JP Gadêlha, o bombeiro de Feira que queimou línguas e virou estrela mundial da Netflix

Depois de cumprir uma quinzena de quarentena sem me bater com a girl, fui matar a saudade. Depois do assassinato, sentamos na frente da TV, passamos outra quarentena escolhendo algo para assistir na Netflix, até que passou o mini-trailer de ‘The Circle Brasil’.

Por critério de ter um baiano quase caricato no bolo – com camisetas de axés e oxentes, além do uso obsceno do “arretado” –, quis ver. Fernanda, que já tinha assistido, por critério de gostar de dar spoiler – o que vou fazer o mínimo aqui, fique de boas –, topou o review.

E se não vínhamos concordando em nada para assistir, enfim, no que vimos, houve concílio no ponto principal: João Paulo Gadêlha (o JP), bombeiro bombado com textos quadrados por quem ninguém dava nada no primeiro episódio, teve uma remontada exemplar. Saiu de quase defenestrado no “paredão” de estreia para ‘oto patamar’, queimando muitas línguas, inclusive a minha.

JP Gadêlha, 31 anos, é bombeiro militar da Bahia e “novo baiano” (Fotos: Reprodução/Instagram)

Que outro patamar é esse, só assistindo mesmo, mas posso garantir que acompanhar o crescimento do bombeiro pernambucano (daí o “arretado” mal utilizado) radicado em Feira de Santana é bem interessante, sem contar a própria dinâmica do programa: por meio de poucas fotos e curtas mensagens de texto (ninguém se vê ou se ouve), cada abençoado deve conseguir influenciar os demais participantes na corrida por um prêmio de R$ 300 mil.

Pra poupar você de mais texto com a explicação pormenorizada do jogo, peço ajuda a Giovanna Ewbank, a apresentadora.

Bom, na falta de mesa de bar para filosofar sobre a dinâmica do reality e o sucesso de JP (que hoje tem fãs no mundo inteiro, na medida do alcance da Netflix), eu e Fernanda instituímos uma ‘DR do bem’ em prol de um novo consenso. Questionamo-nos: o que explica o êxito (parcial?) na estratégia (estratérria, estrategí) adotada pelo militar para alcançar patentes mais altas na hierarquia do programa? 

Antes de você conferir uma entrevista exclusiva que a coluna Baianidades fez com o moço, explicando seu desembarque na Bahia (e me dando uma apagação sobre militares de cabeça fechada), pedi à minha namorada para ajudar a resumir certo consenso que chegamos sobre o ascensão do baiano postiço. 

Fernanda conseguiu dar quase todos os spoilers (como é da natureza da pessoa), transformando um resumo num textão, veja só que surpreendente. Vetada a participação, deu a volta por cima (inspirada em JP) com o seguinte parágrafo:

“Ele soube fazer as alianças certas e, dentro do jogo dele, era sempre fofo com as candidatas. E aí, foi conquistando com jeitinho as aliadas e aliados também. Pelo fato dele ser sincero com as pessoas, ele foi passando a imagem de uma pessoa confiável, verdadeira. E foi inteligente ao se preservar, evitando tretas”.

Enquanto eu e Nanda voltamos às tretas do modo default de discordância em filmes, séries e realitys, confira o bate-papo com JP Gadêlha – agora, já da parte dele – com minúsculas centelhas de spoilers.

  • Você nasceu em Pernambuco, mas veio pra Bahia com quantos anos? Onde cresceu por aqui? E onde vive atualmente?

Nasci em Recife. Cresci em Pernambuco e aos 19 anos me tornei Oficial R2 do Exército Brasileiro, permanecendo na instituição por quase 9 anos. No período em que fui Oficial, morei em Natal, João Pessoa e retornei para Recife. Com o término do meu tempo de serviço nas Forças Armadas, aos 28 anos prestei o concurso para o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia e me mudei para Salvador, onde realizei o curso de formação. Atualmente resido em Feira de Santana.

  • Há quanto tempo você atua como bombeiro em Feira? Li aqui na coluna Alô Alô que você pretende seguir na carreira, “ajudando pessoas e salvando vidas”. Qual foi o momento como bombeiro que mais lhe orgulhou?

O curso de formação teve duração de, aproximadamente, um ano e atuo como Bombeiro Militar desde junho de 2019. Nesse período, tive a oportunidade de crescer enquanto profissional e ser humano. Não há como definir um único momento, pois cada ocorrência tem suas particularidades. As experiências que vivemos, no exercício da função, revelam que não há melhor sentimento do que o de dever cumprido. Tenho muito orgulho da profissão que escolhi.

  • Você está aliando essa carreira profissional com outros projetos relacionados ao show business, isso inclusive antes do The Circle. O que mudou desde então?

A participação no primeiro reality show brasileiro produzido pela Netflix me trouxe, instantaneamente, uma visibilidade mundial. Antes do reality, eu me resumia às publicações no Instagram. Hoje, no entanto, estou construindo uma trajetória mais sólida e as pessoas já têm percepções mais aproximadas e genuínas de minha figura. Recebo, diariamente, mensagens de toda parte do mundo. Infelizmente, por estarmos enfrentando esse período de pandemia, ainda não experimentei fisicamente as boas energias do público, mas virtualmente tenho me sentido muito acolhido e prestigiado.

  • O que mudou de forma mais clara na sua rotina em Feira de Santana depois do sucesso na Netflix? 

O Corpo de Bombeiros Militar é uma instituição sólida e possui, em seus quadros, praças e oficiais muito dedicados e profissionais. Assim, antes de ir à Inglaterra [na cidade de Salford, região de Manchester] para gravar o programa, recebi muito apoio por parte do Comando-geral da instituição e do próprio governador [Rui Costa]. Posteriormente, após a exibição, minha rotina permanece a mesma: executo serviços operacionais, ajustados às novas normas de segurança por conta do coronavírus. É importante ressaltar que, nesse período, devemos atender integralmente as orientações das autoridades sanitárias. Assim, sigo em isolamento social e mantenho minha rotina de trabalho e estudo.

  • Você se descreveu como um cara esquentado, inclusive citando o apelido do “João Balão”, mas no jogo você foi “zero de aperreio”, muito sossegado, polido e político. Não seria um paradoxo?

É um jogo de popularidade no qual o autocontrole é fundamental. Embora eu tenha um lado “explosivo”, sobretudo com injustiças, falsidades e comportamentos que julgo inapropriados, busquei equilibrar minhas emoções, pois ali, no jogo, uma palavra errada ou desavença podem custar a eliminação. Tentei ser o mais resiliente possível, analisar com cautela as situações que se impunham à minha frente e recitar, como um mantra, o JP “zero de aperrei”.

  • Você cita sua avó Ivete Gadêlha como a pessoa que lhe ensinou a ser um cara que respeita as diferenças (de todos os tipos). No meio militar, incluindo os bombeiros, é comum uma galera com a mente mais “fechada”. Como você lida com isso no seu meio?

Permita-me discordar de um ponto de sua pergunta. Não podemos jamais confundir os regramentos militares a que estamos submetidos com a “rigidez mental”. Nós, militares, por força do regulamento, devemos ter disciplina – entendida como a rigorosa observância e o acatamento integral das leis, regulamentos, normas e disposições que fundamentam o organismo militar. Então, por termos a disciplina como pilar, a sociedade comumente nos encara como “mentes fechadas”, mas essa não é a realidade. O Estatuto que nos rege, por exemplo, determina que respeitemos a dignidade da pessoa humana (dentro e fora de serviço), de modo que vigora o pensamento institucional de que o ser humano deva ser respeitado sob qualquer perspectiva. Percebo que esse pensamento – de respeito e tolerância ao próximo – tem ganhado cada vez mais força na sociedade e, por conseguinte, na nossa instituição.

  • Como você foi parar no The Circle e quanto tempo duraram as gravações?

Soube do The Circle por meio de um amigo. Após pesquisar a versão britânica (a primeira a ser gravada), meu interesse foi instantâneo. Fiz minha inscrição e passei por uma rigorosa seleção, composta por várias etapas regionais e nacional. As gravações tiveram duração de aproximadamente um mês.

  • E depois do programa, virou amigo da galera? Ainda mantém contato com quais participantes?

Sim, todos nos tornamos grandes amigos. Mantemos contato diariamente através das redes sociais.

  • Qual foi o principal aprendizado ou a principal lição que o reality lhe deu?

O The Circle é um retrato de nossas vidas: erros, acertos, intrigas, laços de amizades. Enfim, um jogo onde podemos ser quem quisermos e eu escolhi ser eu. Com meus erros e acertos, percorri uma trajetória da qual tenho muito orgulho. Aprendi, na minha infância, que a simplicidade, honestidade e respeito ao próximo são valores dos quais não abro mão. Assim fui lá! Representar meu nordeste, minhas origens, meu Brasil! Esse é meu maior orgulho, meu maior legado: ver meu povo arretado desse Brasil todo se sentir representado na tela da Netflix! Minha maior lição disso tudo: #zerodeaperrei.

Fonte: Correio