Rainha sensata: uma carta para Thelminha Assis

Oi Thelma. Tudo bem? Thelminha, né? Como o Brasil lhe chama. Essa coluna hoje é uma carta de agradecimento para você. Sim, mulher, para você! Obrigada por nestes quase 100 dias entrar em nossas casas e nos presentear com toda a sua sabedoria. Nos seus olhos, eu enxergo tanta beleza, trajetória e força. Me reconheço no seu olhar. Na sua forma de argumentar, na sua indignação. E até quando opta em se recolher e escutar. Eu me reflito em você.

Quando vi a foto da sua formatura, sendo a única negra rodeada de brancos, pensei em mim e em tantas meninas e mulheres negras. O quanto perrengue passamos. Pensei em como uma formatura significa tanto para nós. Mais do que para nós, para nossas famílias e para a nossa comunidade. Eu fui estudante bolsista de uma faculdade particular e sei o quanto é complicado conciliar as dificuldades do dia a dia, enfrentar os colegas e professores racistas e ainda se manter com a cabeça serena.

Thelma em momentos de sua formatura (Foto: Reprodução)

Soube que você foi adotada! Olha isso. Meu pai também foi adotado. No caso dele, por uma família branca. E sei, pela convivência com ele, o quanto esse fato deixa marcas nas vidas. 

Você, Thelminha, carrega e nos traz muitos significados. Como li alguém escrever na internet, você representa tudo. Você representa tudo! E representa o Brasil.   

Um Brasil que venho aqui te dizer: não temos boas notícias. Nestes quase 100 dias em que você esteve na casa mais vigiada do Brasil, a casa do Big Brother, o BBB edição 20, muitas coisas aconteceram o país. Pior ainda, em todo o mundo. A pandemia do coronavírus (Covid-19) se alastrou globalmente em pouco tempo e nos fez parar e mudar toda nossa rotina.

Para algumas pessoas ficar em casa, seja trabalhando ou estudando – um privilégio dentro do caos – se tornou a prisão dentro dos lares. Para outras, em especial para a população negra empobrecida, como você já deve imaginar, as coisas pioraram. E tá difícil. 

Respira fundo. Vou te contar…

Os trabalhadores informais ficaram na dúvida se vão na rua ganhar o pão para salvar a fome ou se ficam em casa para salvar suas vidas. As pessoas em contexto de rua estão ainda mais expostas e com mais dificuldade de receber alimentação e cuidados. As pessoas encarceradas estão sendo mantidas sem ver seus familiares, nas condições insalubres dos presídios superlotados, com alguns casos de contaminação por coronavírus confirmados, podendo ocorrer uma grande tragédia.

E os seus colegas, os profissionais de saúde? Estes estão sendo verdadeiros e verdadeiras heróis e heroínas. Em especial os profissionais que são técnicos, auxiliares ou do serviço de limpeza. Em sua maioria, estes profissionais somos nós, negros. Muitos não possuem EPIs e ainda assim continuam trabalhando. O que é realmente angustiante e desesperador para eles/elas e para os familiares. Como eu, que tenho grande parte da minha família trabalhando em hospitais públicos.

Como pode ver Thelminha, as coisas não andam muito bem por aqui. E diante de tanta situação difícil e desigual, assistir você nestes dias, com toda sua paciência para peitar os “macho escroto” e as ditas fadas sensatas foi inspirador. Inspiração em resiliência.

Não sei qual será o resultado hoje, da grande final. Mas te digo que você já é a grande campeã desta edição por mostrar ao Brasil que Tiago Leifert estava errado, pois esse BBB 20 não foi de duas narrativas, das mulheres (quase em sua totalidade brancas no programa) e a do Babu, da pauta racial. A narrativa dessa edição foi sua: feminista negra e antirracista. Unindo tudo. Porque a sua luta é a nossa luta e é interseccional.

Parabéns pela vitória de ser Thelma Regina. 

Ubuntu.

Fonte: Correio