O fim da exigência de celibato para que homens casados se tornassem padres na região amazônica, um dos temas mais debatidos no Sínodo para a Amazônia, realizado em outubro de 2019, foi ignorado no documento em que o papa Francisco apresenta suas conclusões sobre o encontro. Para religiosos e analistas, o movimento é uma concessão do papa a alas conservadoras da Igreja e uma decepção para quem esperava uma posição mais progressista do pontífice. 

A proposta foi apresentada por bispos, inclusive brasileiros, ao papa, mas foi omitida no texto oficial “Querida Amazônia”, publicado ontem. A proposição dos bispos não era abolir a obrigação do celibato para todos os padres – regra adotada pela Igreja desde o século XII –, mas uma solução para suprir a falta de sacerdotes na região amazônica, cujos fiéis têm sido continuamente arrebanhados por igrejas evangélicas.

“A questão não é o celibato em si. Mas há dezenas de comunidades amazônicas que passam mais de um ano sem eucaristia”, explica o monsenhor Raimundo da Mata, de Belém (PA), um dos responsáveis pela elaboração das propostas apresentadas pelos bispos. A eucaristia – espécie de bênção da hóstia – é um dos principais rituais católicos e só pode ser conduzido por padres. 

Foi uma dificuldade vista de perto por Tarcísio Maia, 53: nos anos 90, ele era o único padre responsável por atender fiéis no município de Prainha, no Pará, e outras 48 comunidades no Baixo Amazonas. As maiores, com cem ou 200 pessoas, ele via várias vezes por mês, enquanto as menores, com menos de 20 membros, eram visitadas uma ou duas vezes por ano. “O trabalho era humanamente impossível”, fala.

Com a sobrecarga, Tarcísio acabou abandonando o sacerdócio e, hoje, é casado e trabalha como assistente administrativo na Universidade Federal do Oeste do Pará. Com mais fiéis convertidos em padres na região, o problema seria atenuado, acreditam os bispos que apostavam em um parecer positivo do papa. Uma alternativa aventada pelo papa é que mais padres de outros locais migrem para a Amazônia.

Conservadores 

“O papa Francisco virou Chiquinho depois da pressão dos ultraconservadores. Ele se acovardou”, lamenta Tarcísio. O historiador e professor de ciências da religião na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Rodrigo Coppe Caldeira avalia de outra forma: “Não dá para dizer que Francisco recuou, pois nunca falou abertamente do tema”. 

O cardeal alemão Gerhard Müller, demitido pelo Papa da chefia da Congregação para a Doutrina da Fé, em 2017, e um dos mais vocais contra o sínodo, publicou, ontem, um manifesto para elogiar o tom “conciliador” da Exortação. Para Coppe, é um indício de que o papa Francisco procurou apaziguar alas mais conservadoras com o texto: “Ele levantou a moral deles”. 

Cardeais vão tentar rediscutir assunto com papa Francisco

Cláudio Hummes, relator geral do Sínodo para a Amazônia, declarou que a ordenação dos casados na Amazônia vai voltar a ser debatida pelo papa Francisco. O monsenhor Raimundo da Mata, também um dos responsáveis pela elaboração das propostas apresentadas pelos bispos, acredita que seja improvável: “Considero muito difícil, após o posicionamento do Papa. Foi quase como colocar uma pá de cal nesse assunto”. 

O professor de ciências da religião na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Rodrigo Coppe Caldeira também não vê possibilidade de alterações em curto prazo. “As peças desse tabuleiro são movidas de maneira muito lenta, com idas e vindas. São mudanças que podem acontecer, mas lentamente”. 

Caldeira pontua, ainda, que o Sínodo é um órgão consultivo do papa, sem poder de decisão. Dois terços dos 174 padres votantes haviam optado pela ordenação de homens casados na Amazônia.

Ecologia e leigos

  • O discurso ecológico do Sínodo é reforçado na Exortação “Querida Amazônia”. O papa afirma que internacionalizar a floresta não é a solução para a preservação do meio ambiente e defende que isso torna os governos nacionais da região ainda mais responsáveis por ela. 
  • O documento reitera o papel dos leigos na igreja: são fiéis com papel ativo nas comunidades, como catequistas. Segundo padres da região, são, sobretudo, as mulheres que cumprem esse papel. 

 

Fonte: Agencia Brasil