A música da Bahia que a Rússia se apaixonou três vezes e virou hino de duas gerações

Se vivo estivesse, Dorival Caymmi teria soprado 106 velinhas na quinta-feira (30). O níver já obrigaria a homenagem aqui, mas a jangada que nos arrasta a ele como tema é uma cena de cinema da qual o mestre participou e, curiosamente, hoje navega como meme no infomar de analogias dos tempos de pandemia.

Explicação ligeira: em 2018, eu tinha um projeto de ir à Rússia, para cobrir a Copa do Mundo pelo CORREIO, que não vingou. Todavia, entre pesquisas, já estava a par, em parte, do sucesso dos czares Dorival e Jorge nas estepes.

Tinha visto uma cena de ‘The Sandpit Generals’, que vem a ser uma adaptação para o cinema de ‘Capitães da Areia’, de Jorge Amado, lançada em 1971. No filme estadunidense há o sepultamento de uma personagem no mar, e Caymmi, no papel do estivador João de Adão, surge para cantar que era doce aquela morte. A tal passagem (duplo sentido) é bem semelhante ao meme dos carregadores de caixão de Gana, que surge, não sei se sabem, de um documentário da BBC sobre rituais fúnebres e docemente alegres no país africano.

Cartaz russo do americano ‘The Sandpit Generals’, que depois virou ‘The Defiant’ e, por fim, ‘The Wild Pack’ (Foto: Divulgação)

Ok até aqui, mas a imagem que disparou o gatilho para o tema vai no corpo do texto, embora seja só o pretexto para a informação que realmente interessa: Dorival Caymmi e Jorge Amado, mais exitosos (e portanto poderosos) que Hitler e Napoleão, conseguiram invadir Moscou e região com absoluto sucesso, tendo o cantor e compositor uma proeza ainda mais curiosa que o escritor, já famoso por aquelas bandas.

‘Suíte dos Pescadores’, aquela que começa com “minha jangada vai sair pro mar”, se tornou um sucesso na URSS/Rússia em três ocasiões e tem efeito em duas gerações diferentes daquele país.

A cena (que lembra o meme) da adaptação de ‘Capitães da Areia’, falada em inglês e rodada inteiramente em Salvador (Foto: Reprodução) 

Primeiro em 1973, quando o filme ianque foi lançado na então União Soviética; depois em 1997, quando uma banda de pop rock fez uma versão em russo e apresentou no programa de TV mais assistido do país; e, por fim, em 2002, quando essa segunda versão foi parar numa cena icônica da famosa série de gângster ‘Brigada’. (De nada).

Vou explicar os diferentes momentos (enquanto alguém pede a música no Fantástico) em três atos, com a ajuda da professora de russo Volha Yermalayeva Franco, 30 anos, cidadã de Belarús que vive em Salvador e, na tenra juventude, ouvia e lia os czares baianos no seu cotidiano.

Volha Yermalayeva Franco veio à Bahia após se apaixonar por livro de Jorge Amado e ficou após pedido para Iemanjá (Foto: Acervo pessoal) 

Primeira chamada: ‘Jangada’
Em 2012, quando Volha se instalava de vez em Salvador, a BBC tinha feito uma reportagem citando o estranho êxito da obscura adaptação de ‘Capitães da Areia’ na União URSS dos 70’s.

A obra escrita e dirigida por Hal Bartlett, com apoio de sua então esposa, a estrela de Hollywood Rhonda Fleming, conhecida como ‘Rainha do Technicolor’, foi um fracasso nos EUA. Mas na URSS a temática bateu certíssimo, e a voz de Caymmi ainda ecoa no inconsciente coletivo.

 Cena em que Caymmi, no papel do estivador João de Adão, canta ao lado da brasileira Eliana Pittman (Foto: Reprodução) 

Como o filme foi proibido no Brasil, reprovado pela censura do regime militar, quase nada se sabia sobre ele. Mas mesmo que se soubesse, talvez despertasse pouco interesse um Pedro Bala americano, como Kent Lane, falando inglês ao lado de um monte de pivete parmalat bagunçando nas ruas de Salvador.

Aqui não rolou, nem rolaria, mas na Rússia, como dizia, foi outra história. 

“Havia filas de um quilômetro para ver este filme nos cinemas. A casa cheia estava louca. No corredor, as mulheres simplesmente choravam, e até os camponeses tinham olhos molhados. Eu próprio era criança, depois da escola várias vezes fui ver o filme. Mas o original desta música, interpretada por Dorival Caymmi, não pode ser comparado a nada”, comenta, no Youtube, o usuário Vast8625.

Clique aqui pra ver a versão original do filme e assista abaixo um clipe com cenas mencionadas.

“Quantas almas humanas essa história de amor despertou. Vale a pena voltar ao filme várias vezes”, emenda o internauta Alexander Karelsky, fã da canção e do filme antigo, que segundo a filóloga e pesquisadora Elena Beliakova, da Universidade Estatal de Tcherepovets, na Rússia, levou 43 milhões de pessoas (um terço da população!) aos cinemas. 

A própria Beliakova (que veio a Salvador em 2012 para pesquisar sobre a realização do filme e, em breve, promete nos presentar com um artigo sobre o assunto), conta que já assistiu mais de 100 vezes e o considera o “maior filme de todos os tempos e de todos os países”.

Para ela, e os demais fãs, parte considerável do sucesso da película deve ser creditado ao vozeirão de Caymmi, que desperta certo encanto sobre ouvidos russos.

Vale destacar que poucos anos após ‘The Sandpit Generals’, Caymmi voltaria às paradas eslavas cantando ‘Retirantes’ (aquela do “Lerê, lerê…”) na abertura de ‘A Escrava Isaura’, um dos maiores sucessos da história da TV russa. Também foi marcante nos territórios que faziam parte da URSS, caso de Belarús, que embora possua uma língua própria, tem no russo uma segunda língua.

“A Escrava Isaura todo mundo assistia. Era transmitido no Canal 1 (Russia-1), que é como se fosse a Globo, só que estatal”, explica a belarussa Volha, citando ainda outras novelas brasileiras de sucesso como ‘A Próxima Vítima’, ‘Mulheres de Areia’, ‘O Rei do Gado’ e ‘O Clone’. 

Essa paixão local tinha implicações práticas na vida da pequena Volha. Ela conta que era obrigada a assistir às novelas brasileiras para contar os episódios, depois, à mãe, quando esta demorava de voltar do trabalho. “Eu tinha que assistir, mesmo quando não gostava mais, e contar pra ela, senão ela não dormia”, recorda.

Segunda chamada: ‘Virada’
E se a canção de Caymmi já era um hino em português, teve fôlego renovado em 1997, quando foi lançada numa versão em russo. E não se trata de uma “tradução” sobre o cotidiano de pescadores baianos, mas uma narrativa baseada na vida de Pedro Bala, drama que ainda ressoava na memória dos cinéfilos da Guerra Fria.

Segundo Volha, “a música original, em português, já era realmente muito famosa, e depois, em 1997, a banda Neschastnyi Sluchai fez a letra em russo [ver tradução no rodapé]”, relata ela, destacando que o lançamento da nova versão ocorreu num momento bem oportuno: a transmissão televisiva da virada do ano. 

Não sendo um país cristão, o Natal dos russos acaba sendo o Réveillon, quando todo o país está na frente da TV, e troca presentes, faz pedidos…

“Era ‘o show’, o programa mais assistido do ano, na virada de 1997 pra 98. E você não imagina o ano novo na Rússia sem TV. Naquele ano, Boris Iéltsin fez o pronunciamento [é tradicional essa mensagem do presidente] e a banda entrou alguns minutos depois”, conta Volha, se referindo à inesquecível apresentação do Neschastnyi Sluchai, liderado pelo vocalista Aleksei Kortnev, que faz show até hoje. 

Anúncio de show da Neschastnyi Sluchai, em Israel, no início deste ano; Kortnev é o careca (Foto: Divulgação) 

Sendo o mundo, tal qual Salvador, um ovo, Kortnev vem a ser, nada mais, nada menos que ex-colega de faculdade dos pais de Volha, na Faculdade Estadual de Moscou. A mãe noveleira da nossa pró neobaiana vivia lembrando do ex-colega famoso (às custas de Caymmi).

Antes mesmo de chegar a sua vez de entrar na faculdade, Volha resolveu aprender português, segundo ela, sem saber o motivo. Escolha quase aleatória, garante.

Começou a aprender em 2009, em 2011 já lia bem e achou em Moscou uma versão em português de, veja só, ‘Capitães da Areia’. Leu, curtiu, e depois partiu pra ‘Mar Morto’, que a fez se apaixonar de vez pela Bahia, e por Iemanjá. Decidiu embarcar para o Brasil para ajudar num projeto social e, pra não perder a viagem, fez um pedido especial à orixá. 

“Pedi a Iemanjá um marido em três dias, com descrição completa, e no segundo dia ela me trouxe”, conta sobre o maridão baiano, o professor e pesquisador Paterson Franco Costa. Casaram-se em 12/12/12.

Terceira chamada: ‘Brigada’
E é bem uma cena de casamento, exibida 10 anos antes, que marca o terceiro e mais recente ato da jornada vitoriosa da canção de Caymmi na Rússia. Em 2002, ‘Suíte dos Pescadores’ é utilizada na minissérie local ‘Brigada’, que conta a história de jovens gângsteres, com enorme sucesso na TV por lá e em outras partes do mundo.

Dessa vez, os personagens principais, numa cena que lembra ‘O Poderoso Chefão’, celebram um casal de noivos e, de certa forma, a chegada (aos trancos e barrancos) à vida adulta na Rússia pós-Perestroika, que é uma realidade social bastante diversa (embora igualmente sofrida) do período soviético. 

O trecho tem 8,7 milhões de visualizações no YouTube. Veja. 

“A cena do casamento, que eles estão bêbados, eu imagino que esses garotos cantam como se fosse ‘eu tive uma infância infeliz e por isso que eu me dou mal com a sociedade’. Ou algo como ‘a culpa não é minha, a sociedade que é ruim’. Eu imagino que é com essa mensagem que eles se identificam”, analisa a belarussa, que dá aulas de língua russa em Salvador (para aprender o idioma com ela, clique aqui ou aqui). 

Faixa bônus
Autora de ‘Jorge Amado – Uma Biografia’, a jornalista e escritora baiana Joselia Aguiar explica o motivo dessa fama baiana ter demorado tanto de chegar por aqui. 

“(A União Soviética) era um mundo fechado pro Ocidente. Muito pouco se divulgava. Da parte do Ocidente, também não devia ter interesse em publicar nada que fosse simpático” destaca ela, que lembra ainda uma situação curiosa vivida pelo jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, amigo de Jorge.

“Estava ele realizando o sonho de conhecer Odessa [na Ucrânia, antigo território da URSS], ele sentou na escadaria onde foi filmado O Encouraçado Potemkin, quando passaram algumas crianças tocando ‘Suíte dos Pescadores’. Ele achou que tava tendo um derrame. ‘Deve assim que se morre’… Somente depois é que ele entendeu que a música de Caymmi era um sucesso popular naquele lugar distante”, conta Joselia.

Ela lembra ainda que, independente do cult de ‘Capitães’, Jorge Amado já era bem conhecido entre os leitores russos ao ponto de ‘Dona Flor’ ter motivado muitas pessoas a tentarem reproduzir as receitas baianas em casa. Mas isso é assunto para uma próxima oportunidade.

Por ora, fiquem com a versão russa do clássico do mestre Caymmi traduzida pela nova baiana Volha de Iemanjá.

“Eu comecei a vida nas favelas da cidade
E palavras gentis, eu não ouvi.
Quando você acariciava seus filhos,
Eu estava perguntando, eu estava congelando.

Eu comecei a vida em favelas urbanas
E eu não ouvi palavras boas.
Quando vocês acariciaram seus filhos,
Eu pedia comida, eu morria de frio.
Vocês, me vendo, não escondam seus olhos
Afinal, não sou culpado de nada.

Por que vocês me deixaram? Por quê?
Onde está o meu lar, a minha cama?
Vocês não reconhecem o meu parentesco,
Mas eu sou seu irmão, eu sou um ser humano.
Vocês sempre oram aos seus deuses
E os seus deuses perdoam tudo para vocês.

A terra dos arranha-céus e das mansões luxuosas,
Luz ofuscante sai das janelas.
Oh, se eu conseguisse uma vez juntar as minhas forças
Vocês me responderiam por tudo.
Abram as portas, gente, eu sou seu irmão
Afinal, não sou culpado de nada.

Vocês conheceram carinho das suas mães,
E eu não sabia, e apenas nos sonhos,
Nos meus sonhos dourados de criança
Mãe às vezes apareceu para mim.
Oh mãe! Se eu pudesse te encontrar
Não seria tão amargo meu destino.”

Fonte: Correio