Em outubro de 2019, o Belviq surgiu como promessa de emagrecimento no mercado brasileiro. O remédio foi aprovado em 2016 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e estudos indicavam que levava à perda de cerca de 5% de peso, se combinado a uma rotina saudável.

Menos de seis meses depois da novidade, ele sai das prateleiras, sob suspeita de que aumenta o risco de câncer. A surpresa vem após a publicação de um estudo da fabricante, a japonesa Eisai, divulgado no último mês. 

Em 2012, quando a Food and Drug Administration (FDA, espécie de Anvisa norte-americana) autorizou o registro do medicamento nos EUA, exigiu que a fabricante estudasse os efeitos da droga pelos próximos cinco anos.

Foram acompanhados cerca de 12 mil pacientes durante o período, separados em dois grupos: uma parte utilizava o Belviq e a outra, apenas um placebo. O objetivo principal era verificar se ele causaria danos ao coração, o que foi descartado. Mas outro efeito preocupou. 

Os participantes que fizeram uso do remédio foram mais propensos a desenvolver câncer: 7,7% deles tiveram a doença no pâncreas, pulmão ou reto. No grupo que ingeriu somente placebo, a taxa foi de 7,1%. Ainda não se sabe a relação exata entre o medicamento e o câncer, mas o FDA solicitou que a fabricante retirasse os produtos das farmácias na última quinta-feira. 

No Brasil, quem produz a droga é multinacional Eurofarma, que seguiu o exemplo da empresa japonesa e interrompeu a comercialização a partir de ontem. A Anvisa vai reavaliar a segurança do remédio para decidir se vai suspender o registro. 

Custo-benefício

Ainda que o aumento da ocorrência de câncer não tenha sido significativo, o FDA considera que os benefícios da droga não valem o risco – outras opções do mercado levam a emagrecimento similar. 
“Uma vantagem dele era não ter interação com outros remédios ou muitos efeitos colaterais”, explica a endocrinologista Silmara Leite, que já vinha receitando a opção – ainda não popularizada devido ao custo, de quase R$ 400 a caixa com 60 unidades. Por agir especificamente em um receptor do cérebro para estimular a sensação de saciedade, era considerada uma alternativa quase sem riscos.

Adauto Versiani, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), em Minas Gerais, recomenda que os pacientes interrompam o uso de imediato e descartem o remédio, sem rótulo, no lixo comum. 

Como o remédio funciona

  • A lorcasserina inibe a captação de serotonina (hormônio responsável por várias funções do corpo, inclusive o humor), deixando-a mais livre para agir no organismo. Níveis baixos de serotonina costumam levar a mais vontade de ingerir carboidratos e doces.
  • Há vários receptores de serotonina no cérebro, mas o remédio atua apenas sobre o 5HT2C, presente no hipotálamo (área que regula funções como apetite e sono).
  • Por isso, pessoa passa a se sentir mais saciada ao ingerir o remédio. 

Fonte: Agencia Brasil