Na Itália, Rodrigo Becão fala sobre a pandemia de coronavírus

“A situação não é fácil. Todas as notícias relacionadas à Itália são reais”. O depoimento é de um baiano que vive em Udine, no norte da Itália. Revelado no Bahia, o zagueiro Rodrigo Becão é jogador da Udinese e está enfrentando a pandemia de coronavírus no país europeu, o segundo com maior número de mortes provocadas pela doença no mundo, com mais de 28 mil registros, atrás apenas dos Estados Unidos.

A realidade e as estatísticas assustam. Não à toa, apesar da saudade de jogar bola, Becão está preocupado com o anúncio feito no último dia 26 pelo primeiro ministro da Itália, Giuseppe Conte, de que os clubes de futebol estarão liberados a voltar aos treinamentos a partir do dia 18 de maio. 

“É uma mistura de sentimentos. Recebo essa notícia por um lado feliz, mas também com um pouquinho de medo, preocupação, receio. Essa questão do coronavírus foi extremamente séria e assustadora. Antes de tomar qualquer atitude, tem que estar bem concreto do que se está fazendo. Com saúde não se brinca. Para que os treinos sejam retomados, tem que estar tudo em ordem e em total segurança para os jogadores e todos que vão estar envolvidos”, afirmou o jogador de 24 anos, que atua no futebol italiano desde julho do ano passado. 

A retomada dos campeonatos ainda não tem data definida. Imposta há sete semanas para tentar conter o contágio da Covid-19, a quarentena será suspensa gradualmente na Itália a partir de segunda-feira. O país com mais de 200 mil casos da doença apresenta queda na contagem diária de novos casos.

“A situação da Itália hoje é um pouco melhor. No começo, era bem assustador. Hoje, as pessoas respeitam melhor as normas e estão lidando com essa pandemia de um jeito diferente. Na minha opinião, a quarentena, que foi muito respeitada, foi o motivo que realmente fez o número de infectados e mortos diminuir aqui na Itália”, revelou Becão.

Nascido em Salvador e criado no bairro de Cajazeiras, o zagueiro não tem previsão de quando viajará ao Brasil. Ele até pensou em retornar à terra natal quando a pandemia começou, mas mudou de ideia. “Pensei melhor e decidi esperar pra saber como o país iria reagir em relação ao vírus, como a população brasileira iria reagir. Tô bem aqui, tô protegido”.
 

Na Itália, Rodrigo Becão tem a companhia da esposa Natália e do buldogue francês Matteo (Foto: Arquivo pessoal)

A saudade da família é amenizada através dos aplicativos de celular. “Meus familiares estão preocupados. Procuram sempre saber como eu estou e eu procuro tranquilizar eles”. A mãe, Sandra, 46 anos, e principalmente o pai, José, 53, agradecem. “Com quem mais eu falo, que me manda mensagem direto, é meu pai. Está sempre em contato”, contou o jogador. Becão mora na Itália com a esposa Natália e um cachorro, o buldogue francês Matteo.

São eles que alegram a nova rotina de Becão. Sem ir ao centro de treinamento da Udinese desde 11 de março, o zagueiro mantém a forma física em casa. Colocou a bicicleta cedida pelo clube na varanda do apartamento onde mora e segue as orientações passadas pelos profissionais do time. “Os preparadores enviam vídeos de treinamento no grupo que temos no WhatsApp. Eles fazem um programa semanal. Com isso, cada jogador tenta manter a forma da melhor maneira possível”. E quando há necessidades essenciais, aproveita para esticar as pernas fora de casa. “Sempre que tem que sair para fazer compras, peço a minha esposa para eu ir, para ocupar um pouco a mente”.

Russia, Champions e línguas

Vivenciar uma pandemia longe de casa não é fácil para ninguém, mas Becão está adaptado à vida na Europa. Essa é a segunda temporada do zagueiro baiano no Velho Continente. Formado na base do Bahia, ele não conseguiu ter sequência com a camisa azul, vermelha e branca. Estreou como profissional em 2015 e defendeu o clube apenas 23 vezes, até ser emprestado para o CSKA, da Rússia, em junho de 2018. A partir daí, a vida do jogador deu uma guinada.

“Além do frio, que é surreal, a escola russa é mais defensiva. A maioria dos times prioriza a linha defensiva, tanto é que jogam com uma linha de cinco atrás. São poucos os times que jogam apenas com uma linha de quatro. O futebol é bem pegado, não marca tanta falta. Me ajudou bastante. Foi um aprendizado a mais. Me fez amadurecer um pouco mais”, analisou. “Querendo ou não, hoje não reclamo de qualquer falta, procuro só realmente jogar futebol”.

Becão foi titular em 36 partidas oficiais do CSKA, seis delas pela Liga dos Campeões. O torneio de clubes mais importante do mundo reservou a ele um duelo pra ficar eternizado na memória. Em 12 de dezembro de 2018, o CSKA bateu o Real Madrid por 3×0 na fase de grupos da competição. “Esse jogo marcou a minha história, não tenho dúvida disso. Você jogar contra o Real Madrid, que tem os melhores jogadores do mundo, numa competição do nível da Champions League, e ainda sair vencedor dessa partida, acho que todo e qualquer jogador de futebol sonha em ter um dia como esse e Deus me concedeu esse presente”, recordou Becão. “Naquele jogo, a sensação era única, de êxtase. Tinha que ajudar e não podia sair dali derrotado. Coloquei isso na cabeça”. 

O sonho foi realizado apenas seis meses depois de deixar Salvador. “Sempre sonhei em jogar a Champions League, escutar o hino. Ser presenteado com aquele momento é de arrepiar, de se inspirar. Como aconteceu tudo muito rápido, não imaginei que, em tão pouco tempo, estaria participando de um momento daquele”, admitiu Becão, que voltou a fazer as malas rumo a outro país.

Baiano Rodrigo Becão comemora triunfo histórico do CSKA contra o Real Madrid em partida da Champions League (Foto: AFP)

Em julho de 2019, o baiano foi negociado com a Udinese, da Itália. O CSKA tinha prioridade na compra dos direitos econômicos do zagueiro, mas entrou em acordo com o clube italiano. A venda rendeu aos cofres do Bahia aproximadamente R$ 7 milhões. “O futebol italiano é mais qualidade, habilidade, os times jogam sempre pra frente, poucos atuam retrancados. Aqui na Itália, principalmente, a posse de bola é valorizada, está à frente do Brasil em relação a isso”.

Adaptação dentro e fora de campo. “A língua italiana é mais fácil de falar do que a russa. Com o russo passei mais de dificuldade, a língua era muito difícil. A italiana consegui desenvolver bem. Hoje, já consigo me virar sozinho”, orgulha-se. Em tempos de pandemia, é preciso recordar e se reinventar. “Tenho a facilidade de me adaptar o mais rápido possível onde chego. Quando você tem um objetivo e está focado naquilo, consegue passar por várias barreiras, superar vários obstáculos e não permite que nada te derrube ou tire do foco”.
 

Fonte: Correio