Relembre as polêmicas entre Bolsonaro e Sérgio Moro

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, avisou ontem ao presidente Jair Bolsonaro que deixará o governo caso o chefe do Executivo imponha um novo nome para o comando da Polícia Federal, atualmente ocupado por Maurício Valeixo. O ex-juiz da Lava Jato não aceita que essa troca venha de “cima para baixo”, e defende o direito de fazer a escolha. 

Apesar de ter entrado em rota de colisão com o presidente em pelo menos cinco ocasiões desde que abandonou a carreira jurídica para assumir o Ministério da Justiça, esta foi a primeira vez que se teve notícia de Moro acenar com a possibilidade de pedir demissão. Valeixo já havia tratado de sua saída do cargo de diretor-geral da corporação com Moro, que tentava encontrar um nome de sua confiança para o posto. O delegado, amigo do ministro, demonstra exaustão.

Já no fim da noite, os bastidores da política em Brasília indicavam que a possibilidade de saída do ministro se tornou uma hipótese remota. Ministros da chamada ala militar entraram em campo para apaziguar os ânimos, mas esta não é a primeira vez que este roteiro acontece. No final das contas, quem esteve do outro lado da mira de Bolsonaro acabou levando a pior. 

Foi assim com o ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebiano, que fora aliado de primeira hora do ex-capitão do Exército quando ele ainda disputava a presidência da República. A história se repetiu mais algumas vezes, até mesmo em disputas com ocupantes de cargos de terceiro escalão, como o cientista Ricardo Galvão, exonerado do cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), após processo de fritura. 

No andar de cima, caíram após desgaste com o presidente também o general Santos Cruz, da Secretaria de Governo, e mais recentemente o ex-deputado Luiz Henrique Mandetta, após um longo embate. Este último caso mostrou que a visibilidade e o apoio popular, que poderiam ser trunfos de Moro para fazer valer suas ideias, nem sempre são levadas em conta no Palácio do Planalto. Mandetta caiu gozando de elevada aprovação popular. 

Comando da PF 
Bolsonaro avisou a Moro que ele mesmo escolheria um substituto para a direção da Polícia Federal.  Embora a indicação para o comando da PF seja uma atribuição do presidente, tradicionalmente é o ministro da Justiça quem escolhe.  Entre os nomes que são cotados para o cargo estão o do atual diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, e do secretário de segurança do Distrito Federal, Anderson Torres.

Valeixo foi escolhido por Moro para o cargo ainda na transição, em 2018. O delegado comandou a Diretoria de Combate do Crime Organizado (Dicor) da PF e foi Superintendente da corporação no Paraná, responsável pela Lava Jato, até ser convidado pelo ministro, ex-juiz da operação, para assumir a diretoria-geral.

Interlocutores de Valeixo dizem que a discussão sobre sua saída iniciada no começo do ano não teria relação com o que aconteceu no segundo semestre de 2019, quando Bolsonaro tentou pela primeira vez trocá-lo por outro nome. Na ocasião, o presidente teve que recuar diante da repercussão negativa que a interferência no órgão de investigação poderia gerar.

Ontem, Valeixo reuniu-se com os 27 superintendentes regionais nos Estados por videoconferência. Também participaram os delegados federais que ocupam diretorias estratégicas da PF. O diretor-geral descartou com veemência que sua saída seja movida por pressões políticas. Ele afastou rumores de que sua disposição em dar adeus à cadeira número 1 estaria relacionada à uma reação de aliados de Bolsonaro por causa de investigações que incomodam o Planalto.

No ano passado, após Bolsonaro antecipar a saída do superintendente da corporação no Rio de Janeiro, ministro e presidente travaram uma queda de braço pelo comando da PF.

Em agosto, o presidente antecipou o anúncio da saída de Ricardo Saadi, justificando que seria uma mudança por “produtividade” e que haveria “problemas” na superintendência. A cúpula da PF contradisse o presidente. Nos dias seguintes, Bolsonaro subiu o tom. “Quem mandasou eu”, chegou a dizer.

Relembre as divergências entre Bolsonaro e Moro
28 de fevereiro de 2019 – Moro revoga nomeação 
Especialista em segurança pública, Ilona Szabó havia sido indicada pelo ministro para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. O ministério informou que a revogação foi provocada por “repercussão negativa em alguns segmentos” da sociedade. 

16 de agosto de 2019 – Bolsonaro anuncia troca na PF
Sem o conhecimento da cúpula da PF, Bolsonaro anunciou a troca do superintendente da PF no Rio, o que provocou uma reação na  cúpula da polícia 

19 de agosto de 2019 – Presidente transfere Coaf para o Banco Central
Bolsonaro transferiu o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça, chefiado por Moro, para o Banco Central. O Coaf é defendido pelo ministro como instrumento no combate à corrupção

22 de agosto de 2019 – Bolsonaro ameaça trocar diretor 
Bolsonaro disse que poderia tirar Maurício Valeixo do cargo de  direção. “Ele é subordinado a mim, não ao ministro, deixar bem claro isso aí”, afirmou o presidente.

Lembre de ministros que já deixaram o governo Bolsonaro

Gustavo Bebiano
Depois de ter dito que falou com o presidente três vezes através do Whatsapp e que a relação entre eles estava tranquila, Bebianno foi desmentido pelo vereador Carlos Bolsonaro, que ganhou a chancela do pai. No fim da queda de braço, que envolveu discussões nas redes sociais e mobilizou parlamentares do Congresso, Bebianno acabou demitido da Secretaria Geral da Presidência 

Ricardo Velez
Bolsonaro demitiu em 8 de abril Ricardo Vélez Rodríguez do Ministério da Educação. O anúncio foi feito pelo Twitter, após decisões polêmicas, como a revisão dos livros didáticos sobre o golpe e a ditadura militar e uma orientação para que as escolas filmassem os alunos cantando o hino nacional

Santos Cruz
O presidente demitiu em 13 de junho Carlos Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Go
verno por uma suposta “falta de alinhamento político-ideológico

Gustavo Canuto
Foi demitido do Ministério do Desenvolvimento Regional porque não conseguiu entregar resultados 

Osmar Terra
O presidente demitiu Osmar Terra do Ministério da Cidadania após as denúncias de repasses suspeitos

Henrique Mandetta
Após uma série de desentendimentos públicos com o presidente Jair Bolsonaro sobre as medidas de enfrentamento da pandemia do coronavírus, Mandetta foi demitido por Bolsonaro. O ministro defendia a necessidade de manter o isolamento social.

Fonte: Correio