Ialorixá e vereadora, Mãe Mara é alvo de intolerância na BA: 'tristeza sem tamanho'

Única ialorixá em um cargo eletivo na Bahia, a vereadora Mãe Mara de Ogum afirmou ter sido vítima de intolerância religiosa, na última semana, na cidade de Muritiba, no Recôncavo da Bahia, a 124 km de Salvador. O caso foi denunciado ao Ministério Público da Bahia e à Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial.

Uma montagem de fotos, publicada nas redes sociais e compartilhada também através de WhatsApp, fazia alusão de que a vereadora estava fazendo feitiçaria contra o radialista Antônio Matos, da Rádio Comunitária Muritiba FM, que teria negado um direito de resposta a ela.

“Ao me deparar com uma montagem daquela horrorosa denegrindo a minha imagem e a religião foi um susto muito grande, uma agressão à minha pessoa, ao povo de matriz africana. Para mim foi uma tristeza sem tamanho. Não tenho palavras para qualificar como me senti na hora. Faltou chão. Fiquei me perguntando como podem existir pessoas tão pequenas, tão más”, afirmou Mãe Mara.

“É lamentável que numa altura dessas, no mundo em que estamos vivendo, com tantas mazelas, a intolerância religiosa, o preconceito e a injúria, ainda sejam vistos e sentidos. Quando resolveram atacar Mara, não foi apenas a pessoa da ialorixá Mara que foi atacada, mas sim, uma coletividade, que é a comunidade dos povos de terreiros e consequentemente a comunidade negra”, disse a vereadora.

A Federação Nacional do Culto Afro Brasileiro (Fenacab) emitiu uma nota de repúdio. “Repugna-se ações e atitudes com conotação de Intolerância Religiosa, vez também ser crime de Injúria, onde o artigo 140 do CP [Código Penal] penaliza seu autor. Aguardamos retratação formal”, diz trecho do documento, assinado pelo presidente da Fenacab, Aristides Mascarenhas, que vai reproduzido abaixo.

Imagem: Reprodução

Mãe Mara de Ogum atribui o compartilhamento da montagem a Fábio Santos, um dos assessores da prefeitura de Muritiba. “Ele divulgou em um grupo, printaram e mandaram para mim. Quando abri, vi que tinha o nome dele, Fabão”, contou a vereadora.

“Quando uma pessoa próxima a ele questionou porque ele tinha feito aquilo, ele disse, e eu tenho essa mensagem dele, ele disse que pode ter errado em compartilhar, mas quem tinha feito não foi ele. Aí ele printou e mandou com o nome de Alisson Fucks, que trabalha na Muritiba FM”.

Outro lado
Assessor do departamento de comunicação da prefeitura de Muritiba, Alisson Fucks nega ter sido o autor da montagem fotográfica. “Não procede. Eu até agora não fui formalmente procurado. Isso se trata de situações políticas da cidade de Muritiba. Fui uma vítima tanto como ela”, afirmou.

Fábio Santos também nega ter compartilhado a mensagem. “Eu não fiz essa publicação, trata-se de fake News que circulou pelas redes sociais. Me acusaram sobre essa intolerância religiosa, propagaram isso nas redes sociais, mas há também dentro disso tudo um viés político partidário. Eu e a vereadora já tivemos um descontentamento tempos atrás por questões políticas e isso ficou um pouco nítido de que as coisas ultimamente têm tomado esse rumo com esse direcionamento, de tudo que acontece me enquadrarem como autor de qualquer ato, mas eu reitero que não fui o autor da intolerância, da publicação”, defende-se o assessor da prefeitura. 

No início do mês de abril, a vereadora Mãe Mara, que também é pré-candidata a prefeita da cidade, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), informou que fez a doação integral de seu salário para ajudar no enfrentamento ao coronavírus. Em entrevista ao radialista Antônio Matos, durante o programa Alerta Recôncavo, da Rádio Comunitária Muritiba FM, o prefeito de Muritiba, Danilo de Babão, disse que a parlamentar não fez a doação do salário. A reportagem do CORREIO entrou em contato com a assessoria de comunicação da prefeitura de Muritiba, mas não teve retorno. 

“A doação do meu salário ainda não foi depositada como eu deixei disponível, porque o prefeito não sancionou a lei para que criar um fundo de combate à pandemia de coronavírus, então não tinha como depositar”, explica a vereadora. Mãe Mara também afirma que pediu direito de resposta no mesmo programa de rádio, mas teve o espaço negado. 

“Eu pedi o direito de resposta, no mesmo dia entrei em contato, mas não fui atendida. O comunicador falou no ar que no outro dia era para eu estar às 7h30 lá para poder ter o direito de resposta, só que um dia antes ele entrou em contato com meu assessor dizendo que não seria possível, que não iria me receber, então na realidade eu não tive o direito de resposta. Eu fui simplesmente cortada”. 

De acordo com o radialista Antônio Matos, ele disponibilizou um minuto de direito de resposta a ela. “Não teve nenhuma negativa. Tenho uma história no rádio e sei o que posso e não posso fazer. Quando você publica alguma coisa de alguém é claro que nós temos que dar o direito de resposta. O prefeito falou 30 segundos que a vereadora Mara não teria depositado o dinheiro na conta da prefeitura para as ações de solidariedade ao povo. Eu repeti no rádio por duas vezes ‘bom, vereadora, está aqui seus 30 segundos reservados, lhe dou até um minuto para você se pronunciar’. Eu coloquei a disposição dela o mesmo tempo que o prefeito falou sobre o assunto. Não houve negativa de resposta. Não neguei direito de resposta nenhum”, afirmou.

Fonte: Correio