Memorial conta histórias de vítimas do coronavírus além dos números

“Não há quem goste de ser número, gente merece existir em prosa”. Essa é a poesia manifesto que funda o Memorial Inumeráveis, projeto digital colaborativo inaugurado há duas semanas com o objetivo de não deixar que nenhuma vida perdida com a pandemia do coronavírus no Brasil se torne apenas números. “Queríamos ir de encontro a essa lógica que se abate em qualquer grande tragédia humanitária. Estatísticas são necessárias, mas palavras também”, defende Rogério Oliveira, empreendedor e idealizador do projeto.

(Foto: Reprodução)

O nome e o slogan, no entanto, foram dados pelo artista Edson Pavoni, que também está à frente da iniciativa. “Todos os dias a gente acorda com um novo número. Esses números vão perdendo significado, até que vamos nos tornando insensíveis a eles. Escrevi muitas poesias com base nisso, e cheguei nessa ideia de que as histórias penentram em nosso coração num lugar onde os números não conseguem penetrar. A negação do número que deu a ideia do nome Inumeráveis”, explica.

Junto a outros sete amigos jornalistas, escritores, desenvolvedores e empreendedores sociais eles publicaram as primeiras histórias no site https://inumeraveis.com.br/ na quinta-feira (30). Até agora, 129 vítimas tiveram suas vidas contadas em textos afetivos por lá.

O projeto funciona de forma colaborativa e sem patrocínio de marcas. “Não queremos que a presença de alguma marca iniba possíveis colaboradores de participar do projeto. Com isso, contamos com uma divulgação mais fluida por parte de influenciadores que estão amarrados a contratos e muitas vezes não podem se comprometer divulgando um projeto patrocinado”, explica Rogério Oliveira. Devido ao fato de não envolver grandes custos, o projeto também não pede contribuição financeira.

Jornalistas ou pessoas que gostam de escrever podem ajudar a equipe a encontrar, escrever e editar histórias. Basta mandar um “oi” para o e-mail inumeraveis@gmail.com. “Nossa ideia é uma grande colaboração. a gente quer contar todas as histórias, dando os créditos. O jornalista pode ceder o material já publicado em algum veículo e apurado por ele, porque a gente não está procurando histórias inéditas. Nosso desejo é contar todas as histórias”, explica a jornalista Alana Rizzo, uma das colaboradoras do Memorial Inumeráveis.

Amigos, familiares ou conhecidos das vítimas também podem registrar as boas lembranças da pessoa de forma autônoma ou, se preferirem, podem responder a algumas perguntas do formulário, disponível no site, para que uma rede voluntária de jornalistas e escritores prepare e publique a história. 

“Se nem todas as vítimas tiveram a chance de ter um velório ou de se despedir de seus entes queridos, queremos que tenham ao menos a chance de terem a sua história contada. De ganharem identidade e alma para seguir vivendo para sempre na nossa memória”, diz a página do projeto.

Na página principal do site, todas as vítimas são listadas por ordem alfabética com nome completo, idade e uma breve descrição. Por decisão editorial, nenhum texto é acompanhado de foto.

Agatha Lima, de 25 anos, quarta da lista até então, é apresentada como “uma boa amiga que amava gatos”. Sua história foi uma das que mais tocou a jornalista Alana Rizzo. “Outra história que me comoveu bastante foi a do casal Edgard e Eunice,. Eles estavam juntos há mais de 40 anos e morreram num curto espaço de tempo por conta do coronavírus. Tudo muito rápido. E a gente fica pensando em quem fica, nos filhos que perdem pai e mãe de vez, nos netos que perdem avô e avó”, comenta Rizzo.

Apesar de nascer no meio digital, o Memorial Inumeráveis deve ganhar contornos físicos e se transformar em uma instalação permanente em 2021. “A ideia do memorial num espaço físico é a de ter um marco em uma grande cidade onde as pessoass possam ir para visitar, para lembrar. Como o coronavírus ataca nossa capacidade de respirar, estamos pensando exatamente no oposto.O memorial trará todos os nomes em um espaço aberto, arborizado, onde as pessoas vão poder ir para celebrar a vida daqueles que se foram na pandemia”, finaliza Edson Pavoni.

Fonte: Correio