Em vídeo sobre Migliaccio, Lima Duarte lamenta ‘devastação dos velhos’ e ditadura

O ator Lima Duarte, 90 anos, fez uma homenagem ao colega e amigo Flavio Migliaccio, 85, encontrado morto na manhã desta segunda-feira (4). O veterano relembrou o período de repressão que eles e outros artistas sofreram durante a ditadura militar, entre 1964 e a primeira metade dos anos 80, e citou uma vez em que foi conduzido por membros do regime.

“Por ter vivido esse momento, eu te entendo, Migliaccio. Agora, quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrível de 68, agora, 56 anos depois, quando eles promovem a devastação dos velhos, não podemos mais”, comentou Lima Duarte, num vídeo feito em casa, com duração de quase 5 minutos.

“Eu, como você, sou do Teatro de Arena, com Paulo José, Chico de Assis, com o (Gianfrancesco) Guarnieri. Foi lá que aprendemos com o (Augusto) Boal que era preciso, era urgente que se pusesse o brasileiro em cena”, diz na gravação, ao citar o legado deixado pelos atores, escritores e diretores que levaram a “alma brasileira” para os palcos e, depois, para as telas. 

“Eu não tive a coragem que você teve”, mencionou ele, sem dizer a que se referia. Ainda na crítica à ditadura, citou o autor de teatro Bertold Brecht, ao dizer que “os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”. 

Assista.

Migliaccio foi encontrado morto na manhã de segunda-feira (4) em seu sítio em Rio Bonito, no Rio de Janeiro, após cometer suicídio. Ele atuou na cena teatral de São Paulo integrando o grupo Teatro de Arena, nos anos 50. 

Num texto publicado no Facebook, nesta terça, o filho do ator, o jornalista Marcelo Migliaccio, escreveu que seu pai que “não aguentava mais viver num mundo como esse e sentir seu corpo deteriorar-se rápida e irreversivelmente pela idade avançada”. 

“Pouco escutava e enxergava. ‘Daqui para frente só vai piorar’, ele me dizia enquanto eu buscava todos os argumentos possíveis para lhe mostrar que ainda havia muita coisa boa reservada para ele”, completou Marcelo.

Fonte: Correio