Suspensão das buscas em Brumadinho completa um mês após pandemia do coronavírus

Há exatos 30 dias, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais foi obrigado  paralisar as atividades da maior operação de buscas do Brasil por conta da pandemia da Covid-19. A doença que tem se alastrado mundialmente e forçado a população a mudar de hábitos, resulta em um peso maior na rotina de familiares das 11 pessoas que continuam desaparecidas após a avalanche de lama de uma barragem da mineradora Vale destruir sonhos e comunidades de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. 

Desde o fatídico dia 25 de janeiro de 2019, quando a barragem B1 da mina do Córrego do Feijão se rompeu, as equipes de buscas trabalharam por 421 dias interruptos em busca das vítimas. A árdua operação envolve cerca de 700 pessoas entre militares, funcionários da Vale e terceirizados, e resultou até agora no encontro dos corpos de 259 pessoas. E justamente para evitar que os envolvidos nessa procura acabem infectados, que os trabalhos foram suspensos logo que o governo de Minas Gerais decretou estado de emergência em função do coronavírus. 

Segundo a corporação, as atividades somente serão retomadas quando essa portaria for revogada, o que ainda não é possível estimar porque depende do desenvolvimento do vírus no Estado. Sobre a possibilidade de retomar as buscas com um número menor de agentes, o Corpo de Bombeiros respondeu que segue rigorosamente as recomendações do Comitê Extraordinário de enfrentamento ao coronavírus de paralisação das atividades para resguardar militares, funcionários da mineradora, terceirizados e demais envolvidos na operação. 

Enquanto isso, a professora Natália Oliveira, 48, vive em compasso de espera e mergulhada em uma constante angústia. A irmã, Lecilda Oliveira, 49, desapareceu no tsunami de rejeitos que tomou parte da cidade há um ano. Até hoje não foi encontrada. Agora, há 30 dias com as atividades paralisadas, o sentimento é de que os corpos vão ficar enterrados de vez pela imensidão de lama. “Foram 421 dias que eu acordava com pelo menos a esperanças de um telefonema. Agora, durmo para esquecer e acordo para viver um pesadelo. Acho que muitas famílias vão viver o que eu estou vivendo há um ano por conta do coronavírus. É viver longe de quem se ama, enterrar uma pessoa sem despedida digna e de caixão fechado”, desabafa.

Assim que as buscas foram suspensas, Natália recebeu uma ligação do próprio governador Romeu Zema (Novo), se comprometendo a retomar a operação assim que fosse possível. Mas nem mesmo a promessa a tranquiliza. “Eu entendo a medida de segurança, mas viver assim é viver ainda mais no escuro. Eu já não tenho a minha irmã, não estou vendo meus pais, estar com alguém pelo menos espanta a dor. E agora? Eu queria diminuir os remédios para a depressão e a ansiedade, mas eu me vejo é tendo crises de pânico cada vez mais frequentes. No dia que eu fiquei sabendo que não ia ter buscas, eu achei que eu fosse morrer. Foi uma dor física difícil de explicar.”, conta a professora de educação infantil. 

“Meus alunos eram as únicas alegrias do meu dia, era o momento que eu esquecia os problemas, eu amo dar aula. Agora, até isso me foi tirado. Eu sei que bombeiros são para salvar vidas, não para resgatar ossos, mas eles estavam resgatando a minha vida e de todas essas 10 famílias que não conseguiram se despedir e concluir seu luto”, completa Natália. 

Sem prazo para acabar. 

O Corpo de Bombeiros ressaltou que, desde o início, deixou claro que as buscas pelos desaparecidos somente se encerrariam em somente duas condições: encontrar todas as vítimas ou na impossibilidade de identificação por conta da ação biológica do material humano pelo tempo. A reportagem questionou sobre como suspensão juntamente com o tempo que se passou desde a tragédia atrapalha a encontrar mais pessoas, uma vez que os corpos estão em processo de deterioração. 

De acordo com o órgão, é fato que ação do tempo prejudica as buscas e também a identificação por parte da Polícia Civil, no entanto, destacou que providências foram tomadas para que a suspensão não inviabilize a retomada das buscas. Entre elas estão a implementação de ações de preservação e controle da área, como georreferenciamento, levantamento topográfico e identificação de todo o material, a fim de restringir possíveis dificuldades: “Assim sendo, dentro das condições que lhe cabe o Corpo de Bombeiros segue firme no compromisso feito às famílias das 11 vítimas desaparecidas no desastre”.

“Considerando que a operação reúne indivíduos de diferentes regiões do Estado, podendo por essa característica, ser um centro de contaminação e disseminação do agente coronavírus, não seria prudente, portanto, a retomada da missão com um efetivo menor enquanto a curva de contaminação da Covid-19 continuar em ascensão”, respondeu a corporação por meio de nota. 

O valor de uma vida

Na casa da técnica de enfermagem Josiana de Souza Resende, 31, a família se sente aprisionada ao dia 25 de janeiro de 2019. Naquela tarde, ela soube que a irmã Juliana Creizimar de Resende Silva, 33, estava entre as vítimas soterradas pela lama da barragem. Quase um ano após a tragédia, Juliana permanece entre os desaparecidos.

Funcionária da Vale, Juliana deixou dois filhos gêmeos, que, na época, eram bebês de colo. O pai das crianças, que trabalhava na mineradora ao lado da mulher, também morreu na tragédia, mas o corpo dele já foi localizado. Aos órfãos, que agora têm 2 anos, restou o consolo de serem criados pelos avós maternos.

“Foi muito difícil receber essa notícia (a de suspensão das buscas). Eu tenho noção do cenário atual, mas foi doloroso, porque eu espero há muito tempo isso e agora não sei por mais quanto tempo terei que esperar. Saber que não tem buscas aumenta também a angústia, porque antes eu tinha o alento que eu poderia receber alguma ligação. Isso me fazia viver”. 

Para Josiane, o isolamento social vivido por milhares de brasileiros já é uma realidade há um ano. “O mundo está conhecendo um pouco a realidade de todas as famílias que ainda aguardam alguma notícia de seus familiares. É poder não estar próximo, é poder não se despedir, é ter o caixão vazio. Mas assim como eu acredito que vamos passar por esse momento, eu também sei que vão achar minha irmã. Ela está lá”. 

Tentativa de reparação 

Em meio a todos os problemas, as famílias ainda temem que a mineradora Vale destine recursos que seriam a recuperação  de Brumadinho ao combate do novo coronavírus. Nos últimos dias, o primeiro lote de kits de teste rápido para o novo coronavírus comprado pela Vale na China chegou ao Brasil. Foram 500 mil unidades de um total de 5 milhões de kits adquiridos pela companhia da produtora de testes chinesa Wondfo. O material vai atender as demandas do Ministério da Saúde e estará todo disponível no país até o fim deste mês. Os 5 milhões de kits para teste rápido são parte de “ajuda humanitária” feita pela Vale para o combate ao novo coronavírus. 

A mineradora também investiu R$ 1,5 milhão na reforma e ampliação de ala de internação do Hospital Municipal de Parauapebas, onde estão as reservas de Carajás e apoiou a ampliação de leitos de UTI do Hospital Eduardo de Menezes, em Belo Horizonte. 

“Eles querem refazer o nome deles, mas eu penso que talvez isso seja uma forma de apagar o que eles fizeram e deixar o que aconteceu aqui de lado. Tem coisas que eles conseguem reparar outras não, nenhuma indenização ou feito deles vai me trazer a minha irmã de volta”, afirma a professora Natália Oliveira.  

Vale.

Procurada, a Vale informou que os profissionais de relacionamento com as comunidades continuam disponíveis por telefone celular. A mineradora destacou ainda que seguem com os trabalhos na Central de Atendimento (0800 031 0831) e o Alô Indenizações (0800 888 1182).

De acordo a Vale, mais de R$ 543 milhões, dentre os valores depositados em juízo pela empresa e bloqueados em ações judiciais envolvendo a companhia em decorrência do rompimento da barragem, foram liberados, por ordem judicial, para utilização em ações de prevenção e combate à pandemia do Covid-19 no Estado.

 

 

Fonte: Agencia Brasil