Curado do coronavírus, padre baiano foca em podcast e sacerdócio: ‘fé renovada’

Jesus abandonado é a imagem que o Padre Jonathan, 28 anos, usa para definir os dias em que quase não conseguia se movimentar na cama devido às dores que sentia enquanto estava infectado pela covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A referência é ao momento que Jesus, ao ser crucificado, questiona: “Meu Pai, meu Pai, por que me abandonaste?”. Mas isso não significa que o padre se sentiu sozinho.  

“É que, na cruz, Jesus abraça todas as dores da humanidade, inclusive a que eu sentia. Para mim, como sacerdote, é um privilégio sofrer aquilo que tantas pessoas têm sofrido”, explicou. Há três anos padre, com a responsabilidade pela paróquia São Francisco de Assis, em Saramandaia, Jonathan Jesus da Silva passou, pelo menos, uma semana com tosse, dores no corpo, na cabeça e uma febre que chegou a atingir 39,5ºC, em seu momento de pico.  

“Tive que celebrar algumas missas quase deitado, pois não conseguia nem me sentar”, relembrou. 

Tudo isso aconteceu logo após o tríduo pascoal, na chamada Oitava de Páscoa, semana em que os católicos celebram intensamente a Ressureição de Jesus. “Sentia as dores, mas meu coração era festa”, garantiu. Os sintomas da doença começaram a aparecer no próprio Domingo de Páscoa, no dia 12 de abril.  

O padre vinha de uma intensa Semana Santa, na qual ele executou os ritos religiosos que foram transmitidos online e feitos “como se a Igreja estivesse lotada”. Isso o fez pensar que era um cansaço físico ou mental, mas os sintomas evoluíram e, na terça-feira, ele foi parar no hospital.  

Na foto tirada no domingo de Páscoa, o padre conseguiu disfarçar a fadiga que sentia (Foto: Reprodução/Instagram)

“Fiz o exame de dengue e covid-19. Me medicaram para que os sintomas fossem aliviados. Como estava bem no que diz respeito à oxigenação, fui para casa e fiquei isolado, no quarto. Ficava deitado na cama. Para mim, o pior momento foi sentir as dores articulares e não poder me locomover. Não conseguia caminhar, nem mesmo por o pé no chão. A sexta-feira foi meu último dia de febre. No domingo, recebi o resultado de que era coronavirus”, relembrou. 

Um dia depois da confirmação, a Arquidiocese de Salvador publicou uma nota sobre a situação do padre. Ele foi o segundo sacerdote católico de Salvador que contraiu a doença – o primeiro foi padre Bento, de 53 anos, que também já está curado. Até essa quarta-feira (30), a Arquidiocese não confirmou se outro clérigo foi infectado pela covid-19. 

Essa situação aparentemente positiva para a Igreja Católica já tem estimulado alguns fiéis a gravarem vídeos pedindo aos bispos que autorizem a abertura das Igrejas.

“É uma irresponsabilidade um homem e uma mulher de fé, ao perceberem o cenário mundial, desejar adiantar algo que só deve acontecer no futuro. E ainda se utilizam do discurso da fé para defenderem o que pensam. Que fé é essa que não possui empatia ou amor recíproco?”, questionou o padre Jonathan.  

Nessa entrevista ao CORREIO, ele também comentou como tem sido a sua vida após se recuperar da doença. No último sábado, ele já lançou o podcast Um Deus de Miudezas e anunciou que está escrevendo um livro de reflexões acerca do que viveu. “Sou um homem de fé renovada e de visões transformadas. Um homem mais confiante em Deus e mais certo da missão que ele colocou no meu coração”, afirmou. 

O podcast está disponível nas plataformas do tipo (Foto: Reprodução/spotify)

Como estava a sua rotina antes de ser infectado pelo vírus?  

A paróquia seguiu com muito rigor o distanciamento social. Estava celebrando missas online na capela da casa paroquial, onde eu vivo sozinho. Só na Semana Santa que fiz toda a programação completa, como se a igreja tivesse lotada. Celebramos a Quinta-feira Santa, Sexta-feira da Paixão, Sábado de Aleluia e o Domingo de Páscoa. Ninguém da equipe de liturgia e de transmissão da Missa ficou contaminada, inclusive o diácono que teve maior contato comigo e testou negativo. 

Você suspeita como pode ter sido infectado?  

Eu não utilizava a secretaria paroquial. Resolvia todos os problemas da igreja em home office, mas tinha que ir ao mercado ou ao banco para ajudar a minha avó, que mora em Cajazeiras. Acho que pode ter sido numa dessas idas que eu me contaminei.  

Quando os sintomas começaram a aparecer?  

No Domingo de Páscoa, eu já me sentia fadigado, mas julguei que fosse o cansaço físico e mental desse período de isolamento. Mas eram sinais da doença, na verdade, que começaram a evoluir para dores no corpo, de cabeça e febre, que atingiu 39,5ºC.  

O que você fez? 

Na terça-feira, fui ao hospital. Fiz o exame de dengue e covid-19. Me medicaram para que os sintomas fossem aliviados. Como estava bem no que diz respeito à oxigenação, fui para casa e fiquei isolado, no quarto. Ficava deitado na cama. Para mim, o pior momento foi sentir as dores articulares e não poder me locomover. Não conseguia caminhar, nem mesmo pôr o pé no chão. A sexta-feira foi meu último dia de febre. No domingo, recebi o resultado de que era coronavirus.  

Então, você viveu as principais dores no período festivo para os católicos, o da Oitava de Páscoa? 

Exatamente. Sentia as dores, mas meu coração era festa. Celebrei todos os dias com muita alegria e disposição. Tive que celebrar algumas missas quase deitado, pois não conseguia nem me sentar. Era animado pela certeza de que tinha gente que queria receber a Eucaristia, mas não podia. 

Você esteve sozinho nesse período? 

Não. Tenho um amigo chamado Marcos que ainda está comigo nesse período de quarentena. Ele ficou cuidando de mim, me ajudava nas coisas da paróquia e com a alimentação. Marcos também fez o teste da covid-19, mas o resultado foi negativo. Tenho saudades das pessoas da família e da paróquia, mas não senti a solidão. Pelo contrário, me senti acompanhado por Deus. Os bispos estiveram presentes, entrando em contato quase continuamente para perguntar o estado de saúde. Eu estava acompanhado, mesmo que não fisicamente.  

Como foi conciliar os sintomas com a vida de sacerdote? 

Eu me esforcei para viver todas as orações diárias e seguir o ritmo normal da vida. O fato de estar na cama me dava mais oportunidade de dialogar mais com Deus. Durante esse período, estive bastante sereno e confiante. Fiz uma experiência de não murmurar, não me entristecer e de abraçar o meu Jesus Abandonado com muito amor. No domingo de manhã, dia que saiu o resultado, eu já estava melhorando e tentei celebrar a missa online na capela da casa paroquial, mas teve momentos que não consegui ficar em pé. Chegou uma hora que tive que sentar, no meio da oração eucarística. Ficou um pouco indelicado. Aí parei as celebrações e só voltei no último domingo (26).   

O que significa essa expressão “Jesus Abandonado”? 

Eu chamei a minha dor de Jesus abandonado a partir da minha espiritualidade. É que na cruz Jesus abraça todas as dores da humanidade, inclusive as que eu sentia. Para mim, como sacerdote, é um privilégio sofrer aquilo que tantas pessoas tem sofrido. 

Você teve medo da morte? 

Se eu tivesse que oferecer a minha vida por causa da doença, eu não iria titubear, mas sentia que não era a minha hora. Tem um lado espiritual que, para mim, o viver é Cristo e a morte se torna lucro, como dizia São Paulo. Mas isso não significa que devemos ignorar todos os cuidados preventivos para não pegar a doença. Por ter 28 anos, sobrevivi a tudo isso. Uma pessoa mais idosa poderia não ter a mesma sorte que eu tive. É preciso que a gente tenha empatia e não diga: “E daí? O que eu posso fazer?” A empatia é um sentimento que devemos ter sempre e nós somos responsáveis para que haja o achatamento dessa curva.  

Como foi o tratamento da doença?  

Fui tratado com os remédios que atingiam os sintomas da doença. Por exemplo, tinha um remédio para dor no corpo, outro para a febre…  Fui também tratado com alimentação, hidratação e repouso. No dia 20 de abril, tive que voltar para o hospital, pois estava tossindo muito. Fiz todos os exames e perceberam que o pulmão não estava comprometido e na madrugada já pude retornar para casa. Essa foi a segunda e última vez que precisei ir para o hospital. 

Quando você soube que estava curado?  

Após o 14º dia que estive no hospital pela primeira vez, ou seja, nessa terça-feira (28), eles entraram em contato comigo e perguntaram se eu tinha algum tipo de sintoma, o que eu já não apresentava há um tempo. Então, ela me disse que podia sair do isolamento total e me considerar livre do vírus. Contudo, ela destacou que, em qualquer contato externo, tenho que usar máscara e luva, pois ainda não há garantia que eu não possa contrair de novo a covid-19. 

Quem é o Padre Jonathan após vencer o coronavírus? 

Um homem de fé renovada e de visões transformadas. Um homem mais confiante em Deus e mais certo da missão que ele colocou no meu coração. E sempre um sacerdote realizado. No sábado (25), lancei o meu podcast Um Deus de Miudezas, que está disponível no Spotify. Serão três episódios por semana. Eu mesmo faço a edição. É algo bem artesanal, pois não tenho interesse financeiro, mas sim o de evangelizar. Ontem (29), participei da minha primeira live, às 20h, para contar o que vivi para as pessoas. Também estou escrevendo um livro de reflexões feitas nesse tempo de coronavírus. Quero lançá-lo assim que acabar esse distanciamento social. Vou reverter todo o lucro para a construção do centro social da paróquia e ampliação da Igreja Matriz, que alaga nos dias de chuva.   

O que o senhor pensa das manifestações que alguns católicos têm feito pedindo a reabertura das igrejas? 

É uma irresponsabilidade um homem e uma mulher de fé, ao perceber o cenário mundial, desejar adiantar algo que só deve acontecer no futuro. E ainda se utilizam do discurso da fé para defenderem o que pensam. Que fé é essa que não possui empatia ou amor recíproco? Não existe cristianismo que não tenha amor e compaixão ao próximo. As portas dos templos estão fechadas, mas não a ação missionária que pode ser vivida em casa. Tem sacerdotes se esforçando tanto para celebrar a missa todos os dias, alguns até idosos, sem saber lidar bem com a tecnologia. Temos que valorizar isso. É fato que as pessoas sentem saudades da Missa. Mas as vezes a gente esquece que a dimensão da renúncia, do sacrifício, faz parte da vida cristã. Como se comportaria Jesus nesse momento? Ele não era legalista, era a lei. A lei é a de amar.   

Fonte: Correio