De cloroquina a isolamento: relembre os embates entre Bolsonaro e Mandetta

A demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já vinha sendo cogitada havia alguns dias. Isso devido às constantes trocas de farpas entre ele e o presidente Jair Bolsonaro, mesmo que de forma sutil. Relembre alguns desses embates, que se fortaleceram após o crescimento do número de casos de coronavírus no Brasil.

Isolamento social

Desde o início da pandemia, os dois vinham se desentendendo sobre a melhor estratégia social para combater a Covid-19. Enquanto Mandetta defendia o isolamento horizontal da população, ou seja, de todas as faixas etárias e grupos, Bolsonaro queria flexibilizar o funcionamento do comércio e das escolas, para diminuir a crise econômica.

Bolsonaro: Devemos, sim, voltar à normalidade.

Mandetta: Quando você vê as pessoas entrando em padaria, supermercado, fazendo fila, piquenique, isso é claramente uma coisa equivocada.

Cloroquina

Até em pronunciamentos em cadeia de rádio e televisão, o presidente enfatizava o uso da hidroxicloroquina – indicada para tratar malária, mas que tem resultados promissores contra o coronavírus. Entretanto, o ex-ministro pedia cautela quanto ao uso do remédio, pois ainda não há pesquisas científicas conclusivas sobre isso.

Bolsonaro: Temos mais boas notícias. Fruto de minha conversa direta com o primeiro-ministro da Índia, receberemos, até sábado, matéria-prima para continuarmos produzindo a hidroxicloroquina, de modo a podermos tratar pacientes da Covid-19, bem como malária, lúpus e artrite.

Mandetta: Ele [Bolsonaro] defende, como todos nós defendemos, que, se há uma chance melhor para esse ou aquele paciente, que a gente possa garantir o medicamento. Mas ele também entende quando a gente coloca situações que podem ser mais complexas. Ele também entende que os Conselhos precisam analisar (o uso da cloroquina).

Imagem

Segundo assessores de Bolsonaro, o chefe do Executivo estava ficando incomodado com a imagem em evidência do então ministro, que era o principal interlocutor com a população para falar sobre a Covid-19. Um comportamento que teria despertado a irritação de Bolsonaro seria a aparição de Mandetta em lives de cantores sertanejos na internet, como a de Jorge e Mateus e a de Marília Mendonça.

Bolsonaro: Em alguns momentos, acho que o Mandetta teria que ouvir mais o presidente. O Mandetta quer fazer valer muito a vontade dele. Pode ser que ele esteja certo, mas está faltando humildade para ele conduzir o Brasil neste momento.

Mandetta: Não sou o dono da verdade, estou simplesmente vendo um paciente e dizendo que esse é o melhor caminho. Mas é normal também o médico falar que o caso é de cirurgia, e o paciente querer ouvir uma segunda opinião.

Entrevista

Um das últimas atitudes que geraram tensão entre as partes foi uma entrevista de Mandetta ao programa “Fantástico”, da TV Globo, no último domingo (12). Ele teria criticado a divergência de opiniões entre os dois líderes com relação à pandemia e cobrou uma “fala única” para não confundir a população.

Bolsonaro: Eu não assisto à Globo. Pessoal da imprensa, eu não assisto à Globo, tá ok? Bom dia para vocês.

Mandetta: Eu espero que essa validação dos diferentes modelos de enfrentamento dessa situação possa ser comum e que a gente possa ter uma fala única. Isso leva para o brasileiro uma dubiedade. Ele não sabe se escuta o ministro da Saúde, o presidente.

Gavetas vazias

Na última segunda-feira (13), pós-entrevista em rede nacional, parte da imprensa falava que Bolsonaro já tinha se decidido pela demissão do ministro, mas a ala militar do governo convenceu Bolsonaro a não fazê-lo. Mandetta chegou a dizer que suas gavetas foram até esvaziadas, o que gerou um clima de indecisão sobre a sua saída do governo.

Bolsonaro: Pessoal, estou fazendo a minha parte. Resolveremos a questão da Saúde no Brasil para tocar o barco.

Mandetta: Hoje foi um dia que rendeu muito pouco o trabalho do ministério. Teve gente limpando gaveta, pegando as coisas. Até as minhas gavetas.

Fonte: Agencia Brasil