Grades serão colocadas nas janelas para evitar fugas no Hospital Espanhol

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O surto psicótico sofrido pelo agricultor André Saturnino de Souza, 55 anos, na noite desta terça-feira (5), quando ateou fogo no quarto e em seguida pulou de um dos andares do Hospital Espanhol, foi o segundo caso em uma semana na unidade médica destinada exclusivamente ao internamento de pacientes com a covid-19 em Salvador. 

No dia 28 de abril, um homem também surtou e conseguiu escapar do hospital saltando do 3º andar. Para evitar novas situações como estas, a direção do Espanhol decidiu instalar grades nas enfermarias. 

“Iremos providenciar a colocação de grades nas janelas, uma vez que estes pacientes com coronavírus eventualmente podem apresentar a diminuição da oxigenação do sangue isso pode ser responsável pelo desencadeamento desse quadro de desorientação e surto em pacientes”, declarou o secretário de Saúde Fábio Vilas-Boas. A baixa oxigenação do cérebro se transforma em um vetor para ansiedade e distúrbios neurológicos nos pacientes.

Foi o que aconteceu com André, que estava internado no 4º andar desde o dia 4 – ele chegou ao Hospital Espanhol regulado do Hospital Municipal de Santo Amaro, no Recôncavo. Uma sobrinha de André contou ao CORREIO que o agricultou é fumante há anos e usou um isqueiro para pôr fogo no colchão.

“Todo fumante anda com um isqueiro ou caixa de fósforo escondido em algum lugar. O que a gente não consegue entender como é que isso passu na triagem. Meu tio chegou ao hospital com alguns pertences numa sacola”, disse ela, acreditando que o incidente poderia ter sido evitado se os objetos trazidos pelo tio fossem vasculhados por funcionários do hospital. 

Após uma varredura no quarto, foi encontrado um isqueiro. A assessoria de comunicação da Secretaria Estadual de Saúde (Sesab) informou que uma investigação interna foi instaurada para apurar em qual circunstância o objeto foi parar no local onde houve o incêndio. Por causa do incidente, pacientes foram transferidos para outras unidades médicas, inclusive André, que atualmente está internado no Hospital Municipal de Salvador, na Boca da Mata.

Psicóticos
Por volta das 23h desta terça, André pôs fogo no colchão, usou o suporte do soro, que é de metal, para quebrar o vidro da janela. “Ele teve um surto psicótico. Colocou sua cama contra a porta para impedir a entrada de socorristas e jogou-se da janela do 4º andar até a laje do 3º andar da UTI e fraturou a perna. Rapidamente, os profissionais   conseguiram arrombar a porta com o uso de extintores de incêndio e debelaram o fogo no apartamento 429. O andar inteiro foi evacuado. O 3º e o 5º andar foram também evacuados e os  pacientes foram transferidos para outras unidades”, contou o secretário Fábio Vilas-Boas.  

Os pacientes foram transferidos para outras unidades hospitalares para tratamento da covid-19. São elas: Hospital Ernesto Simões, Hospital do Subúrbio, Instituto Couto Maia e Itaigara Memorial. As demais áreas do Hospital Espanhol não tiveram seu funcionamento alterado.

“Hoje, ao longo do dia, faremos a operação de rescaldo assim que o Corpo de Bombeiros liberar esses dois pavimentos, iremos iniciar a reforma desse pavimento o mais rápido possível para ativar essas enfermarias. Por enquanto, vamos abrir a enfermaria do sexto andar, que ainda estava fechada e que não foi atingida pela fumaça e começar reocupar os leitos o mais rápido possível”, disse o secretário.

O primeiro surto de paciente no Hospital Espanhol aconteceu no dia 28, quando um homem pulou da janela do 3º andar, onde funciona uma das enfermarias. “Ele caiu no teto do refeitório. Do teto, pulou novamente e conseguiu sair do hospital. Ele passou a noite sumido”, contou uma funcionária do hospital, que preferiu não revelar o nome. 

Na manhã do dia seguinte, o homem retornou por conta própria ao Espanhol. “Ele chegou sozinho, usando a roupa do hospital, com alguns arranhões e não sabia o que tinha acontecido. Ele havia surtado. Foi colocado de volta no leito e foi oxigenado, mas à noite ele veio a óbito. A gente acredita que o fato de ter passado a noite toda sem assistência pode ter agravado a situação dele”, relatou a funcionária.

Descaso
Nascido na cidade de Camamu, no litoral sul da Bahia, André vive sozinho num sítio em Santo Amaro Purificação, região do Recôncavo do estado – os dois filhos dele moram em Brasília. “Ele é vive na zona rural e a gente quando quer falar com ele, conta com os vizinhos porque ele é do tipo daquelas pessoas matutas, ele nem tem celular”, contou a sobrinha dele ao CORREIO. 

No dia 3 deste mês, André deu entrada no hospital municipal da cidade com sintomas da covid-19, entre eles a falta de ar. No dia seguinte, foi logo regulado para o Hospital Espanhol, em Salvador. Logo após a internação, parentes do agricultou foram vítimas do descaso por parte de funcionários do hospital. 

“Desde o dia do internamento, não consegui falar com ninguém no Espanhol. No meu celular tem mais 110 chamadas para serviço social. Quando não estava ocupado o tempo todo, chamava e ninguém atendia ou atendia, do outro lado a pessoa ficava muda. Somente hoje, quarta-feira, que consegui falar com uma assistente social. Foi quando uma delas me ligou para dizer sobre a tentativa de fuga do meu tio”, relatou.

O agricultou encontra-se em estado de saúde estável no Hospital Municipal de Salvador, onde passará por uma cirurgia por causa do fêmur quebrado na tentativa de fuga. 

Procurada, a Sesab reconheceu o problema. A assessoria informou que, antes, eram apenas duas assistentes sociais em serviços rotineiros no hospital, mas que a partir dessa quarta, o número foi dobrado. Ou seja, agora são quatro assistentes sociais recebendo os parentes dos pacientes e ligado para os familiares de todos os pacientes que foram transferidos para outras unidades.
 

Fonte: Correio