A Viradouro foi campeã do Carnaval do Rio de Janeiro nesta quarta-feira (26), virando no penúltimo quesito e conquistando a ponta da folia carioca. A escola teve um enredo que homenageou as Ganhadeiras de Itapuã.

O samba teve influência do afoxé. E o desfile contou com participação da cantora Margareth Menezes, que saiu como destaque do carro que lembrou as cirandas de roda à beira do mar aberto. A baiana Lore Improta também participou do desfile, como a Rainha do Carnaval de Itapuã.

(Fotos: Reprodução/Instagram)

O desfile começou com uma referência à Lagoa do Abaeté. A atleta do nado sincronizado Anna Giulia apareceu vestida de sereia dentro de um aquário com 7 mil litros de água mineral. “Sem palavras. Foi muito bom. Me diverti a cada momento”, garantiu Anna.

(Foto: AFP)

A rainha de bateria Raissa Machado vestiu uma fantasia em homenagem à rainha dos Malês, Luiza Mahin, uma das lideranças do movimento que aconteceu em Salvador. 

Durante o desfile, foram distribuídas cocadas para o público. O desfile mostrou as atividades que as Ganhadeiras exerciam: lavar roupa, carregar e vender água, cozinhar e vender alimentos, costurar, vender objetos.

Veja trecho:

“Emoção”
“Minha emoção foi muito grande, mas eu me controlei. Graças a Deus, o desfile foi muito lindo. E eu fico tão emocionada pois nunca vi uma quantidade de gente tão grande como vi aqui. Era muita gente nos aplaudindo. Tenho certeza que vamos ganhar!”, disse Dona Tereza Conceição, que desde a fundação, em 2004, faz parte das Ganhadeiras de Itapuã. Ela e as outras mulheres que fazem parte do grupo vieram no último carro alegórico da Viradouro, encerrando o desfile. 

E para essa homenagem, duas baianas de peso deixaram o Carnaval de Salvador de lado e vieram para a Sapucaí. Margareth Menezes que, na quinta e sexta-feira de Carnaval puxou a pipoca no Circuito Barra/Ondina, e ontem esteve em Recife, fez questão de desfilar na Viradouro. 

“Elas são um tesouro para a Bahia e o Brasil. Elas representam as mulheres negras, a luta contra a descriminação e pela liberdade. O reconhecimento da Viradouro foi grandioso e fiquei feliz com o convite da escola, não podia faltar”, disse Margareth, que veio vestida de cantora de Carnaval, num destaque do quarto carro alegórico, que representava a musicalidade baiana.

Essa foi o primeiro desfile de Margareth numa escola de samba. Na frente do carro alegórico, como musa da escola, veio a dançarina Lore Improta, que saiu pela segunda vez na Viradouro. Na primeira ocasião, em 2018, a dançarina levou sorte para a Vermelho e Branco de Niterói, que conquistou o título da Série A e passou a desfilar no Grupo Especial.

Esse ano, Lore desfilou de Rainha do Carnaval de Itapuã. “Poder voltar com um samba que fala sobre a Bahia foi muito incrível. Tenho certeza que vamos ganhar e vou voltar no sábado das campeãs, se Deus quiser”, disse Lore.

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No ano passado, a Viradouro ficou em segundo lugar e esse ano chegou como favorita para a conquista do título. O desfile abordou desde as ancestrais das Ganhadeiras, mulheres zungueiras que vieram da África para o Brasil e aqui se estabeleceram como escravas de ganho, aos outros movimentos compostos somente por mulheres, como as Catadeiras do Sisal, de Valente, interior baiano, e as Farinheiras de Barrocas, também da Bahia.  

Na comissão de frente, a escola homenageou as zungueiras, com mulheres que daçavam com gingado forte, saudando Oxum e pedindo passagem para a escola. As senhoras da ala das Baianas foram vestidas de baianas quituteiras, que hoje são as mulheres que vendem Acarajé nas ruas de Salvador. O carro abre-alas, todo dourado, tinha uma fonte que jorrava água na avenida. Já a segunda alegória fez uma representação da bica de Itapuã, onde os escravos íam pegar água para seus senhores.

A bateria foi fantasiada do grupo de afoxé Malê Debalê. “A gente pesquisou, estudou e preparamos uma nuance de ritmos baianos para juntar com o samba”, disse Mestre Ciça, que comanda a bateria e veio vestido de Rei Malê. Já Raissa Machado, a rainha da bateria, foi vestida de Rainha Malê. 

Na 20ª ala, que representava a festa de Iemanjá, a escola ainda trouxe um elemento cênico enorme, a Baleia de Itapuã, festa criada por João Loureiro e Waly Salomão, em 1987. Após o carnaval, a estrutura vai ser doada ao grupo que mantém a festa viva até hoje. 

Veja a letra do samba:
Ora yê yê o oxum! Seu dourado tem axé
Fiz o meu quilombo no Abaeté
Quem lava a alma desta gente veste ouro
É Viradouro! É Viradouro!
Levanta preta que o Sol tá na janela
Leva a gamela pro xaréu do pescador
A alforria se conquista com o ganho
E o balaio é do tamanho do suor do seu amor
Mainha, esses velhos areais
Onde nossos ancestrais
Sempre acordam a manhã
Pra luta
Sentem cheiro de angelim
E a doçura de quindim
Na bica de Itapuã
Camará ganhou a cidade
O erê herdou liberdade
Canto das Marias, baixa do dendê
Chama a freguesia pro batuquejê
São elas dos anjos e das marés
Caboclas do balangandã, ô iaiá
Ciranda de roda na beira do mar
Aguadeira que benze e vai pro terreiro sambar
Ganhadeira de fé!
É a voz da mulher
Xangô ilumina a caminhada
A falange está formada
Um coral cheio de amor
Kaô! O axé vem da Bahia
Esta negra cantoria
Que Maria ensinou
Oh mãe ensaboa
Mãe ensaboa pra depois quarar

Fonte: Correio