Hospital Português nega surto de covid-19 na UTI neonatal

O diretor médico para gestão de crise da covid-19, do Hospital Português, em Salvador, Márcio Peixoto negou neste sábado (2) que a unidade de saúde esteja enfrentando um surto do novo coronavírus, especialmente na maternidade Santa Maria. Em reportagem exclusiva do CORREIO mostrou que pelo menos um recém-nascido testou positivo para coronavírus e há suspeitas de que dois bebês também tenham sido contaminados.

Em entrevista concedida para a TV Bahia, o médico garantiu que, dos 100 funcionários que atuam na UTI neonatal, 14 testaram positivo para o coronavírus e foram afastados, e que, dos bebês internados, apenas três apresentavam suspeitas, sendo que apenas uma menina de quatro meses, que nasceu com problemas congênitos e desenvolveu um quadro grave de infecção respiratória, testeou positiva para o vírus. Ao todo, a unidade de saúde tem 15 pessoas infectadas.

“Desde o início da pandemia, o hospital tomou todos os cuidados para garantir a segurança dos pacientes, além de ter garantido equipamentos de proteção individual a 100% da equipe de colaboradores”, garantiu. O diretor fez questão de enfatizar o cuidado com a triagem de pacientes com quadro respiratório, além de ter adotado os protocolos de segurança para impedir o avanço da doença. 

O médico salientou que a comunidade do Hospital Português reflete o quadro geral da sociedade local, onde a transmissão do vírus já ocorre de forma comunitária, sem saber precisar a origem da contaminação dos profissionais e da recém nascida. 

O Conselho Regional de Enfermagem (Coren) fará, nos próximos dias,  uma fiscalização na ala neonatal para checar a segurança no local.

O CORREIO teve acesso com exclusividade aos prontuários médicos dos três recém-nascidos (uma menina e dois meninos) e de suas mães. A menina, que testou positivo para coronavírus, nasceu em 6 de janeiro e teve uma série de complicações por conta de uma doença congênita, evoluindo com problemas respiratórios, cardiovasculares e infecciosos. Luta pela vida há quase quatro meses. No dia 24 de março, ela foi submetida a exame para identificar coronavírus. Em 28 de março, o resultado dava positivo. “Vírus detectados: Coronavírus Sars-CoV2”, confirma o prontuário. A bebê segue em estado grave.

Nos documentos do hospital não há qualquer indicação de que a mãe da paciente tenha testado positivo, o que reforça a ideia de que a recém-nascida foi infectada dentro da própria unidade. A então gestante passou por cesárea de urgência. Com ela, tudo transcorreu normalmente. Enquanto a criança era internada na UTI, a mãe, que mora em Placaford, recebia alta médica no dia 8 de janeiro, dois dias após dar entrada na maternidade.

A reportagem entrou em contato com a mãe da bebê, mas ela preferiu não dar qualquer declaração sobre o caso. Também não informou se passou por teste para coronavírus. “Não tenho interesse e nem condições de falar nada”, afirmou a mulher, de 30 anos.  Uma profissional de saúde, que preferiu não se identificar, disse que o hospital busca adquirir respiradores específicos para recém-nascidos infectados por covid-19.

Pelos corredores do Hospital Português, só se fala sobre esse assunto. Os funcionários estão assustados com a onda de casos. A maioria evita entrar na UTI neonatal. Ao menos três fontes ouvidas pelo CORREIO dão conta de que, somente naquele setor ,entre 15 e 20 profissionais de saúde foram afastados. Apesar disso, é difícil ter 100% de certeza que a recém-nascida pegou covid-19 dos funcionários do hospital, já que isso pode ter ocorrido em uma visita.  De qualquer forma, a infecção se deu dentro da unidade.

“Eles estão tentando abafar, mas todo mundo já tá sabendo. A gente tá evitando entrar lá na ‘neo’ (UTI neonatal) por causa da covid-19. Só entra quando não tem jeito. Do total, parece que tem 13 funcionários infectados. O resto é suspeito”, confirma uma funcionária.  “Isso só da UTI neo. Mas já teve gente de outros setores que testaram positivo”, garante.  O CORREIO tentou entrar em contato com alguns dos funcionários infectados, mas não teve resposta.

Da mesma forma, a reportagem procurou seis médicos, entre obstetras, ginecologistas e pediatras. Alguns acompanham pacientes da UTI neonatal e outros são plantonistas da unidade. Nenhum deles quis falar sobre o assunto. “Você quer que eu te dê informação do hospital, eu sendo funcionário? Quer me complicar?”, disse um obstetra que atua na unidade. Uma médica disse que não savia dos casos de covid-19 porque estava há alguns dias sem ir ao Hospital Português.       

Fonte: Correio