Médica faz relato da rotina em cidade onde colapso na saúde se aproxima

“Todo dia descobrimos algo novo sobre essa doença, mas posso dizer que o prognóstico é sombrio”. É assim que a médica Eduarda Barata, residente em infectologia em Recife, Pernambuco, classifica a Covid-19. Eduarda cursa a residência no Hospital Universitário Oswaldo Cruz -referência no Estado no combate à pandemia – e atende no Hospital Estadual Correia Picanço e em um dos seis hospitais de campanha montados na capital pernambucana, além de atuar também na rede privada.

Na linha de frente no combate à pandemia, a médica trabalha diretamente com pacientes infectados pelo novo coronavírus e precisa lidar, diariamente, com um sistema de saúde à beira do colapso.

Segundo o último balanço do Ministério da Saúde, a doença já matou 415 pessoas e deixou ao menos 4.898 infectadas em Pernambuco. O Estado é o quarto com o maior número de casos (atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará) e o terceiro em número de mortes do país. Os leitos de UTI disponíveis estão quase totalmente ocupados, e a prefeitura de Recife já montou seis hospitais de campanha para receber pacientes. 

“Se o sistema de saúde, e aí eu não falo só de Recife, mas de toda região metropolitana, ainda não colapsou, ele está próximo disso. Eu comecei há pouco tempo a trabalhar em um dos hospitais de campanha e vejo que muitos pacientes não conseguem chegar aos hospitais de referência a tempo, acabam indo para os de campanha com uma gravidade muito alta, que aí, seja onde for que ele estiver, a gente não conseguiria reverter (o quadro)”, avalia. 

“Na enfermaria do Oswaldo Cruz, temos pouco mais de cem leitos destinados a pacientes com Covid-19, 90% deles estão confirmados com a doença e esse número aumenta gradativamente. Existe uma fonte ‘infinita’ de doentes com um potencial absurdo de gravidade chegando todos os dias”, completa a médica.

Segundo ela, as UTIs também estão lotadas e a fila de espera cada vez maior. O hospital criou um serviço de regulação para lidar com a situação, mas escolher qual paciente deve ocupar o leito não é tarefa fácil.   “Eu não tenho nem palavras para descrever o quanto isso é difícil. Quem tem esse direito de escolher quem merece ou não o investimento? Mas cada vez mais essa é a nossa realidade”, lamenta. 

Não há consenso

Perguntada sobre a real gravidade da infecção, a residente afirma que nem entre os infectologistas mais experientes, que viveram outras grandes epidemias, há um consenso a respeito, mas ela garante que o estágio mais grave da doença é devastador. 

“A doença ainda é um mistério. Todos os dias saem diversos artigos a respeito, e se juntarmos todos não conseguimos falar sobre ela por 10 minutos. O que sabemos é que ela provoca um quadro respiratório muito grave, pois é isso que está matando pessoas e não apenas por falta de estrutura, mas também porque a doença é traiçoeira, ela começa de mansinho, mas quando ela piora é de uma vez só e, muitas vezes, mesmo você tendo tudo nas mãos, não tem mais o que fazer”, conta. 
 
Para a médica, a falta de informações sobre o comportamento da enfermidade é um dos grandes problemas que médicos enfrentam.

“Essa dificuldade é que torna o paciente tão difícil de manejar, pois a gente ainda não sabe qual é o momento chave para intervir antes que ele fique absurdamente grave. E o quadro da Covid-19 é um pouco diferente de outras doenças que também causam síndrome respiratória grave. Essa velocidade da evolução é  o que a gente ainda não entende o porquê e que  nos deixa de mãos atadas”, explica a médica, ao citar que muitos pacientes estão dando entrada nos hospitais e falecendo com menos de 24 horas.  
 
Jornada, estresse e medo

Eduarda Barata conta que ela e seus colegas tiveram suas rotinas modificadas e um aumento significativo na jornada de trabalho devido à pandemia.

“Todo mundo está com a carga horária bem mais pesada, porque precisa de gente para atender esses pacientes. Fora os profissionais que também estão adoecendo e sendo afastados”, conta.

Além da alta jornada, os profissionais precisam lidar com o risco e o medo de contaminação. Segundo o último boletim da Secretaria de Estado de Saúde de Pernambuco, 1.353 profissionais de saúde que trabalham na rede pública e privada foram infectados pelo coronavírus. Outros 905 casos foram descartados. Além disso, 790 casos estão em investigação e 30 tiveram resultados inconclusivos de saúde contraíram o coronavírus e  foram afastados.

“Todos os dias alguém precisa ser afastado, todo dia tem um buraco na escala. Eu não tive nenhum colega próximo a ficar grave, mas escutamos relatos diariamente de profissionais que perderam a vida ou estão internados”,relata a médica que chegou a ser afastada por cinco dias com suspeita de estar com a doença. 

EPIs

Eduarda também comenta que a falta de equipamentos de segurança necessários é uma realidade. “Os aventais de proteção estão em falta é o nosso maior desafio, tanto que as recomendações de uso mudaram e alguns protocolos foram flexibilizados, o que gerou muito conflito principalmente entre os sindicatos. É uma questão sensível, pois é nossa proteção que está em jogo, mas realmente não tem aventais suficientes e por isso é preciso traçar estratégias de racionalização”, comenta.

A médica cita que o clima é de tensão entre os profissionais de saúde e que “de uma maneira geral estão todos com os nervos à flor da pele”. “É uma tensão constante. Pelos colegas doentes, pelos pacientes graves, pelo receio de ser o próximo. Pelo receio de estar levando pra dentro de casa isso e colocando em risco a sua família.Conheço gente que até se mudou para não colocar a família em risco. A carga emocional está muito grande. Cada vez que alguém tosse, as pessoas se assustam no hospital”, ressalta a médica. 

“Eu sou médica e infectologista. Escolhi minha profissão sabendo que estaria sempre expostas a muitas doenças. Todo mundo que trabalha salvando outras pessoas, tem essa exposição. Eu preciso manter a calma para exercer meu trabalho”, conclui.

 

Fonte: Agencia Brasil