Voluntários contam histórias por telefone durante quarentena no Rio de Janeiro

“As pérolas do fundo do mar, tua mãe roubou pra te pintar,/ Pra te fazer/ E agora você é um pequenino pedaço do oceano também”, falava a estudante Clara de Azevedo Patiño, de 17 anos, em uma ligação telefônica a uma criança que ela não conhecia.

Clara é uma das voluntárias do programa Histórias por Telefone, que promove o encontro de pessoas que querem ouvir histórias ou poesias com aquelas que querem contá-las. Criado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado do Rio de Janeiro, o projeto foi pensado para que os idosos não se sintam sozinhos enquanto estão isolados na pandemia do novo coronavírus, mas já ultrapassou as fronteiras da idade.

Em duas semanas de programa, mais de 2.500 pessoas se inscreveram para ouvir histórias e quase 900, para contar. A média de idade entre ouvintes é de 56 anos e, entre contadores, 43; as mulheres são maioria nas duas categorias. Ultrapassou também as fronteiras fluminenses. Como é possível fazer e receber as ligações pela internet, há pessoas inscritas em outros estados e até em Portugal.

Prestes a lançar seu primeiro livro de poesia, Clara lê ao telefone seus poemas ou escreve um novo para quem está do outro lado da linha. O trecho deste que abre a reportagem ela escreveu para Pérola, uma menina de quatro anos, para quem a mãe, inscrita no programa, queria que lessem uma história.

A jovem diz sentir felicidade ao perceber que as pessoas se sentem menos sozinhas com as leituras. “Só tem amor quem sabe dar, e é o amor desinteressado”, diz ela, que também faz parte de outros grupos de voluntários na igreja católica que frequenta.

A ideia do programa surgiu a Pedro Gerolimich, superintendente de leitura e conhecimento da secretaria, quando recebeu uma ligação da Tia Rô, como é conhecida Rosangela Oliveira, uma das colaboradoras da Biblioteca Parque Rocinha, gerida pela secretaria. Idosa, ela está em isolamento em casa e se sentia sozinha.

A funcionária pública e poeta Cristina Ávila de Melo, de 45 anos, foi a primeira a se inscrever no programa. “Eu me sinto bem em participar, ganho coisas boas quando faço algo de coração. Às vezes eu também estou me sentindo sozinha, então eu leio para alguém e depois trocamos uma ideia”, diz.

Cristina estima já ter ligado para 15 pessoas desde que o programa começou, no dia 30 de março, lendo poemas seus e de outros autores. “Há uma troca de energia. Por que não posso ligar para saber um pouco do outro?”, pergunta.

Ruth Leite, de 81 anos, inscreveu-se inicialmente para ouvir, mas depois decidiu ler. Agora ela lê um livro, a cada ligação um capítulo, para três pessoas, duas mulheres e um homem, com o plano de fazer uma ligação por semana a cada um.

“Eu me sinto mais útil, e não tenho tempo para pensar na solidão”, diz ela, que já foi professora de francês e português, e que estava começando a fazer um curso de teatro antes do isolamento.

Simone Dias da Silva se inscreveu recentemente para ouvir e para ler. A professora de educação infantil de 40 anos ainda não recebeu os contatos para telefonar, mas já recebeu duas ligações com histórias. “Fiquei muito emocionada com uma poesia de Fernando Pessoa sobre a amizade. Vivemos esse tempo de incertezas e foi uma forma de acalentar o coração.”

Simone conta que colocou as ligações no viva-voz, para que seus dois filhos, de 14 e sete anos, também pudessem ouvir. “É uma forma de abraçar, de mandar um carinho”, diz.

Aqueles que se inscrevem como voluntários do programa recebem, além de uma lista de nomes e telefones para quem ligar, uma cartilha com dicas. Entre elas, a de falar com voz alegre e suave, se apresentar e então perguntar se a pessoa pode ouvir naquele momento e, após a leitura, falar o nome do autor. A secretaria disponibiliza ainda um arquivo com poemas, fábulas, contos e letras de canções.

PARA PARTICIPAR DO PROGRAMA
Candidate-se a ouvir histórias ou ou indique amigos e familiares: https://bit.ly/2REahDJ

Seja um contador de histórias ao telefone: https://bit.ly/2VxUjMJ

Fonte: Agencia Brasil