Alagamentos deixam comunidades de Itapuã e Lauro de Freitas ilhadas

Nem se eles quisessem quebrar a quarentena e colocar os pés fora de casa não conseguiriam. Ao menos não sem um barco ou bote salva-vidas. As chuvas que atingem Salvador e Região Metropolitana desde quinta-feira deixaram as comunidades do Caji Caixa D´Água, em Lauro de Freitas, e do Tokaia, em Itapuã, completamente ilhadas. Moradores dos dois bairros relatam que os alagamentos são muito antigos, já duram décadas e acontecem diversas vezes ao logo de um ano. 

Bairro do Caji Caixa D’Água, em Lauro de Freitas
(Foto: Leitor CORREIO)

No Caji Caixa D´Água, em Lauro de Freitas, um morador gravou um vídeo de oito minutos mostrando a extensão do problema, que atinge várias ruas. Ele subiu na laje de casa para filmar o Rio Ipitanga, que quando sobe provoca a inundação de todo o bairro. Identificado pelos vizinhos apenas como Adson, o homem mostra que o local que ele usa para trabalhar, anexo à residência, está sob a água. Também diz que não tem nada dentro de casa para viver porque não tem como sair.  “Estou aqui de quarentena em casa e não tenho como trabalhar. Minha área de trabalho tá debaixo d´água. Não tenho nada dentro de casa”.  

A gravação foi feita nesta sexta-feira (24), mas nesse sábado a água ainda não tinha baixado. “A água tá aqui ainda. Estamos ilhados! Várias ruas cheias, é um desespero. Só Jesus por nós!”, diz a diarista Alizete Francisca Damasceno, 45 anos, que mora com o filho de 14 anos e é vizinha do rapaz. “Só esse ano já alagou umas seis vezes. A prefeitura não faz nada. Precisa drenar o rio! As obras de aterramento que fazem só piora a situação”, acredita Alizete, moradora da Segunda Travessa da Rua Aporá. “Moro aqui há muitos anos e esse problema não muda nunca”. 

Três décadas 
O temporal deixou ilhada também a comunidade do Tokaia, em Itapuã. Na Rua Vila Romana, como mostram fotos e vídeos dos moradores, o estrago foi grande. Até mesmo os carros ficaram submersos. Transversal da Avenida Dorival Caymmi, a Vila Romana vive esse problema há mais de três décadas, diz o líder comunitário Jorge Vieira, 41 anos, conhecido como Jorge X. A família dele e de outros moradores fizeram vídeos e fotos da situação. Jorge acredita que o problema está na falta de esgotamento sanitário das ruas da comunidade do Tokaia.

Vila Romana: ‘Entre o coronavírus e outras doenças’
(Foto: Leitor CORREIO)

“Entre o coronavírus e as doenças que o esgoto traz pra gente não sei o que é pior. Minha família mora aqui há mais de 30 anos e isso acontece direto. É revoltante. Vamos fazer um protesto!”, avisa Jorge. O morador Ricardo Casaes, 32 anos, diz que as obras do metrô também pioraram a situação. “O fluxo do rio (esgoto) dobrou. Toda vez é um corre corre e a vizinhança se mobiliza para socorrer os mais afetados. Eu era menino e esse problema já existia aqui”, denuncia Ricardo.   

Nesse sábado de manhã a água tinha baixado um pouco, mas o estrago tava feito. Muito nervosa e tentando controlar a pressão alta, Judite Barreto Pinto, 59 anos, está desolada. Mora na Rua do Monte há mais de 20 anos. Já perdeu tudo diversas vezes. “Toda chuva acontece isso. Perdi tudo que se tem em uma casa. Guarda-roupa, sofá, fogão. Perdi tudo!”, lamenta Dona Dite, depois de gravar um vídeo mostrando a casa inundada. 

Rua Vila Romana, em Itapuã
(Foto:Leitor CORREIO)

A Defesa Civil de Salvador (Codesal) informou que não ficou sabendo especificamente do alagamento na comunidade do Tokaia, em Itapuã. O diretor geral do órgão, Sosthenes Macedo, disse que encaminhou informações sobre o fato para a Secertaria de Manutenção (Seman), que seria responsável por solucionar alagamentos. O CORREIO também procurou a direção e assessoria da Seman que nos respóndeu com a seguinte nota:

Referente aos alagamentos reportados no Bairro do Tokaia e Rua Vila Romana em Itapuã, a Secretaria de Manutenção (Seman) aponta que ocorreu o transbordamento do canal de macrodrenagem que transpõem estas localidades, este fluxo faz parte de uma bacia de contribuição fluvial que tem início na Av. Dorival Caymmi, margeando o Esquadrão Águia da Policia Militar, adentrando pela Rua Beira Rio, Condomínio Colina da Fonte e Comunidade do Km 17. Todos estes trechos são “vasos comunicantes” e compõem o mesmo curso d’água.

A ocorrência também se deve pela intensidade pluviométrica registrada na região, superior aos 100 mm na poligonal Itapuã / Ipitanga, gerando o alagamento verificado na área de charco natural do rio.

Segundo o Diretor de Manutenção da Infraestrutura, Luciano Sandes, a bacia hidrográfica da região está sob estudo e desenvolvimento de projeto para posterior intervenção de obras, situação que foge ao escopo da Seman, visto que o canal está limpo. Com este projeto pretende-se reconstituir a calha original do canal, ação que também poderá envolver a retirada de construções irregulares sobre o rio e inúmeros pontos de estrangulamento. A manutenção associada à limpeza e dragagem destes canais é realizada periodicamente nos pontos acessíveis, mas existem construções irregulares na margem e no leito que impedem o acesso de máquinas, equipamentos e homens.

É necessário um estudo amplo e atualizado desta bacia, porque ao longo das décadas houve um aumento massivo da área impermeável com construções diversas, pavimentações das vias, abertura de ruas, e com isso a velocidade de escoamento das águas das chuvas aumentou drasticamente, enquanto a drenagem natural foi interrompida, correspondendo a toda a infiltração no solo arenoso da região. Estes fatores levam ao aumento do volume dos canais e das suas áreas alagáveis.

A Seman mantém durante as chuvas a execução integral dos seus serviços, com o seu efetivo operacional escalado em plantões de 24 horas. Estas equipes atuam emergencialmente nas demandas geradas pelas chuvas e também realizam o trabalho preventivo de revisão do sistema de microdrenagem, limpeza de canais, poda de árvores e Operação Tapa Buracos.

Deslizamentos
A Codesal recebeu 98 solicitações até às 11h deste sábado.  Foram 24 deslizamentos de terra, 20 ameaças de desabamento, 17 ameaças de deslizamento, 11 avaliações de imóvel alagado, seis avaliações de área, cinco árvores ameaçando cair, quatro desabamentos de imóveis, três árvores caídas, três ameaças de desabamentos de muro, três desabamentos de muro, um desabamento parcial e uma infiltração. O órgão que integra a categoria de serviços fundamentais do município atende normalmente a população pelo telefone gratuito 199.

A previsão do tempo para o restante desse sábado, segundo o órgão, é de ocorrências de chuvas fracas a moderadas. Já neste domingo (26), a previsão é de chuvas moderadas, por vezes fortes, acompanhadas por trovoadas a qualquer hora do dia. Há risco para alagamentos e deslizamentos de terra.

Fonte: Correio