Libertadores 60 anos: o dia em que o Bahia fez o Brasil desbravar a América

Ao ouvir falar de Copa Libertadores da América, muitas lembranças logo pairam no imaginário dos mais apaixonados por futebol. O Santos de Pelé bicampeão sobre Penãrol e Boca Juniors, o São Paulo de Telê, a catimba uruguaia, a hegemonia dos argentinos e a rivalidade com os brasileiros… Pois tudo isso começou com o Esporte Clube Bahia.

Há 60 anos, a bola rolava pela primeira vez na Copa Libertadores da América, ou melhor, na Copa dos Campeões da América. Era assim que o torneio que reunia os principais campeões nacionais do continente foi chamado até 1964 – no ano seguinte adotou o nome Libertadores em homenagem aos líderes da independência das nações da América do Sul.

Juntos, estavam reunidos no torneio os campeões da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai – o do Peru desistiu. Então campeão da recém-criada Taça Brasil, coube ao Bahia o pioneirismo de ser não só o primeiro campeão brasileiro, mas também a primeira equipe do país a disputar a Libertadores. O formato era mata-mata e tiro curto: com apenas oito participantes, o segundo confronto já era semifinal.

A partida inaugural foi digna da magnitude que o torneio ganhou com o tempo: Peñarol 7×1 Jorge Wilstermann, em Montevidéu. No dia seguinte, em 20 de abril de 1960, apenas 22 dias após vencer o Santos de Pelé, Dorval, Pepe e companhia no Maracanã e levantar a Taça Brasil, o Bahia entrava em campo no estádio El Palácio, em Buenos Aires, diante do San Lorenzo. Naquele momento, o tricolor escrevia mais uma linha na sua história e iniciava a rivalidade entre brasileiros e argentinos no torneio.

Goleiro Nadinho, do Bahia, observa a disputa entre a defesa tricolor e Sanfilippo, do San Lorenzo (Foto: Museu Jacobo Urso / San Lorenzo)

A estreia tricolor

A estreia do Esquadrão na Libertadores não aconteceu do jeito que o técnico Carlos Volante imaginava. Como a Taça Brasil de 1959 só foi finalizada em março de 1960, o Bahia quase não teve tempo de reforçar a equipe para a competição continental.

“Mesmo sem os reforços que queria, o Bahia não fará feio”, garantiu Volante em nota veiculada no Jornal do Brasil. Do time campeão brasileiro, apenas uma mudança para a estreia na Libertadores. Leone, que não enfrentou o Santos por estar sem contrato na data da final, voltou ao time na vaga de Nenzinho.

Desta forma, o Bahia enfrentou o San Lorenzo com: Nadinho, Leone, Henrique, Vicente e Beto; Flávio e Mário; Marito, Alencar (Careca), Léo e Biriba.

Do outro lado, o Esquadrão não encarou um time qualquer. Se hoje o San Lorenzo é conhecido como o time do Papa Francisco, em 1960 a referência estava em José Sanfilippo. ‘El Nene’, como é conhecido, é simplesmente o maior artilheiro da história do clube argentino e em 1959 foi o responsável por anotar 31 gols e ajudar o Ciclón a quebrar o jejum de 13 anos sem títulos.

Em campo, o San Lorenzo foi superior e fez valer a força como mandante. Oscar Rossi abriu o placar, aos 14 minutos do primeiro tempo. Na segunda etapa, Miguel Ángel Ruiz ampliou, aos 37 minutos, e Sanfilippo, de pênalti, fechou a vitória por 3×0, aos 44. O resultado forçava o Bahia a vencer o jogo da volta por uma diferença de quatro gols.

Maior artilheiro do Bahia, Carlito fez o primeiro gol na Libertadores
(Foto: EC Bahia)

Carlito, autor do primeiro gol

No dia 3 de maio de 1960, a Fonte Nova sediou o primeiro jogo de Libertadores realizado em solo brasileiro, visto por cerca de 18 mil pessoas.

Para tentar vencer seus conterrâneos argentinos, Carlos Volante recorreu aos serviços do atacante Carlito. Maior artilheiro da história do Bahia, com 253 gols, o atacante gozava de prestígio com o torcedor, mas, já veterano, não havia sido utilizado na campanha do título da Taça Brasil.

>>Leia também: A história da Arena Fonte Nova em números

Com o apoio da torcida, o Bahia partiu para o ataque, mas logo aos seis minutos foi surpreendido pelo gol de Sanfilippo. Dois minutos depois, Carlito mostrou estrela: empatou a partida e anotou o primeiro gol de um time brasileiro na história da Copa Libertadores da América.

Antes do fim do primeiro tempo, o Bahia conseguiu a virada com Flávio. E o Esquadrão recebeu um banho de água fria quando Sanfilippo, de novo ele, empatou para o San Lorenzo aos 12 minutos do segundo tempo. O gol marcado por Marito, aos 43, decretou o triunfo do Bahia por 3×2. A primeira vitória brasileira na história da competição.

O resultado, no entanto, não foi suficiente para evitar a eliminação baiana e o San Lorenzo avançou para enfrentar o Peñarol na semifinal. O time uruguaio se classificaria à final e se tornaria o primeiro campeão do torneio ao bater o Olimpia, do Paraguai.

Carrasco na Libertadores, Sanfilippo viria a vestir a camisa do Bahia nove anos depois daquele encontro. O argentino desembarcou em Salvador em 1969 e permaneceu até 1971. No tricolor, ele caiu nas graças da torcida ao ajudar com gols na conquista do bicampeonato baiano de 1970-71.

Estádio El Palácio, do Huracán, em sua versão contemporânea
(Foto: CA Huracán / Divulgação)

San Lorenzo estreou na casa do maior rival

Na época não existia o Barradão, mas já imaginou se o Bahia jogasse no estádio do Vitória em sua estreia na Libertadores? Pois foi o que aconteceu com o San Lorenzo. O time portenho mandou a partida no estádio Tomás Adolfo Ducó, mais conhecido como El Palácio, casa do arquirrival Huracán.

Segundo o jornalista Antônio Matos, autor do livro Heróis de 59, que narra a trajetória da Taça Brasil conquistada pelo Bahia – e encerrada em 1960, apenas 22 dias antes da estreia na Libertadores -, o local do confronto foi escolhido por causa da modernidade da “cancha” do Huracán, inaugurada em 1947 e já contando com arquibancadas de concreto. O velho Gasómetro foi fundado em 1916, décadas antes de outros grandes estádios do país, como o Monumental de Núñez (1938), La Bombonera (1940) e El Cilindro (1950).

Em tempo: a rivalidade acentuada entre San Lorenzo e Huracán resulta da proximidade entre as sedes dos clubes em Buenos Aires. O San Lorenzo surgiu no bairro de Boedo, que na época da fundação da equipe, em 1908, pertencia ao vizinho Almagro (daí o nome completo ser Club Atlético San Lorenzo de Almagro), enquanto o Huracán tem seu reduto no Parque Patricios, bairro adjacente onde fica o estádio El Palácio. Após o fechamento do antigo Gasómetro em 1979, desapropriado pelo governo para expansão de uma avenida, o San Lorenzo inaugurou em 1993 seu atual estádio, o Nuevo Gasómetro, no bairro de Flores, que fica na mesma região da cidade.

Curiosamente, o estádio El Palacio é famoso também por uma passagem no filme argentino ‘O Segredo dos Seus Olhos’ (2009), que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. 

Marito, Carlos Volante e Alencar com o troféu da Taça Brasil de 1959
(Foto: Acervo pessoal de Marito)

Técnico tricolor era irmão do presidente do Lanús

O elenco do Bahia utilizou as instalações do Lanús para treinar durante sua estada na Argentina, e o mais curioso é o motivo. Quem conta é o jornalista e escritor Antônio Matos, que vai incluir a história dos dois jogos entre Bahia e San Lorenzo pela Libertadores na segunda edição do livro Heróis de 59, em fase de preparação. “O treinador Volante se antecipou à chegada da delegação e conseguiu com o irmão caçula José Norberto Volante, o ‘Pepe’, presidente do Club Atlético Lanús, toda a estrutura da agremiação, com a sede e o estádio La Fortaleza, afastados do centro, já localizados na Grande Buenos Aires”, revela Matos.

Volante, que nasceu na cidade de Lanús, assumiu o comando do Bahia no terceiro e último jogo da final da Taça Brasil de 1959, substituindo Geninho, que comandou todo o resto da campanha. No Brasil, também treinou Vitória (campeão baiano em 1953 e 1955) e Internacional e jogou no Flamengo.

É a partir do sobrenome dele, combinado com a posição em que atuava, que surgiu o termo volante no Brasil para designar o meio-campista com função prioritária de marcação.

Sanfilippo e Mário, capitães de San Lorenzo e Bahia, e o árbitro uruguaio Esteban Marino antes do jogo em 1960
(Foto: Museu Jacobo Urso / San Lorenzo)

Sanfilippo: carrasco, bicampeão e polêmico

O carrasco do Bahia na primeira edição da Copa dos Campeões da América – que só ganharia o nome de Copa Libertadores da América em 1965 – chama-se José Sanfilippo, centroavante que era o craque do San Lorenzo e marcou o terceiro gol no triunfo argentino por 3×0 no jogo de ida, em Buenos Aires, e dois na vitória tricolor por 3×2 na volta, na Fonte Nova.

Ele “pagaria” o estrago causado ao Bahia quase dez anos depois, ao defender o tricolor de 1969 a 1971 e ser bicampeão baiano (1970 e 71). Chegou aos 34 anos e ainda se destacou. Foram 42 gols com a camisa do Esquadrão. Outro time que ele defendeu no Brasil foi o Bangu, em 1968.

Além de maior goleador da história do San Lorenzo, Sanfilippo foi o artilheiro do Campeonato Argentino durante quatro temporadas seguidas, de 1958 a 1961. No total, Maradona é o único a superá-lo, com cinco artilharias quando vestia a camisa do Argentino Juniors, sendo uma em 1978 e quatro consecutivas: duas em 1979 e duas em 1980. Na época, havia dois torneios por ano, o Nacional e o Metropolitano.

Atualmente com 84 anos e morador de Buenos Aires, Sanfilippo é notabilizado na Argentina também por suas declarações excêntricas e polêmicas. Ele é um dos raros argentinos a considerar Pelé melhor que Maradona e, na comparação somente entre seus conterrâneos, ainda coloca Di Stéfano e Messi acima do camisa 10. 

Carlos Bilardo, já como treinador da Argentina na Copa de 1986, observa Maradona (Foto: Getty Images / Fifa)

Futura lenda argentina enfrentou o Bahia

Carlos Bilardo, técnico campeão da Copa do Mundo conduzindo a Argentina de Maradona em 1986 e vice em 1990, enfrentou o Bahia na estreia tricolor na Libertadores. Era jogador e saiu do banco de reservas durante o jogo de ida, em Buenos Aires, substituindo Facundo. Por sinal, uma curiosidade: cada time só podia fazer uma substituição, o que ainda assim era uma inovação na época.

Bilardo atuava como volante. Naquele ano, além de disputar os Jogos Olímpicos de Roma-1960 com a seleção argentina, ele parou na semifinal da Libertadores com o San Lorenzo, derrotado pelo Peñarol, que ergueria a taça.

A glória continental, no entanto, seria alcançada no final da década. Jogando pelo Estudiantes, Bilardo foi tricampeão consecutivo da Libertadores de 1968 a 1970 (e vice em 1971). Feito que até hoje só o Independiente conseguiu igualar – e superar -, no tetra que emendou de 1972 a 1975. Atualmente, o lendário ex-treinador está com 81 anos e sofre da síndrome de Hakim-Adams, uma doença neurológica.

San Lorenzo tinha jogadores de Copa do Mundo

O San Lorenzo não era um time de Sanfilippo e mais dez. Pelo contrário. O time titular que enfrentou o Bahia no jogo de ida tinha outros quatro jogadores que haviam disputado ou disputariam uma Copa do Mundo.

São eles: o atacante Boggio, que foi à Suécia na Copa de 1958; o defensor Páez, o meia Rossi e o atacante Facundo, que foram ao Chile na Copa de 1962. Sanfilippo disputou as duas edições. A Argentina caiu na primeira fase em ambas. Facundo fez o gol da vitória por 1×0 sobre a Bulgária e Sanfilippo marcou na derrota por 3×1 para a Inglaterra em 1962.

Time do Peñarol que abriu a Libertadores. De amarelo, Salvador. De vermelho, o uruguaio Carlos Borges, autor do primeiro gol  (Foto: Conmebol)

Salvador, o primeiro brasileiro

O Bahia é o primeiro clube brasileiro a disputar a Libertadores, e o posto de primeiro jogador cabe a um meio-campista chamado Salvador, mas ele não jogou pelo Esquadrão. Milton Alves da Silva defendia o Peñarol, que abriu a competição com uma goleada de 7×1 contra o Jorge Wilstermann no estádio Centenário, em Montevidéu, em 19 de abril de 1960, um dia antes do Bahia entrar em campo contra o San Lorenzo em Buenos Aires.

Apesar do apelido, Salvador era gaúcho e jogou no Força e Luz-RS e no Internacional, onde ganhou destaque antes de chegar ao clube uruguaio, com o qual venceu a primeira Libertadores da história e foi tricampeão nacional (1958, 59 e 60). Depois jogou no River Plate e no Estudiantes, ambos da Argentina. Faleceu na década de 1970.

Tarnawski, em pé à direita, foi o primeiro europeu a jogar a Libertadores (Foto: Museu Jacobo Urso / San Lorenzo)

O primeiro europeu na Libertadores

O goleiro Vladimir Tarnawski, do San Lorenzo, foi o primeiro jogador europeu a disputar a Libertadores. Ele nasceu na Ucrânia – à época uma das repúblicas da União Soviética – em  1939 e também tinha nacionalidade argentina, onde construiu a carreira jogando ainda no Newell’s Old Boys e no Estudiantes, além de ter chegado à seleção. Pelo San Lorenzo, enfrentou e eliminou o Bahia na fase de estreia em 1960.

Delegação barrada

A delegação do Bahia viveu um momento inusitado ao desembarcar em Buenos Aires para a estreia na Libertadores. Jogadores, dirigentes, comissão técnica e jornalistas que acompanhavam o tricolor foram barrados no aeroporto da capital argentina. O motivo? Eles estavam sem o visto consular ou de turista e foram proibidos de entrar no país. A situação só foi resolvida depois que o presidente Osório Villas-Boas enviou telegrama com urgência para o consulado da Argentina em Salvador.

Bônus: todos os jogos do Bahia na Libertadores

1960
San Lorenzo 3×0 Bahia
Bahia 3×2 San Lorenzo

1964
Bahia 0x0 Deportivo Itália (VEN)
Deportivo Itália 2×1 Bahia

1989
Internacional 1×2 Bahia
Marítimo (VEN) 0x0 Bahia
Unión Táchira (VEN) 1×1 Bahia
Bahia 1×0 Internacional
Bahia 3×0 Marítimo
Bahia 4×1 Unión Táchira
Universitario (PER) 1×1 Bahia (oitavas de final)
Bahia 2×1 Universitario (oitavas de final)
Internacional 1×0 Bahia (quartas de final)
Bahia 0x0 Internacional (quartas de final)

Fonte: Correio