Flores, abraços e palavras de encorajamento foram dadas, na tarde deste domingo (3), às três vítimas de racismo que ganharam o noticiário nacional. As gêmeas insultadas por um segurança do metrô e o jovem agredido por um PM no Subúrbio Ferroviário receberam um abraço coletivo junto com seus familiares na Praça João Martins, no bairro de Paripe. Organizado pelo movimento Marcha do Empoderamento Crespo, o ato público foi um gesto para diminuir a dor causada pelos episódios violentos.

Ofendidas neste início de ano, as três vítimas eram adeptas do cabelo estilo black power. Presidente da Marcha e à frente da ação, a antropóloga Naira Gomes justificou que o afeto é instrumento político nesse momento.

O abraço serve para blindar a dor e refazer o indivíduo para que ele possa voltar para a luta e não desistir de quem ele é. Quando a gente viu o rapaz apanhando, a gente sentiu a dor, a gente apanhou também. Queremos levar a mensagem de que somos muitos e estamos juntos”, disse.

A sensação de impotência não sai da mente da namorada do adolescente de 16 anos esmurrado por um policial militar no último domingo (2). Presente durante a abordagem militar, ela conta que não esperava que a agressão fosse acontecer. Além de dar socos e chutes enquanto o jovem estava de costas, com as mãos para cima, o agente ainda atribui o cabelo do rapaz à ‘coisa de vagabundo, de ladrão’.  

“Eu comecei a chorar e minha amiga me abraçou porque eu queria gritar o policial. Ela me colocou no canto e eu só conseguia chorar, o que eu podia fazer? Ainda bem que teve o vídeo para não ficar por isso mesmo e a gente poder lutar”, lembrou a garota, que teve a identidade preservada.

Apresentador do quadro Poesia do Programa Espelho (Canal Brasil), de Lázaro Ramos, o poeta Jordan Vilas Boas relata que também já sofreu com excessos da Polícia Militar. Morador do mesmo bairro que o adolescente, ele conta que, certa feita quando voltava da faculdade, a polícia se aproximou bruscamente com a viatura e revirou seus pertences sem a menor cautela. “Abriram tudo e saíram jogando, meu notebook caiu no chão. Em casa, às vezes eu digo que prefiro mil vezes ser assaltado do que passar por isso”, comentou ele, que recitou no ato.

Presentes no local, as mães das vítimas, Sandra Weydee, 37, das gêmeas, e Karina Barros, 32, do jovem, agradeceram o apoio dos coletivos e elogiaram uma à outra pela coragem de se colocarem em defesa dos direitos dos filhos. “Um cordão de dois nós é mais difícil de romper, a força é maior. Eu vi Karina, abracei e falei com ela que estamos juntas. Essa situação que aconteceu ao mesmo tempo me fortaleceu porque achei bonito ela não ter se calado também, sem retroceder, colocando a cara na tela e estando disposta. Uma mãe retada”, comentou Sandra.

O ato de solidariedade às duas famílias contou com a presença de cerca de 100 pessoas, que fizeram fila para abraçar e oferecer flores a cada um. No acolhimento, uma senhora aconselhou que eles não cortassem o cabelo e que assumissem a identidade que gostam de ter. “Seu cabelo é lindo”, disse ela no abraço ao adolescente. Tímido, o rapaz disse que a ação significava muito para ele. “Tudo mudou na minha vida. E o abraço dá força, estou muito feliz”, agradeceu.

Formação antirracista

Na ocasião, a Marcha do Empoderamento Crespo anunciou ainda que conseguiu, através de diálogo com o Comando Geral da Polícia Militar, incluir uma matéria fixa de Antirracismo na formação de novos policiais. Segundo o movimento, a capacitação começa já na próxima semana, na Base Comunitária de Segurança (BCS) do Alto de Coutos, no Subúrbio Ferroviário. O curso tem pretensão de ser itinerante e deverá contemplar todas as BCS da capital baiana. “Todo novo oficial que entrar vai passar por uma formação no sentido de humanizar para melhorar a relação com a comunidade”, explicou Naira Gomes.

Fonte: Correio