Fumar ou não fumar, eis a questão: quais os riscos da nicotina em tempos de coronavírus?

Parecia uma notícia boa. Um tanto improvável, mas  um alento entre tudo que vem sendo divulgado sobre a pandemia do coronavírus. Um estudo francês indicava que a nicotina, droga presente nos derivados do tabaco, supostamente teria um efeito protetor contra o vírus da Covid-19. O problema é que, como entidades médicas de diferentes países  alertaram depois, não era bem por aí. 

Publicada na revista francesa Comptes Rendus Biologies no último dia 21 de abril, a pesquisa teve repercussões na imprensa de todo o mundo. A notícia foi veiculada em grandes jornais, como o estadunidense The New York Times, o britânico The Times e a rede alemã Deutsche Welle. No site do CORREIO, a notícia figurou entre as mais lidas.

Mas, em poucos dias, entidades como a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) pediram cautela, reafirmando os já conhecidos riscos  do tabagismo. 

“Sabemos que, no momento, várias linhas de pesquisa estão em andamento para tentar entender como o novo coronavírus age e como combatê-lo. Mas ainda é muito precoce e arriscado afirmar qualquer potencial fator protetor da nicotina para o Sars-Cov-2”, diz a SBTP, em uma nota conjunta. No resto do mundo, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia também foi uma das que se manifestou de forma contrária. 

Percentual  
De acordo com o estudo francês, coordenado pelos pesquisadores Jean-Pierre Changeux, Zahir Amoura, Felix A. , Reydand e Makoto Miyara, havia 80% menos fumantes entre os pacientes de Covid-19 avaliados na amostra do que na população em geral, considerando o mesmo gênero e idade dos participantes. 

O relatório foi baseado em 350 pacientes hospitalizados pela doença e outros 150 pacientes com sintomas leves, mas que também testaram positivo para a Covid-19.

Na ocasião, o médico Jean-Pierre Changeux, do Instituto Pasteur, e um dos pesquisadores, explicou à agência AFP que o resultado seria devido à hipótese de a nicotina reter ou impedir o vírus de se fixar no receptor celular. Dessa forma, o coronavírus não penetraria a célula, nem se espalharia pelo corpo. 

Mas o que as entidades médicas vêm alertando é que, uma vez que fumantes sejam infectados pelo coronavírus, eles tendem a ter uma piora da evolução do quadro. 

“A discussão sobre a nicotina surgiu porque, em alguns estudos realizados na China, pareciam haver menos fumantes do que o esperado nas hospitalizações pela Covid-19. No entanto, não está claro se a coleta de informações sobre quais pacientes eram tabagistas nesses estudos foi adequadamente realizada” , ponderam, na nota divulgada no último dia 24 de abril. 

Esse é um dos motivos pelos quais os especialistas defendem que questionamentos específicos sobre tabagismo sejam incluídos nas fichas de notificação dos pacientes no Brasil, como destaca a pneumologista Tatiana Galvão, diretora de comunicação da SBPT e professora do curso de Medicina da Unifacs. 

“O que a gente está tentando ver é se podemos colocar essa informação específica na ficha, ou seja, fazer perguntas simples sobre tabagismo aos pacientes, mas que pudessem ajudar depois para estudos”, explica. 

Piora no quadro
Segundo ela, a nicotina pode trazer mais danos ao paciente, já que os fumantes têm mais chance de desenvolver doenças vasculares e pulmonares. A nicotina é uma droga psicoativa que, além de levar à dependência, pode trazer danos ao organismo, como o risco de infarto. 

“Nosso raciocínio é o contrário: é de que os pacientes fumantes teriam um prognóstico pior do que os não fumantes”, enfatiza Tatiana. 

Dessa forma, inclusive, os fumantes podem até mesmo serem enquadrados como um grupo de risco para a covid-19.

“Pacientes com doenças pulmonares crônicas, como asmáticos e fibrose pulmonar, têm risco de maior gravidade (com o coronavírus). Por isso, a gente recomenda que não fumem e continuem usando as medicações, se já usarem”, diz a médica. 

Uma possível condição pior para fumantes infectados pelo coronavírus também é apontada pelo pneumologista Guilhardo Fontes, coordenador da residência de Clínica Médica do Hospital Santa Izabel, diretor acadêmico da Associação Bahiana de Medicina (ABM) e professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. 

“A gente sabe pouco sobre coronavírus porque estamos estudando há poucos meses. Mas, logo no início da crise, um estudo chinês já demonstrava que as pessoas que fumam ou tinham histórico de tabagismo têm 14 vezes mais chance de desenvolver as formas mais graves da doença”, diz, referindo-se a uma pesquisa da Universidade de de Ciência e Tecnologia de Huazhong, em Wuhan, na China.

Pelo estudo, publicado no Chinese Medical Journal no fim de fevereiro, o risco maior de desenvolver pneumonia seria devido ao fato de que fumar já provoca um quadro inflamatório crônico nos pulmões. 

E não se trata apenas do cigarro comum: o cigarro eletrônico e os cachimbos narguilés tambem estão incluídos. “O cigarro já aumenta a chance de contaminação porque a pessoa coloca a mão na boca com mais frequência”, cita. 

Além disso, o tabagismo diminui a resistência pulmonar e a resistência sistêmica, favorecendo o desenvolvimento das formas graves de doenças pulmonares. 

“O cigarro estimularia receptores e teoricamente uma ação nesses receptores poderia diminuir a ação do coronavírus. Mas o tabaco tem doenças relacionadas. Esse estudo foi visto até com certa desconfiança pela comunidade médica porque fere a ética ao dar o cigarro a alguém. A gente quer diminuir a pandemia do cigarro. Duas pandemias juntas, a do cigarro e a do coronavírus, não poderiam dar coisa boa”, afirma Fontes. 

Qualidade  
Outro ponto que tem sido questionado acerca do estudo francês é justamente o fato de não ter sido revisado por pares e nem fazer referência a aprovação por nenhum comitê de ética em pesquisa. A SBPT, em nota, ainda destaca que ao menos um dos autores do estudo, no passado, já teria sido financiado pela indústria do tabaco. 

“Como o coronavírus é muito grave, os estudos estão saindo muito rápido. Mas é preciso observar se o estudo é randomizado (quando há dois grupos recebendo tratamentos diferentes, por exemplo) ou não e se tem um grande número de casos. Isso traduz uma metodologia científica”, completa a pneumologista Tatiana Galvão. 

A recomendação para se proteger do coronavírus, portanto, ainda é de parar de fumar. Segundo a pneumologista, a interrupção pode ajudar mesmo quem tem histórico. Um dos exemplos vêm justamente dos estudos sobre câncer de pulmão. 

“A partir do momento que eles param de fumar, esse risco de ter câncer vai reduzindo ao longo da vida. Mas, ainda assim, só passa a ser igual ao resto da população após 20 

Fonte: Correio