A parede amarela foi o que chamou a atenção, na Avenida Jorge Amado, no Imbuí. Ao vê-la, os amigos Jailson Galdino Souza dos Santos, o Scank, 27 anos, e Jerry, 27, decidiram grafitá-la. Em seguida, uma série de acontecimentos que Jerry não consegue esquecer: gritos, uma correria e um tiro. Poderia, segundo ele, ser mais uma noite na vida de um artista de rua. Mas não era qualquer noite: horas mais tarde, descobriu que Scank tinha sido assassinado.

O grafiteiro foi espancado e morto com um tiro nas costas, nas imediações da entrada do Bate Facho. O corpo dele foi enterrrado nessa sexta-feira (14), no Cemitério Municipal de Brotas.

“Eu achei que essa seria uma cena como a de todas as outras. Constantemente, isso ocorre com pichador. Subir para grafitar e ser confundido com ladrão”, desabafou Jerry, após o enterro de Scank. 

As circunstâncias da morte, ainda não esclarecidas pela polícia, revelam um contexto mais amplo – de preconceito, julgamento e marginalização da arte de rua. 

“O grafiteiro, quando sobe na parede, não está com a intenção de roubar. A intenção é de deixar a nossa arte. A gente se arrisca porque a gente não tem como bater de frente com a sociedade. Eu não fiz faculdade, não sou visto, não sou nada para a sociedade. Quando eu picho, eu incomodo. Quando eu faço grafite, deixo uma mensagem”, explicou. 

Scank e Jerry se conheceram em 2008. Os dois começaram a fazer a rua de tela praticamente ao mesmo tempo. Primeiro, veio a pichação. Depois, descobriram o grafite. Em 2014, criaram um coletivo – o Família U16, que está presente até nas assinaturas deles. Desde então, era comum saírem juntos para pintar muros. 

Na madrugada de quinta, Jerry tinha subido um andar. “Se você passar lá agora, ainda dá para ver que eu comecei a fazer o J”, disse. Scank ficara embaixo, na altura da rua, esperando que ele descesse. “Mas foi coisa de um minuto para aparecerem os caras. Primeiro, eram só dois, dizendo ‘vocês estão pichando a favela, aqui não”, contou. Segundo ele, eram moradores da área. 

Àquela altura, Scank já estava sendo espancado. Usavam barras de ferro, madeira e até uma telha. Jerry desceu para ajudar o amigo. Achou que, estando em dois, conseguiriam se defender. Só que, ao descer, percebeu a chegada de outros três homens. Assim, os cinco suspeitos continuaram a atacar os grafiteiros, que foram levados até próximo ao Bate Facho. 

Ensanguentados, saíram correndo em direção à Madeireira Brotas.

“Scank estava correndo e eu também. Ouvi o tiro, mas achei que era para cima. Muitas vezes, as pessoas dão tiro para cima para assustar”, explicou Jerry, que continuou correndo até chegar em casa.

De lá, ligou para a companheira de Scank. Contou o que tinha acontecido e disse que o amigo devia estar chegando. “Eu expliquei que do jeito que eu estava, ia ter que ir para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento), mas para ela esperar por ele”, disse. Só depois soube que Scank tinha sido morto. Jerry teve ferimentos na cabeça, nos olhos, nos braços, no tórax e fraturou o ombro direito. Agora, precisa fazer uma cirurgia. 

O caso está sendo investigado pela delegada Marta Karine, da 1ª Delegacia de Homicídios do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Ela não quis dar entrevista, mas, através da assessoria, informou que a investigação está em andamento. 

“Neste momento, as hipóteses preliminares estão sendo checadas. Não há informações que possam ser divulgadas, nesta altura da apuração, sob pena de interferir na investigação”, completou a assessoria da Polícia Civil.

Scank começou a desenhar ainda na adolescência (Foto: Osso_photo/Divulgação)

Da rua para a universidade
Scank tinha uma relação com a Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Há alguns anos, ajudava a mãe a vender quentinhas na instituição. Querido por professores e colegas, não era incomum participar de seminários sobre arte de rua na Ufba. 

“Uma coisa que fui trazendo é o entendimento de que arte de rua e arte para a rua são dois conceitos bem distintos. No caso de Scank, é uma vivência para a rua no contexto urbano que traz o entendimento sobre o que é ser um jovem periférico e a leitura do que ele faz na cidade”, explicou o professor Roddolfo Carvalho, responsável pela disciplina Mural na Escola de Belas Artes. 

Para o professor, ainda não há o costume de ver um negro protagonizar o cenário das artes. Esse é um dos motivos para o contexto da arte de rua e do hip hop ser marginalizado.

“Uma coisa é certa: se eu estiver grafitando e um amigo meu negro estiver grafitando uma parede, as reações vão ser completamente diferentes. O negro vai ser visto como vândalo até que a pessoa consiga associar a pessoa como artista”, completou o professor. 

De acordo com ele, o picho tem caráter político. É um tipo de manifestação que existe desde o Império Romano, quando se popularizaram os protestos políticos contra os imperadores nas paredes da cidade. 

Amigos de Scank grafitam o muro na saída do cemitério de Brotas (Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)

“O picho também tem essa função de dar essa nova abordagem estética a uma cidade de acordo com que forma essa cidade trabalha o seu cidadão”, explica. Já o grafite tem uma herança associada ao muralismo, com  o fato de desenhar numa parede e estabelecer uma linguagem que possa definir, de forma identitária, um grupo. 

Alguns trabalhos de Scank devem fazer parte de uma exposição coletiva em Amsterdã. Organizada pelo coletivo do artista e pichador paulista Djan Cripta, a exposição teria Scank representando a estética do letrado baiano da arte de rua. 

“É muito frustrante a gente ver até que ponto a ignorância leva as coisas no Brasil. As pessoas agem assim porque não tiveram educação para entender o que é arte. Para alguns, um muro tem mais valor do que uma vida”, afirmou Djan. 

Ele explica que o ateliê dos artistas de rua é a própria rua. “A arte de rua nasceu por conta dessa necessidade de expressão de pessoas que são carentes, que não tiveram condição de estudar na universidade. Muitas vezes, a pessoa só tem a tinta, a rua e a necessidade de se expressar”. 

Fonte: Correio