Mandetta deixa Ministério da Saúde sob aplausos

A conversa entre o presidente Jair Bolsonaro e o agora ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta destoou das notícias recentes envolvendo os dois. Enquanto o presidente se referiu à situação como um “divórcio consensual”, Mandetta falou sobre um “encontro amistoso” entre os dois. A saída do ministro já era esperada e o mesmo tinha se despedido de sua equipe e feito um balanço da sua gestão um dia antes. 

Mesmo com a expectativa da mudança, durante um pronunciamento de Bolsonaro ontem para tratar do assunto e apresentar o novo ministro, o oncologista, Nelson Teich, panelaços espalhados por diversas cidades brasileiras mostraram o descontentamento de parte da população com a mudança. Mandetta deixou o prédio do Ministério da Saúde aplaudido pelos ex-auxiliares. 

Ao lado do novo ministro, Bolsonaro agradeceu a Mandetta por seu trabalho e voltou a criticar medidas restritivas de governadores. “Foi realmente um divórcio consensual. Acima de mim como presidente e dele [Mandetta] como ainda ministro está a saúde do povo brasileiro. A vida para todos nós está em primeiro lugar”, declarou Bolsonaro. Segundo o presidente, Mandetta aceitou participar de uma transição no ministério com a equipe do novo ministro.

Despedida
Em seu discurso de despedida, Luiz Henrique Mandetta foi enfático na defesa da ciência, do SUS e de sua equipe. “Esse problema [demissão] é insignificante. Nada tem significado que não seja uma defesa da vida, do SUS e da ciência. Fiquem nesses três pilares que deles vocês conquistarão tudo”, destacou. “A ciência é a luz, é o iluminismo. Apostem todas as suas energias através da ciência. Não tenham uma visão única e pensem dentro de uma caixinha”, afirmou a servidores da pasta.

Mandetta pontuou ainda que o pior da crise do novo coronavírus está por vir. “Não pensem que estamos livres de um pico dessa doença. O sistema de saúde ainda não está preparado para uma marcha acelerada”, avisou. 

Aos servidores, fez o pedido de apoio ao futuro ministro. “Trabalhem para o próximo ministro tal qual vocês trabalharam para mim. Ajudem, não meçam esforços”, disse. 

“Eu deixo este Ministério da Saúde com muita gratidão ao presidente por ter-me nominado e ter permitido que eu nominasse cada um de vocês”, afirmou. 

No pronunciamento, o ex-ministro ainda citou um trecho da canção “Metamorfose Ambulante”, de Raul Seixas. “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Vocês podem acreditar e são vocês que levam, que a opinião seja essa, após o embate, após a reflexão, após o conjunto dessa obra”, disse aos funcionários do Ministério da Saúde.

Segundo Mandetta, no encontro o presidente voltou a manifestar preocupação com os efeitos da epidemia sobre a economia. “Sei da dificuldade, do peso da responsabilidade dele, do peso que é você decidir e que momento a economia deve retomar a sua normalidade. O impacto disso no emprego de milhões de pessoas”, disse. “O presidente é extremamente humanista. Ele pensa também, nesse momento todo, pós-corona, tenho certeza que nosso senhor Jesus Cristo vai iluminá-lo e vai abençoá-lo para que ele possa tomar as melhores decisões”, afirmou Mandetta.

Luiz Henrique Mandetta não respondeu a perguntas de jornalistas, mas agradeceu ao trabalho da imprensa, que, segundo o ex-ministro, “sempre foi parceira da verdade” apresentada diariamente pela pasta que chefiava.

Resposta conjunta
O Congresso reagiu à troca no Ministério da Saúde com críticas ao presidente Jair Bolsonaro e elogios a Luiz Henrique Mandetta. A demissão fez os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), divulgarem pela primeira vez uma nota conjunta. As cúpulas das duas Casas relataram temor de que a saída de Mandetta prejudique o combate ao novo coronavírus no País.

Além disso, parlamentares cobraram do novo ministro, Nelson Teich, a adoção de uma agenda científica. “O trabalho responsável e dedicado do ministro foi irreparável. A sua saída, para o País como um todo, nesse grave momento, certamente não é positiva e será sentida por todos nós”, afirmaram Maia e Alcolumbre. Os dois fazem parte do mesmo partido do ex-ministro.

No documento, os parlamentares manifestam expectativa de que o novo titular da pasta dê continuidade ao bom trabalho que vinha sendo desempenhado pelo Ministério da Saúde. Os dois fizeram apelo por um trabalho com base na ciência. “A vida e a saúde dos brasileiros devem ser sempre nossa maior prioridade.” 

No Congresso, há temor de que a troca na equipe cause uma confusão no combate à pandemia.  Nos últimos dias, Mandetta desabafou com o senador e primo Nelsinho Trad (PSD-MS), relatando cansaço e pressão no cargo e vendo sua demissão como certa. Trad tentou reverter a situação e apelou para um acerto com o presidente Jair Bolsonaro, o que não ocorreu. 

O presidente do DEM, partido de Mandetta, ACM Neto, emitiu nota para defender o posicionamento do ex-ministro durante a crise. “Não temos dúvidas que o ex-ministro Mandetta ainda contribuirá muito para a vida pública nacional”, diz a nota. ACM ainda mandou um recado para Nelson Teich, esperando “que o novo ministro possa pautar as suas decisões em critérios técnicos e científicos” para evitar um crescimento desenfreado do vírus.

A saída de Mandetta foi lamentada por governadores. Chefes dos Executivos estaduais que defendem medidas de isolamento social, ao contrário do que prega o presidente Jair Bolsonaro, cobraram que Nelson Teich siga as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) no combate à pandemia.

O paulista João Doria (PSDB) disse que a demissão de Mandetta foi uma “perda para o Brasil”. 

Mandetta buscou valorizar o SUS em sua gestão 
Em seu discurso de despedida, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta destacou o trabalho para a valorização do Sistema Único de Saúde (SUS). Sai com o legado de choques nas gestões de hospitais federais, como os seis do Rio de Janeiro, centralização de compras no SUS, além de ter modificado o programa Mais Médicos, convertido no Médicos pelo Brasil, que foi lançado em agosto de 2019.

Antes do crise do novo coronavírus, a suspensão de contratos para fabricação, por laboratórios públicos, de 19 remédios que são distribuídos no SUS foi a principal polêmica envolvendo a sua gestão na pasta da saúde. Na ocasião, Mandetta criticou o modelo de negócios, mas afirmou que não haveria desabastecimento.

Ele defendeu as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), por meio das quais laboratórios públicos nacionais não apenas compram remédios de outros estrangeiros mas também incorporam a tecnologia para produzi-los.

Um mês de divergências sobre combate à Covid-19

15 de março
O presidente Jair Bolsonaro participa de manifestações favoráveis ao governo, cumprimenta manifestantes, faz selfies. 

16 de março
Mandetta critica Bolsonaro: “É ilegal? Não. Mas a orientação é não. E continua sendo não para todo mundo”.

02 de abril
Bolsonaro afirma que está “faltando humildade” ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. “O Mandetta quer fazer muito a vontade dele. Pode ser que ele esteja certo. Pode ser. Mas está faltando um pouco mais de humildade para ele, para conduzir o Brasil neste momento difícil que encontramos e que precisamos dele para vencer essa batalha”.

03 de abril
O ministro diz que não comentaria as declarações do presidente. Mas afirma: “Ele tem mandato popular, e quem tem mandato popular fala, e quem não tem, como eu, trabalha”.

05 de abril
Bolsonaro ameaça “usar a caneta” contra ministros que “viraram estrelas”. No dia seguinte, Mandetta questiona Bolsonaro sobre o motivo pelo qual não o demite, e o presidente fica em silêncio.

06 de abril
O presidente Jair Bolsonaro avisa aos seus auxiliares mais próximos que decidiu demitir Mandetta. O presidente almoçou com dois supostos candidatos ao cargo. O agora ex-ministro contou durante uma entrevista que chegou a “arrumar as suas gavetas”, antes de uma conversa com o presidente, mas a situação foi revertida, com o apoio de ministros militares. 

09 de abril
O presidente Jair Bolsonaro ironiza frase utilizada por Mandetta e diz que “médico não abandona o paciente, mas o paciente troca de médico”. O presidente disse que a troca poderia acontecer se o paciente estivesse insatisfeito com a mecicação prescrita pelo médico.

11 de abril
O presidente vai a Goias e provoca aglomerações em Águas Lindas, quando visitou um hospital de campanha. Mandetta criticou a atitude. “Posso recomendar, não posso viver a vida das pessoas. Pessoas que fazem uma atitude dessas hoje daqui a pouco vão ser as mesmas que vão estar lamentando”. 

12 de abril
No último domingo, em uma entrevista ao Fantástico, da TV Globo, o então titular da Saúde deixou clara a sua posição de apoio às medidas de isolamento social para conter o avanço da epidemia e afirmou que o governo precisava de um discurso unificado.

13 de abril
Militares que apoiavam a permanência do ex-ministro passaram a critica-lo por conta de suas declarações contra o presidente. O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou numa entrevista que o ex-ministro ultrapassou uma linha perigosa. Ex-ministro reconhece a amigos que errou ao conceder a entrevista. 

15 de abril
Presidente avisa que resolverá o problema da saúde ainda nesta semana. Ex-ministro concede entrevista em tom de despedida.

Fonte: Correio