal.

Fonte: Correio