Fogão a lenha e passeio a cavalo: Lucas Arcanjo curte a fazenda em Piritiba

Conversas à luz da fogueira, passeios de cavalo, caminhadas na mata e refeições ao redor do fogão a lenha. Lucas Arcanjo deixou a cidade grande e se refugiou no interior durante o isolamento social provocado pela pandemia de coronavírus. Um dia após o Vitória suspender as atividades na Toca do Leão, em 17 de março, o goleiro viajou para a fazenda onde a família mora, em Piritiba, a 323 km de Salvador, no centro-oeste do estado, lugar que nasceu. 

Titular nos dois últimos jogos do time principal do Vitória antes da suspensão dos campeonatos, o goleiro de 21 anos está saboreando as iguarias preparadas por Lourdemildes. Dona Lú, como é carinhosamente conhecida, 44 anos, está realizando todos os desejos gastronômicos do filho. 

“Minha mãe cozinha bem demais, poxa, ela faz uma moqueca de peixe…”. Nada de horas e horas esperando o anzol ser fisgado. A vara de pesca só é usada quando se quer um pouco de diversão. A rede leva a refeição bem rapidinho do tanque de criação para a cozinha. Basta escolher entre tilápia, pirarucu ou carpa. “Aqui tudo é preparado na panela de barro, no fogão a lenha. É gostoso demais. Minha mãe também faz pão no forno, aquela coisa bem de fazenda mesmo”, conta Lucas, que assumiu a titularidade do gol rubro-negro após Martín Rodríguez e Ronaldo se machucarem. 

Na fazenda da família, dona Lú cozinha no fogão a lenha para o filho Lucas Arcanjo (Foto: Aquivo pessoal)

A viagem permitiu que ele contasse pessoalmente as emoções da derrota por 1×0 para o Ceará, no estádio Castelão, em Fortaleza, pela Copa do Brasil, e da goleada por 4×1 em cima do River-PI, no Barradão, pela Copa do Nordeste. As conversas são sempre de boca cheia. Ao menos na casa de seu Geraldão, 77 anos, e dona Júlia, 75. “A fazenda de meus avós é aqui do lado, aí sempre vou lá. Minha vó faz cada doce bom demais. De banana, beiju recheado, bolo de chocolate, de cenoura. É tanta coisa. E dia de sábado tem uma farofinha que só ela sabe fazer. Eu como bastante”, confessa Lucas. “Como eu não tenho histórico de percentual de gordura alto, é tranquilo”.

Além de comer, Lucas tem outros prazeres na fazenda, como cavalgar em Diamante. O cavalo, uma mistura das raças quarto de milha e puro-sangue inglês, está com ele desde a infância e é companheiro dos finais de semana. “Gosto muito, mas ando mais no final de semana, porque fica tudo um pouco dolorido. Visito os povoados pela estrada de chão”.

O tempo livre permite analisar os últimos jogos com calma. “O primeiro, contra o Ceará, foi atípico, por causa do campo. Foi um jogo bastante difícil e aconteceu depois de uma semana bastante atribulada. Foi bastante importante para mim porque foi um jogo difícil e eu me saí muito bem”, avalia. Na ocasião, o gramado do estádio Castelão estava alagado e os times tiveram dificuldade em fazer a bola rolar. “O outro, a goleada contra o River-PI, foi mais pra mostrar a cara do Lucas Arcanjo profissional. Não fui muito exigido, mas pude passar confiança para o time e para a torcida”.

O período atribulado a que ele se refere foram os dias seguintes ao Ba-Vi do Campeonato Baiano, disputado em 1º de março. O rival tricolor venceu o clássico por 2×1, no Barradão, e ele encarou a insatisfação da torcida rubro-negra. “Tive que desativar rede social, fui ameaçado por torcedor. Nunca tinha passado por isso. Na base, a torcida tem tolerância, mas no profissional querem resultado. Quando terminou o jogo, no próprio estádio, começaram a me xingar. Foi uma agonia e tive que desativar tudo para dar uma acalmada”, revela Lucas, que contou com as orientações da irmã. Natália, 24 anos, é psicóloga.

Quase dois meses depois, ele analisa a própria atuação naquele Ba-Vi. “Sobre o primeiro gol, na pequena área, realmente a bola é do goleiro, só que a bola saiu muito pela marca do pênalti e caiu muito lá atrás. Foi uma bola diferente e não tinha como eu sair. O segundo gol foi uma falta no bico da área que não dava pra ver direito, tinha muita gente na minha frente. Foi uma bola difícil, não teve jeito de pegar”, se defende. Os tentos foram marcados por Anderson e Arthur Rezende. Eron descontou para o Vitória.

As consequências do clássico foram superadas por Lucas, que já reativou as redes sociais e prefere ter os jogos contra Ceará e River-PI como recordações mais frescas na memória. São eles que reforçam a confiança do goleiro rubro-negro durante a pandemia. “A gente olha o histórico do jogo e vê como é gostoso estar jogando. Serve como motivação a mais pra se dedicar para conseguir uma vaga”.

As atuações no elenco do técnico Geninho amenizaram para ele a extinção do time de aspirantes, que representava o Vitória no estadual e era comandado pelo já demitido Agnaldo Liz. “Dois dias depois que cheguei aqui, fiquei sabendo a notícia. Mandei uma mensagem para o professor Agnaldo Liz agradecendo o trabalho dele e a oportunidade”, conta. “Na verdade, pra mim não surtiu tanto efeito assim, porque eu já estava no profissional, mas para os meninos que estavam lá, era uma oportunidade única para mostrar o futebol”. Caso do zagueiro Nuno, contratado para o projeto, com quem Lucas Arcanjo divide apartamento no bairro do Imbuí. “Ele está um pouco preocupado, porque ainda não falaram nada com ele, mas está esperando uma posição da diretoria”, revela.

Treinador particular

Para poder saborear todas as guloseimas preparadas pela mãe e pela avó , Lucas segue uma rotina semanal intensa de treinos. Três dias na semana, ele aprimora a técnica no gramado do estádio municipal de Piritiba. Em outros três, o foco é no preparo físico e as atividades são feitas em uma academia de musculação ou nas estradas de barro próximas à fazenda onde mora.   

“Falei com o prefeito e ele liberou o campo do estádio, aí eu treino com meu pai lá. Quando meu pai não pode ir, vou com um amigo, Mateus, que já foi goleiro e passou pela base do Bahia”, conta. “Tem um amigo que tem uma academia, ela está fechada, mas ele abre pra mim. Faço musculação pra manter os músculos ativados, pra não perder muita coisa. Quando não dá certo de ir na academia, corro na estrada aqui na frente”, detalha.

Lucas não encontra brecha pra relaxar com os exercícios. “Meu pai não deixa”, diz, em meio a risos. “Ele fala que tem que estar sempre preparado, porque quando fica muito tempo parado, é mais difícil voltar à forma física”. Seu Geraldo, 50 anos, fala com propriedade, já que também foi goleiro profissional. Começou no Galícia e defendeu clubes como Mogi Mirim, Noroeste, Mirassol e Sampaio Corrêa. 

A paixão pelas traves foi despertada em Lucas ainda criança, quando acompanhava os treinamentos do pai. O goleiro rubro-negro também começou no Galícia, em julho de 2014. Antes, dos 8 aos 15 anos, foi treinado por seu Geraldo na fazenda da família, em um campo de futebol feito para essa finalidade, que existe até hoje, mas já não é muito utilizado. “Como é de areia, não tem como fazer muita coisa. Por ser muito duro, não tem como fazer trabalho de goleiro”, explica.

A transferência para o Vitória aconteceu em março de 2015. Promovido ao time profissional no ano passado, Lucas vestiu a camisa no time de cima seis vezes. Depois de estrear contra o São Bento, no dia 18 de maio, na Série B de 2019, fez cinco jogos nesta temporada, três pelo Campeonato Baiano, um pela Copa do Brasil e outro pela Copa do Nordeste. 

O retorno das atividades na Toca do Leão, a princípio, está marcado para 1º de maio, um dia depois das férias coletivas de jogadores e funcionários chegarem ao fim. Com Martín Rodríguez e Ronaldo em recuperação de lesão, Lucas vai brigar por vaga no gol com o recém-contratado César. Ex-Coritiba, ele se destacou no Londrina na Série B do ano passado e foi anunciado pelo Vitória no dia 12 de março. “Antes de dar essa folga, treinei uma semana com ele. Tenho que redobrar o que eu já fazia nos treinos. É uma briga sadia, dentro de campo. É respeitar um ao outro e deixar o treinador decidir”, projeta, confiante.

Por enquanto, Lucas Arcanjo não está preocupado com César, Ronaldo ou Martín Rodríguez. Está focado em Lourdemildes, Júlia e os dois Geraldos da vida dele. “Essa pandemia é também para abrir os olhos das pessoas, pra reconhecer e dar valor à família. Quando voltar a Salvador e os campeonatos recomeçarem, vai ser difícil voltar aqui. Vão ser muitos jogos e viagens. Por isso, estou curtindo ao máximo com meus pais e avós”.

Fonte: Correio