Moradores dão jeitinho e encontram 'points' para furar quarentena em Brotas

Não fosse pelas máscaras nos rostos – muitas vezes penduradas sob o nariz ou queixo – a impressão seria de um sábado normal. Pessoas circulavam nas ruas, com compras às mãos, conversavam próximas umas das outras, jogavam dominó na praça e paravam um tempo na banca de revista para bater papo. No bairro de Brotas, o segundo lugar com maior número de infectados pelo coronavírus em Salvador, os moradores têm encontrado maneiras de furar a quarentena e eleito pontos de encontro para isso. 

A reportagem circulou por alguns dos pontos mais movimentados do bairro, como a Avenida Dom João VI, a Ladeira da Cruz da Redenção, Acupe de Brotas e Daniel Lisboa, por volta do meio-dia deste sábado (9). A chuva provocou uma dispersão, mas, ainda assim, foi possível observar moradores aglomerados, em desrespeito às medidas de restrição continuamente reforçadas para evitar a propagação do vírus.

Lá, já são 53 casos notificados, atrás apenas do bairro da Pituba, com 72 registros, segundo o boletim mais atualizado da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), da última quinta-feira (7).

Nem chuva, nem pandemia afastaram moradores de Brotas das ruas (Foto: Fernanda Santana/CORREIO)

A crescente no número de casos tem chamado atenção de moradores que cumprem a quarentena e assistem, assustados, ao fluxo ainda intenso de pessoas e carros. Os frigoríficos, padarias, bancas de revista e até bares – com funcionamento legalmente suspenso por decreto na capital baiana – transformaram-se nos “points” de gente que, pelo menos aparentemente, não têm medo de se contaminar.

Na entrada da Rua Teixeira Barros, logo depois da subida da Cruz da Redenção, era possível avistar uma longa fila para entrar num figrorífico, enquanto outras pessoas circulavam entre barracas de frutas e hortaliças. “A pandemia acabou!”, ironizou um rapaz, ao ver a reportagem fotografar a cena. Outro foi menos receptivo. “Pare de tirar foto, a gente tá aqui porque precisa”, bradou um vendedor. Havia até trânsito na região. A pandemia não acabou, diferentemente do que disse o homem mascarado e vestido com capa de chuva amarela, mas era o que parecia. 

Na região de Daniel Lisboa, um outro frigorífico junta moradores, principalmente aos sábados, e um bar, embora aparentemente fechado, vende bebidas a pessoas que se reúnem, em pé, à frente do espaço, com latinhas e garrafas de cerveja. O decreto autoriza que os estabelecimentos despachem os produtos e liberem os clientes, não que eles permaneçam, como tem sido observado. 

Fila em frente a figrorífico em Brotas (Foto: Fernanda Santana/CORREIO) 

Uma moradora que preferiu não se identificar e estava à caminho do frigorífico disse que passou a acompanhar da varanda de casa o vaivém de pessoas para decidir qual é o melhor horário para fazer compras essenciais. 

“Nem no frigorífico eu via essa quantidade de pessoas. A circulação continua normal, na minha opinião. Decidi ficar dando uma olhada para saber quando é melhor ir. A quarentena já esteve mais restrita, mas, não sei o porquê, folgou mais”, contou ela, que só sai para o estritamente necessário, como para comprar alimentos ou remédios.  

Nem sempre só espaços que prestam serviços essenciais estão abertos. Lojas de roupas, tecido, floriculturas, salões de baleza e bombonieres mantém o funcionamento normal, sem disfarce. Uma loja de roupa íntima, aberta, anunciava num aviso, a venda de máscaras neste sábado. 

O jeitinho

Diariamente, Catharine Rosas, 23 anos, circula da Avenida Dom João VI até o Horto Florestal. Ela vai e volta a pé do trabalho para casa e, no trajeto de quatro quilômetros de caminhada, em média, vê a aglomeração de pessoas até em happy-hour – encontros depois do trabalho -, por exemplo.

“Toda sexta-feira de noite tinha uma padaria aqui perto onde acontecia happy-hour. Já na quinta, eu estava voltando para casa e vi homens, sempre são homens, conversando, bebendo, numa padaria. Estavam até falando de coronavírus”, contou a psicóloga. 

Como em Daniel Lisboa, um bar da região também retirou as mesas e cadeiras do lado de fora, mas continua comercializando bebidas num novo modelo ilegal de funcionamento. A bebida é despachada, mas os clientes ali continuam, com máscaras abaixadas, para beber. É possível denunciar aglomerações de pessoas gratuita e anonimamente por meio do Disk Aglomeração, no número 160. 

No Acupe de Brotas, com 11 casos notificados, na praça próxima a um módulo policial, é sempre possível encontrar pessoas bebendo e numa partida de dominó. “Aqui parece que nem mudou nada. Ficam jogando dominó, bebendo e alguns até sem máscara”, disse Jeff Pascoal, 22.

Para quem precisa manter o trabalho em meio à pandemia, e atua diretamente com outras pessoas, o clima é de receio pela própria saúde e dos colegas. O taxista Marcelo Rocha, 54, circula pelo bairro frequentemente e observa o movimento com tristeza.

“Continuo por necessidade. Mas, nos bairros de classe média, classe média baixa, a rotina continua”, falou ele, que dirige de máscara. 

Na noite da última sexta (8), um colega de trabalho morreu, vítima de covid-19, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro. “Ontem eu passei num acesso para a Avenida Dom João VI, e tinha trânsito. Isso por volta das 11h. Para mim está claro que as primeiras semanas foram de muita adesão e depois foi afrouxando”, opinou o taxista. 

O bairro é um símbolo de boa parte da cidade – e das cidades brasileiras, como um todo. De um lado, estão os defensores do isolamento social como forma de prevenção e achatamento da curva de contaminado; do outro, os que desdenham. Arthur Lima, 27, fica indignado sempre que retorna para casa depois de buscar a mãe, enfermeira em uma Unidade de Terapia Intesiva (UTI) de pacientes com covid-19, e voltar para Brotas.

“Por isso me irrito mais. As pessoas utilizam máscara, mas mesmo assim, as vezes estão aglomeradas”, lamentou. 

O CORREIO perguntou ao secretário de Saúde de Salvador, Léo Prates, se Brotas integra o radar das autoridades. Ele respondeu que “todos os bairros estão no radar”, mas que estão atentos aos locais “onde os indicadores, não só da saúde, tem apontado uma maior probabilidade de contaminação”.

Medidas de restrição são postergadas 

Algumas medidas de restrição anunciadas na última quinta e que passariam a valer neste sábado foram postergadas para a próxima segunda (11), devido à chuva. As ações serão aplicadas em três pontos de Salvador: o Centro e os bairros da Boca do Rio e Plataforma. Não será o mesmo que lockdown – medida que obriga, na definição do Ministério da Saúde, bloqueio de entradas e saídas das regiões interditadas, monitoradas por agentes de segurança, que permitem somente a circulação de trabalhadores essenciais. 
 
No caso de Salvador, as ações serão progressivas e terão validade de sete dias, com possibilidade de renovação e extensão dos bloqueios para outras áreas. As localidades foram escolhidas a partir da concentração de notificações de casos de coronavírus e da circulação da pessoas. As mudanças serão:

Avenida Joana Angélica: interdição completa da via, que vai do Campo da Pólvora à Praça da Piedade. Neste trecho, existirão seis barreiras de trânsito em ruas laterais que dão acesso aos bairros da Mouraria e Tororó. A Avenida Sete de Setembro, que fica na intersecção com a Av. Joana Angélica, já está interditada desde o início de abril devido às obras de requalificação e terá uma barreira de trânsito.

Plataforma: haverá restrição de atividades na região do Largo do Luso, em Plataforma. Nesses locais, o acesso será permitido apenas a moradores, com apresentação do comprovante de residência. Todas as atividades comerciais formais e informais estarão proibidas, exceto supermercados, farmácias, bancos e agências lotéricas.

Boca do Rio: na Rua Hélio Machado, o bloqueio será semelhante ao praticado em plataforma, com acesso apenas de moradores, com apresentação de comprovante de residência, e fechamento de comerciais formais e informais não-essenciais. 

Em relação aos veículos, a restrição viária vai ocorrer das 7h às 19h. Os veículos do transporte coletivo, por sua vez, terão acesso normal às localidades. Serão instaladas barreiras e a fiscalização será feita por agentes da Superintendência de Trânsito (Transalvador), Guarda Civil Municipal (GCM) e Polícia Militar da Bahia (PM-BA).

Fonte: Correio