Formaturas de medicina são antecipadas por conta da pandemia

Em frente a uma tela de computador, vários rostos divididos em pequenos retângulos, cada um de sua casa. Em tempos de pandemia, o cenário poderia descrever facilmente uma reunião de trabalho ou alguma aula de um curso online. Para alguns no entanto, foi assim que aconteceu a tão esperada formatura. A colação de grau para turmas de medicina foi antecipada e precisou acontecer de forma online, por conta dos efeitos do novo coronavírus. 

Pelo menos 128 novos médicos se formaram em abril, antecipando sua colação de grau em algumas semanas. Os novos profissionais fazem parte das turmas de medicina da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) – que formou 19 médicos – e da  Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública – que formou outros 109 profissionais. Para as duas instituições, a colação aconteceu cerca de dois meses antes que as atividades acadêmicas dos formandos fossem concluídas.

Agora médicos, os novos profissionais entram no mercado de trabalho durante o enfrentamento de uma pandemia. As circunstância acabam tornando ainda maior o desafio de começar a carreira profissional.

“Em termos de formação acadêmica e teórica, a gente tá pronto sim. Se você for perguntar a qualquer estudante de medicina no final de curso, a gente nunca está pronto para ser médico, para se formar. Esse não o momento no qual a gente esperava se formar, não imaginava assim quando pensamos na formatura. A gente fica um pouco ansioso, um pouco nervoso, porque tudo está mudando sempre. Mas a sensação é de que a gente vai poder fazer alguma coisa, devolver pra região que nos acolheu. Isso é maior que qualquer nervoso ou medo”, relata a recém-formada Fernanda do Valle, que colou grau na última quarta-feira (22).

A formatura da turma de Fernanda estava prevista para acontecer no dia 30 de maio. Antes disso, o internato – como é conhecida a parte prática final do curso de medicina – seria encerrado no dia 10 do mesmo mês. Diferente do planejado, as atividades práticas foram suspensas no dia 18 de março, justamente por conta do coronavírus.  

A antecipação da colação em pouco menos de um mês foi decidida em acordo entre estudantes e universidade. “Foi tudo conversado, de comum acordo, a gente enquanto turma tinha interesse na antecipação e a universidade entendeu que a gente tinha o que era necessário para antecipar”, comenta a nova médica. 

Para a Escola Bahiana de Medicina, a antecipação reduziu em cerca de dois meses o estágio final dos alunos. As atividades práticas não realizadas, no entanto, eram complementares e opcionais, como um reforço extra para uma futura especialização.       

“A formatura não foi como a gente imaginou ou sempre quis. Foi um processo diferente de tudo que a gente pensou ou tinha vivido. Mas foi bastante humano e a ideia foi poder ajudar a sociedade da melhor forma e o mais rápida possível”, opina o recém-formado Rodrigo Bittencourt, que colou grau no dia 16 deste mês. 

Como os colegas da UFRB, por conta da recente colação, os últimos dias tem sido de regularização de documentação e o trabalho ainda não começou na prática para os novos médicos da Bahiana  “É tudo diferente agora, nesse momento de pandemia. Mas o medo e a ansiedade são parte do que é ser recém-formado. Por mais que a gente saiba que a gente foi preparado, que estudou, que atuou, ter a responsabilidade de ser médico, de tomar a decisão, existe a ansiedade, o medo de errar, de deixar de fazer algo, mas é comum em recém-formado. E é claro que acaba existindo uma ansiedade a mais por saber que a gente de repente pode estar diante de um paciente com suspeita de coronavírus, que a gente tem uma doença a mais que a gente pode trazer para dentro de casa” , acredita Rodrigo. 

Foto para o convite dos formados de medicina da UFRB ficará como recordação (Foto: Divulgação)

Conselhos são contra a antecipação

Apesar da autorização concedida pelo Ministério da Educação (MEC) para que as formaturas fossem antecipadas para alunos que já tivessem cumprido pelo menos 75% do internato, os conselhos federal e regional de medicina na Bahia se posicionam contra a medida. Na prática, a redução de 25% se traduz na liberação do último dos quatro semestres de atividades. 

“A gente preza muito pela formação do médico e não consideramos que é fácil habilitar um médico para colocar no mercado de trabalho. Você tirar um semestre, justamente onde o estudante mais aprende, no último semestre de formação, onde ele já está atuando com mais independência e base, é muito prejudicial. Não dá para eliminar um pedaço do curso e considerar esse profissional plenamente capacitado”, detalha Júlio Braga, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb).

Ele destaca, inclusive, que a adição desses novos médicos no mercado de trabalho, não necessariamente representa resolução de um déficit que possa ser causado pela pandemia. “Nesse momento a grande deficiência de médicos é de médicos experientes, de terapia intensiva. Não são estudantes com meia formação que vão ajudar. O que os recém-formados poderiam ajudar seria na atenção básica, onde não está faltando médico”, opina. 

As formaturas antecipadas acabaram se revelando em um aumento nos números de novos médicos que se registraram no órgão regional. De janeiro até abril de 2019 foram 578 novos profissionais contra 627 no mesmo período deste ano.Considerando apenas abril, tem-se, 55 x 169 inscrições, respectivamente. 

“A gente reconhece que, para alguns casos, onde de fato a pessoa já cumpriu a maior parte, tá faltando algumas semanas apenas, aí não teria uma maior restrição. Mas a regra é uma regra que coloca um semestre inteiro como sendo dispensável e não é”, acredita Braga. .
  
Faculdades afirmam não haver prejuizo 

Apesar da antecipação, as duas universidades alegam que o período de atividades não realizado não representa prejuízo à formação dos alunos, justamente em razão do pouco tempo que restava para a conclusão do curso.

“Os alunos já haviam cumprido toda a carga horária obrigatória, e passado pela formação prática em todas as competências e grandes áreas da medicina. Tudo que é essencial na formação de internato já havia sido cumprido pela turma. O que eles não concluíram eram atividades complementares, um reforço que inclusive era escolhido pelo aluno de acordo com as especialidades desejadas”, comenta Ana Veronica Mascarenhas, coordenadora do curso de medicina da Bahiana, onde 92% do internato, e 95% do curso como um todo já havia sido concluído para quem se formou. . 

Na UFRB, o curso também já havia passado dos 95% concluídos para os alunos que tiveram a formatura antecipada. “Antes de tomar qualquer decisão, a gente discutiu entre os professores e com os alunos para garantir que toda a formação pedagógica fosse garantida, todas as competências necessárias tivessem sido atingidas e fizemos isso para essa turma”, explica o coordenador do curso, Fernando Feijó 

Ele destaca ainda, que a medida foi tomada apenas para a turma do último semestre e que não deve ser replicada para os próximos formandos, apesar deles se enquadrarem nos parâmetros estabelecidos pela portaria.

“O colegiado, inclusive, se posiciona de maneira contrária a antecipação da formatura da próxima turma, mesmo eles já tendo cumprido mais de 75% como pede a portaria. Na turma que vem depois eles nem iniciaram ainda o último estágio, então a gente entende que eles não atingiram ainda todas as competências necessárias”, completa Feijó. 

Segundo informações do Cremeb, alunos da Unime também tiveram a formatura antecipada. Procurada pelo CORREIO, a universidade não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem. 

Pedidos de inscrição no Cremeb – o ano todo:

2019 – De janeiro até abril: 579
2020 – De janeiro até abril: 627 

Pedidos de inscrição somente no mês de abril:

2019 – 55
2020 – 164

*Com orientação da subeditora Clarissa Pacheco

Fonte: Correio