'Somos a linha de trás': conheça as histórias de quem cuida dos mortos por coronavírus

A ‘linha de frente’ do combate ao coronavírus já é bem conhecida: é fácil pensar em médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, profissionais de saúde em geral. Mas o que nem todo mundo lembra é que a cadeia não para aí. Infelizmente, ela pode chegar até o último estágio: o do setor funerário. 

“Nós somos a ‘linha de trás’. A última linha”, diz a servidora pública Aurora (nome fictício a pedido da entrevistada), 47 anos, que há pouco mais de um ano trabalha atendendo e orientando as famílias no Cemitério Municipal de Brotas. Ela não quis se identificar justamente porque a família não sabe onde trabalha. O local foi o primeiro da rede pública a receber o sepultamento de uma vítima de coronavírus, ainda em março. 

Servidora da Secretaria Municipal da Ordem Pública (Semop) há duas décadas, atuava como fiscal antes de pedir para ser transferida para o cemitério, por ser mais perto de casa. Temendo o preconceito, já escondia o cemitério antes. Agora, evita mais ainda. 

“Moro com minha mãe, que é idosa, e minha filha. Se elas soubessem, principalmente minha mãe, já estariam se ajoelhando para eu sair daqui. O preconceito das pessoas é muito grande e eu estou tentando preservar a saúde mental delas”, conta Aurora, que usa o mesmo macacão branco que os sepultadores, cobrindo todo o corpo. 

O macacão é um dos equipamentos de proteção individual (EPIs) que se tornaram um dos requisitos para profissionais que lidam com os corpos das vítimas de covid-19, depois que o Ministério da Saúde publicou orientações para o manejo de corpos no contexto do coronavírus no final de março. No documento, o órgão destaca que os envolvidos com o cuidado com os corpos também estão expostos aos riscos de infecção pelo vírus. 

Cemitérios em Salvador têm investido em macacões para os coveiros, como esse usado pelo sepultador Evaldo Oliveira, no Cemitério Municipal de Brotas
(Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

No manual, há desde a indicação de desinfectar o transporte até os EPIs que devem ser utilizados por quem manuseia esses corpos. Em ocorrências hospitalares, os EPIs incluem gorro, óculos de proteção facial, avental impermeável de manga comprida, máscara cirúrgica, luvas e botas impermeáveis. 

Aurora atende as famílias e precisa ficar por perto para que evitem as aglomerações. Nos cemitérios municipais, a recomendação é de que qualquer enterro tenha apenas 10 pessoas. Velórios só podem durar dez minutos e, em casos suspeitos ou confirmados de covid-19, os caixões são imediatamente sepultados, sem ser abertos. 

“Antes da pandemia, a gente já se cuidava. Agora, a gente vai ao extremo. Tenho evitado usar até bolsa. Coloco minhas coisas num saco plástico de mercado quando saio de casa e passo álcool em gel”, afirma. 

Como Aurora, há outras figuras que estão entre as que cuidam das vítimas de covid-19 que não resistiram. Como ela, há médicos legistas, agentes funerários, coveiros e outros profissionais do ramo de cemitérios. Para dar mortos e às famílias sepultamentos com dignidade, muitos enfrentam os próprios medos e dúvidas. 

Além do macacão, os EPIs incluem luvas, botas, viseira e máscara que protege contra fluidos biológicos (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Demanda
Na quarta-feira (29), dia em que o CORREIO esteve no cemitério de Brotas, só havia dois sepultamentos previstos – nenhum deles relacionado à pandemia. Além de Aurora, havia apenas um sepultador. Os 26 do município podem ser deslocados entre os 10 cemitérios – seis localizados no continente, quatro nas ilhas -, de acordo com a demanda. 

Para garantir a segurança dos trabalhadores, após o último enterro previsto os cemitérios são fechados e só reabrem no dia seguinte. Além disso, a Limpurb tem feito a higienização dos espaços pelo menos uma vez por semana. 

A Semop não divulga quantos casos de covid-19 foram enterrados nos cemitérios municipais, mas confirma que todos os seis que ficam na parte continental da cidade já tiveram casos, entre suspeitos e confirmados. 

“No primeiro que teve aqui, quando recebi, fiquei em choque. Cheguei em casa e fiquei acuada no sofá, com medo”, diz Aurora. Ao chegar em casa, ela entra pela porta dos fundos e, já na lavanderia, coloca toda a roupa para lavar. 

“Acredito que a gente vai continuar nessa rotina. Eu não posso sair daqui porque fui eu que pedi para vir para cá e é perto de minha casa. Eu sei que o nosso trabalho é muito importante”, reforça. 

Já o sepultador Evaldo Oliveira, 42, passou a trabalhar no cemitério há sete meses. Antes disso, foi, por seis anos, auxiliar de “rabecão” no Departamento de Polícia Técnica (DPT). “Mesmo antes da pandemia, a gente já usava alguns equipamentos, como luva e máscara. Mas quando começou essa situação, veio a roupa especial”, explica ele, que intercala o uso do macacão com o uniforme regular. 

O sepultador Evaldo sabe que precisa aumentar os cuidados ao se ‘desparamentar’ (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Lá, o macacão ficou designado especificamente para os momentos do sepultamento em si. Como a maior parte das covas ainda é no chão, Evaldo e os colegas precisam fazer a parte de escavação antes de vestir o macacão. “Vou trocando de roupa várias vezes no dia, a depender do número de enterros. Mas tem todo um cuidado para tirar os EPIs, isso faz parte também”, reforça. 

Morador de Sussuarana, ele é recebido logo na porta com um balde com água e sabão sempre que chega em casa do trabalho. Na entrada, lava as mãos e os pés, além de tirar os sapatos. Coloca toda a roupa para lavar e segue para tomar banho antes de fazer qualquer coisa. 

“Meu cuidado é redobrado porque tenho uma neta de 10 meses. Medo de pegar esse vírus todo mundo tem, mas acredito que se a gente se precaver, usar os equipamentos, usar máscara, lavar as mãos e não tocar nas pessoas, o risco é menor”, analisa Evaldo, que vive com a esposa, a enteada e a neta. 

Ele conversou com o CORREIO antes e depois dos dois sepultamentos do dia, que foram praticamente seguidos um do outro. A situação, acredita, não deve melhorar. “Queria que acabasse, por mim e pelos meus colegas. Mas, se continuar, temos que estar prontos e não cometer erros. A gente tem que ter coração e pensar nas famílias que perderam alguém”. 

Mesmo os enterros que não têm relação com a covid-19 não podem ter mais do que dez pessoas no local, para evitar aglomerações
(Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Transporte
Depois de mais de três décadas trabalhando no ramo funerário, o hoje motorista Renato Nascimento, 54, presta serviço para quem chamar. Ao longo da vida, chegou a ter sua própria empresa, mas sucessivas crises fizeram com que fechasse as portas. “Muito fiado, muita nota promissória, cheque sem fundo. Agora, sou só eu e Deus”, diz. 

Renato faz transportes de caixão. Tem dias que são três, quatro viagens. Em outros, nenhum. Mas, na segunda semana de abril, acabou fazendo um serviço para o qual não tinha se preparado. Era uma mulher que morrera em casa, no Engenho Velho de Brotas, por insuficiência respiratória. A suspeita era de coronavírus. 

“Ninguém me disse nada antes. A família disse que não sabia. Só a pessoa que libera no IML (Instituto Médico Legal) que me falou, quando o caixão já estava dentro do carro. Me disse que era para levar direto para o cemitério. Se eu soubesse que era isso, nem teria ido”, admite ele, que terminou levando a urna até o cemitério da Quinta dos Lázaros, na Baixa de Quintas. 

Nem todo mundo lembra deles, mas os motoristas que transportam caixões também são algumas das figuras que estão entre aqueles que cuidam das vítimas falecidas por covid-19. Renato usou uma máscara e uma luva. Era o que tinha, em seu carro, disponível como EPI. 

“Amanhã mesmo já vou atrás de mais equipamento. Tem que se proteger mesmo”, disse, no dia seguinte ao transporte, quando conversou com a reportagem. Procurada pelo CORREIO, a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) não confirmou se a mulher transportada pelo motorista tinha morrido por coronavírus e informou que não divulga informações de pacientes.

No dia do sepultamento, segundo Renato, não havia sabão nos banheiros do cemitério. No momento em que chegou lá, conta, não havia nada além de água. “Mas eu tenho sabão no carro e, do lado de fora, tem um tanque. Lavei e depois passei meu álcool”. 

Mesmo assim, disse não ter medo de ser infectado pelo vírus. Nem mesmo se o número de mortes aumentar dramaticamente. “Não tenho medo porque ando com Deus. Mas, se der para evitar, vou evitar, por causa da minha própria família”, pondera. 

Procurado pelo CORREIO, o diretor administrativo do cemitério Quinta dos Lázaros, Giácomo Joaquim, negou que o espaço não esteja disponibilizando sabão para que as pessoas possam lavar as mãos. O caso de covid-19 transportado por Renato teria sido o primeiro enterrado no local. Joaquim afirmou, ainda, que o cemitério tem seguido todos os protocolos definidos pelos órgãos de saúde. 

Preparo
Nem sempre, porém, dá para evitar lidar com sepultamentos e velórios de vítimas de coronavírus. Desde março, o supervisor operacional do cemitério Campo Santo, Simon Cerqueira, 34, tem acompanhado de perto os casos de morte por covid-19. Foram cremados lá os dois primeiros óbitos confirmados pela doença no estado, ainda em março. 

Há 14 anos na instituição, onde começou como coveiro, hoje ele supervisiona os 20 coveiros do cemitério – que, por sua vez, têm trabalhado em rodízios quinzenais com metade da equipe. 

Simon Cerqueira trabalha há 14 anos no Campo Santo e supervisiona a equipe de 20 coveiros do cemitério
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Desde então, até o início da semana, eles atenderam nove casos confirmados da doença e outros 20 mortos por suspeita de coronavírus.

“Quando a gente recebeu a notícia do primeiro, a gente viu que o negócio realmente estava acontecendo. Já fui me preparando psicologicamente”, conta. 

Simon já costuma trabalhar usando máscara. Como não manuseia diretamente os caixões, não usa os aventais e outros EPIs utilizados pelos coveiros. Mesmo assim, já tinha incorporado uma rotina de cuidados de assepsia antes mesmo da pandemia. 

Ele admite que existe uma apreensão no ar a cada dia no trabalho. Mesmo assim, diz não ter medo propriamente dito. A resposta das famílias ao trabalho que tem sido feito tem funcionado como uma forma de conforto. 

“Sempre houve valorização, mas hoje é muito grande. Por mais difícil que seja, eu coloquei na minha mente que, se eu posso ajudar, vou ajudar. Já vi casos na televisão de pessoas que estão  tendo que deixar seus mortos nas ruas. Por isso, enquanto eu puder, eu e meus colegas estaremos aqui ajudando”, enfatiza. 

No cemitério Campo Santo, de acordo com o gerente Roberto Taboada, houve um aumento de enterros com suspeita de covid-19 no início de abril. “Agora, tem (sepultamento ou cremação) praticamente todos os dias”, revela. Em março, porém, o número de enterros e cremações se manteve dentro da média mensal, que é de 260. 

Profissionais como os coveiros passaram a usar EPIs como os macacões. Luvas de borracha, óculos e máscaras do tipo N95 já eram usadas. De acordo com a coordenadora de Segurança e Medicina Ocupacional da Santa Casa da Bahia, mantenedora do Campo Santo, os atuais EPIs incluem o macacão, o respirador PFF2 ou a máscara N95, óculos de proteção e luvas nilítricas. 

Coveiros do Campo Santo também macacão, máscara, óculos e luvas
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

No cemitério como um todo, houve mudanças que vão desde a redução no tempo máximo dos velórios (de quatro horas para duas) e o limite de até 10 pessoas nas salas para qualquer velório. Nos suspeitos de coronavírus, não há velório. 

“Graças a Deus, as pessoas estão tendo um entendimento de não vir (em grupos grandes). Quem está vindo mesmo são familiares bem próximos”, afirma o gerente Roberto Taboada. 

Preocupado com o futuro, Taboada afirma que o cemitério se preparou para que não aconteça um colapso do sistema funerário. No ano passado, foi inaugurado o crematório, que é um dos mais rápidos do ramo – o processo acontece em até duas horas e meia; normalmente, poderiam durar até quatro horas e meia. 

Além disso, em 2017, foram construídas 800 sepulturas bioecológicas, que não poluem o meio ambiente e têm segurança biológica comprovada. “Assim, não existiria contaminação por alguém sepultado ali. A gente não pensou nisso imaginando que haveria uma pandemia, mas é algo também que é mais seguro para os funcionários”, completou. Há, ainda, cerca de mil outras vagas ‘tradicionais’ de sepultura. 

Contato 
Mesmo para quem trabalha na parte administrativa das funerárias, a rotina mudou. A gerente administrativa da funerária Decorativa, Gilvana Ribeiro, 55, que tinha cuidado do sepultamento de cinco vítimas confirmadas de covid-19, conta que existe um temor no ar. 

“Todo mundo já tem o costume de conviver com isso. Mas a gente teme por nossa família, por tudo. A própria família se preocupa, porque algumas pessoas ficam ligando e falando para me proteger”, conta. Em casa, deixa tudo na porta quando chega. Ela passou a ir trabalhar apenas com carros por aplicativo, enquanto usa máscara e álcool gel. “A cada funeral que a gente faz, a gente limpa o carro. Assim, a gente protege todo mundo”. 

Os procedimentos de tanatopraxia (técnica de conservação de cadáver), a exemplo do embalsamamento, estão proibidos nos casos suspeitos ou confirmados de coronavírus. É uma forma de proteger também os profissionais, como explica o professor de tanatopraxia Amilton Ribeiro, proprietário da funerária Pax Caminho da Saudade. 

“Tem que pegar do hospital, colocar no caixão e já sair do hospital com saco vedado, colocado diretamente no caixão. Vamos todos paramentados com máscara e luva, retiramos e levamos os corpos”, diz Amilton.  

Nesses tempos difíceis, admite ter ficado com o psicológico abalado. “É algo novo para nós. Onde quer a gente vá, tem que ter cuidado redobrado”. 

Na funerária Aliança, na Massaranduba, onde trabalha o tanatopraxista Júlio David, 40, a decisão, por enquanto, é de não transportar corpos suspeitos ou confirmados de coronavírus. “Muitas funerárias ficam com medo, por causa do carro. Mas acredito que vai chegar um ponto que a demanda será tão grande que não vai dar para recusar”.

Na empresa onde o tanatopraxista Júlio David trabalha, eles têm evitado casos de coronavírus (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Baiano, ele trabalhou como tanatopraxista em Recife, por cinco anos. Retornou a Salvador há sete meses. “A orientação que eu tenho é para evitar. Muitas empresas têm feito isso”, completa. 

Cemitérios municipais aumentam capacidade

Ainda que a taxa de letalidade por covid-19 na Bahia esteja abaixo da média nacional (3,6 contra 7), as autoridades sabem que, nos piores cenários, é preciso evitar o colapso do sistema funerário – e, assim, evitar cenas como as do Equador, de Nova York (EUA) e mesmo de Manaus. 

Por isso, até o final de maio, os cemitérios municipais devem ter uma ampliação de 600 novas vagas nos cemitérios de Paripe (120) e Plataforma (480). Além disso, de acordo com o secretário estadual da Ordem Pública, Marcus Passos, outras 1,3 mil novas vagas estão sendo abertas em processo emergencial nesses cemitérios. 

A maioria das novas vagas nos cemitérios foi construída em gavetas (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

A previsão é de que as 1,3 mil vagas sejam entregues em até 60 dias. Apesar de tudo, o secretário admite que não é possível saber se o investimento será suficiente ou não. 

“A gente não sabe o quanto essa pandemia vai atacar em Salvador em grande escala. A prefeitura e o governo do estado têm tomado medidas até duras de isolamento e a gente tem percebido que temos conseguido controlar essa curva, em comparação com outros estados”, pondera o secretário. 

A prefeitura também tem buscado convênios com cemitérios privados, para que também ofereçam sepultamentos com valores acessíveis para o município. Ao todo, de acordo com Passos, a Semop acredita que serão 600 novas vagas nesse modelo. 

Há, ainda, um convênio com o cemitério Jardim da Saudade que prevê duas cremações diárias não cumulativas. Assim, ao longo do ano, seriam até 730 cremações destinadas à população em situação de vulnerabilidade social. 

Entre os serviços municipais oferecidos, os sepultamentos são mais buscados em detrimento da cremação conveniada (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

No total, o número de vagas ofertadas deve passar de 3,6 mil. Ainda de acordo com a secretaria, é possível contratar outros 25 sepultadores, em caso de aumento de demanda. 

“Mas a procura por esse serviço é muito baixa. A gente sempre informa da possibilidade, mas tem uma resistência muito grande por parte de algumas famílias, por questões de cultura e religião. Só que no caso de uma pandemia, pode ser que não tenha outra alternativa”, explica. 

A cremação não pode ser feita em casos de mortes violentas – já que, no futuro, é possível que a Justiça solicite eventualmente a exumação do corpo – nem em casos em que a pessoa tiver marcapasso, platina ou prótese de metal. No ano passado, segundo a coordenadora de Serviços Gerais da Semop, não houve mais do que 250 pedidos pela cremação.

Fonte: Correio