Crítica: 'Calma, estamos perdidos', novo livro de Luís Henrique Pellanda

Foi no verão de 2012. Encontrei a contista e tradutora baiana radicada no Rio de Janeiro num café da Livraria Saraiva, loja do Shopping Barra, em Salvador, Bahia. Sempre que ela visitava seu Estado, marcávamos um encontro no café da supracitada livraria. E lá ouvi, pela primeira vez, o nome de Luís Henrique Pellanda. Sônia Coutinho comumente integrava a comissão de júri de concursos literários, otadamente no gênero conto, gênero que a consagrou. Entre uma e outra confissão (estava decidida a se ocupar mais com fotografia do que com literatura e preparava uma oficina sobre artes visuais), disse-me entusiasmada com o livro de contos de um jovem autor curitibano, O Macaco Ornamental, publicado em 2009 pela Bertrand. Pediu que eu lesse.

Era um livro ousado que fazia o que ela tanto prezava: experimentava. Naquele mesmo dia adquiri o livro e, sim, concordei com a autora, com a saudosa amiga: o livro de contos de Pellanda incomodava. A começar pelo título. De lá para cá perdi o autor de vista, acredito que pela distribuição um tanto precária de seus livros editados em Curitiba, que não chegavam a Bahia, onde morava até três anos atrás. Hoje, em São Paulo, ganho de presente o livro mais recente de Pellanda, seguramente o melhor livro de crônicas que li nos últimos anos. 

Quando um cronista reúne suas crônicas em livro e essas mesmas crônicas são líricas, o mais comum é que ele seja imediatamente comparado a Rubem Braga. É o que fez inclusive o autor da orelha do livro publicado pela Editora Positivo. Mas é fácil e pouco. Pellanda é um cronista comparável a Pellanda. É claro que todo escritor se forma lendo
escritores, seu Paideuma vai moldando sua redação literária e até mesmo seus sentimentos, os mais autênticos e intransferíveis. Mas há em Pellanda uma escrita citadina que não encontro no genial cronista capixaba. Há um andar pela cidade e uma espiritualização ou vivificação da cidade onde reside o cronista, que consigo ver mais facilmente em João do Rio e seu fundamental “A Alma Encantadora Das Ruas”. 

Calma, Estamos Perdidos reúne cinquenta e oito crônicas, mais uma em apêndice, escolhidas pelo autor, que assina coluna no já lendário jornal Rascunho. São crônicas que muitas vezes se aproximam do conto, e aí é possível lembrar de Rubem Braga. Não me parece oportuno aqui discriminar crônica, conto, sobejamente conceituados e distinguidos, mas lembrei do conterrâneo de Pellanda, Dalton Trevisan, que, assim como João Antônio, ficcionalizava o cotidiano quase jornalisticamente – às vezes quase como um filho do new journalism norte-americano.

Se em Trevisan há “Uma vela para Dário” (Vinte contos menores), em Rubem Braga “O jovem casal” (O verão e as mulheres), em Pellanda há um “Chega por hoje”, entre outros, em que “a loura de sempre bebe um fortificante”, entro da casa azul. “Acostumada a beijar abismos, sua boca vai e volta do gargalo da garrafa ao filtro de um cigarro de cravo. Escora no portão de ferro as curvas ainda firmes. Botas brancas, saia curta por cima da meia grossa. Jaqueta de náilon vermelha”. A mulher em questão sempre pergunta ao cronista, na boca da noite, se “chega por hoje” quando ele está voltando para casa, e o convida a entrar em sua residência, mesmo só o conhecendo de vista. É nessa crônica que leio uma das tantas frases geniais do autor: “Cada cigarro, um feriado portátil”.

Mas há crônicas, strictu sensu, no livro mais recente de Pellanda, e somos por elas apresentados a uma cidade pouco descrita pela literatura brasileira, cheia de ruas e praças com nomes de gente ou de sentimentos, tais como Saldanha Marinho, Pracinha do Amor, Avenida Getúlio Vargas (não há uma cidade no país em que não haja uma avenida com nome do pai do Estado Novo), Rua XV, Trajano Reis etc. Calma, estamos perdidos é um livro de arquitetura e urbanismo povoado pela experiência de um humanista com um dos olhares mais aguçados e sensíveis de que tenho notícia. E tudo isso nos chega por meio de uma linguagem fluente, mas sem desleixo, muito bem corrigida pela gramática normativa, sem, no entanto, a polidez excessiva do dandismo literário francês ou carioca. Pellanda é um flâneur, mas se sua atitude de desvelar a alma das construções de pedra o aproxima de um carioca afetado, uma matéria humana o perfila diante de outro carioca, ainda mais flâneur que o autor curitibano, o imprescindível Lima Barreto, escritor que tanto deu “palco” ao lumpesinato brasileiro.

Vê-se, portanto, que Rubem Braga é apenas o começo (literalmente, afinal, o autor usa frase do capixaba como epígrafe de seu livro) de uma longa história que envolve pessoas em situação de rua, a vida íntima do cronista (que, não raro, anda com uma criança no colo, desde o conto O macaco Ornamental), ruas, avenidas e praças de Curitiba (com seus vampiros e donzelas) e discussões em torno do próprio gênero “crônica”, como na brilhante e deliciosamente didática “Nós, as ciganas”, em minha opinião, leitura obrigatória para aspirantes a cronista.

A edição do livro é um capítulo à parte. O livro não é apenas muito bem editado como conta com aquarelas belíssimas, mais aquosas que a média das aquarelas, indo além das cercanias das páginas, quase se derramando pelas beiradas, assinadas por Raro (até no nome!) de Oliveira, um ilustrador que nos faz experimentar a nostalgia de um tempo em que era comum um livro de prosa ser ilustrado por gravuras ou aquarelas (como esquecer Axl Leskoschek aumentando Dostoiévski? Caribé desenhando Gabriel García Márquez? Jenner Augusto tabelando com Jorge Amado? Aldemir Martins com Graciliano Ramos?).

Calma, estamos perdidos não é fácil de ser achado em livraria. Não o encontrei em importantes livrarias de São Paulo. Isso o torna não só urgente como raro. É leitura das mais necessárias, e é livro premiável. Se houver justiça em algum momento nos principais prêmios literários do país, Luís Henrique Pellanda deve constar, no mínimo, da lista de finalistas.

Porque Sonia Coutinho foi profética em se tratando do contista, cronista e músico nascido em Curitiba no ano de 1973.

*Henrique Wagner é poeta e crítico de literatura.

Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade dos autores

Fonte: Correio