O ciúme da estátua de Cristo pela estátua do poeta

Neste período de pandemia, a fé tem sido um meio de impedir o constante assédio do desespero. Pelas bandas de cá, já houve procissão da imagem do Senhor do Bonfim e a exposição da figura do padroeiro da cidade, São Francisco Xavier.

No entanto, é de provocar estranheza que uma outra imagem católica aqui em Salvador atraia poucos devotos e quase nenhum romeiro. É ainda mais curioso porque esta imagem foi esculpida tão logo o mundo venceu outra pandemia: a da gripe espanhola, em 1918.  

Em 1920, ou seja, há exatos 100 anos, o artista plástico Pasquale de Chirico esculpiu e entregou por encomenda a imagem do Cristo Redentor (antes mesmo da imagem do Rio de Janeiro, que é de 1931). O pedido foi do desembargador José Botelho Benjamin, como um presente à cidade pelos anos difíceis enfrentados. O Cristo foi colocado inicialmente perto da praia de Ondina.

Imagem de Cristo esculpida em mármore pelo artista plástico italiano Pasquale de Chirico (Foto: Reprodução)

A imagem, desenhada em mármore de carrara, é de Jesus, mas a nossa história aqui remete a outros dois personagens bíblicos: os irmãos Caim e Abel, marcados pela flecha do ciúme.

Em 1923, no mesmo ano que o Teatro São João foi demolido após um incontrolável incêndio, Pasquale de Chirico foi contratado para mais uma empreitada: fazer em bronze uma estátua em homenagem ao poeta Castro Alves.

Nesta porção mágica de terra que é a Bahia, as duas estátuas irmãs passaram a travar uma disputa por importância e prestígio na cidade. Vale lembrar que elas são filhas do mesmo pai italiano. Como também era italiano o carpinteiro Geppeto, que da madeira esculpiu Pinóquio, o boneco que ganhou vida própria, sentimentos e personalidade.

Os dois monumentos baianos também possuem um perfil único, cada qual à sua maneira – e representam os dois lados da mesma nica do soteropolitano. Enquanto a estátua de Cristo reforça o espaço sagrado; a do poeta boêmio Castro Alves, das noitadas trôpegas, simboliza o profano.

O ciúme
Nos primeiros anos, entre as duas irmãs, não havia disputa. A imagem do Cristo ficava no morro do Camarão, onde hoje é a Prefeitura da Aeronáutica. Muitos casais e familiares, acompanhados dos seus filhos, iam até lá apreciar o belo pôr-do-sol. 

O historiador Nelson Cadena conta até que, durante a visita do príncipe italiano Umberto de Savoia à Bahia, em 1924, ele teria incluído uma visita ao monumento para conhecer a arte produzida pelo seu conterrâneo.

A ciumeira começou nos anos seguintes. A estátua do Cristo foi perdendo importância, enquanto a de Castro Alves crescia com o desenvolvimento da Avenida Sete e a inauguração da Carlos Gomes. Uma virava cartão-postal; a outra enfrentava sua via crucis, caindo no ostracismo e enfrentando a ação depredatória dos vândalos.

Como ela, feita à imagem e semelhança do criador, poderia ser preterida diante de um simples poeta? Acordava e dormia com este pensamento.  

Os cristais de quartzo que sustentavam a base foram sendo despedaçados a marretadas. A falta de manutenção a deixou com um aspecto de abandono, sujeita à farra dos pombos. 

Do outro lado da cidade, Castro Alves, por sua vez, reluzia diante dos hotéis, das lojas grã-finas e do Cinema Guarany, onde os jovens circulavam interessados nas novas tendências comentadas ao redor do mundo.

Imagem de Castro Alves na era de ouro da Rua Chile, Avenida Sete e Carlos Gomes (Foto: Reprodução)

No fim da década de 1960, depois de tamanho descaso, a imagem do Cristo foi transferida de Ondina para a Barra. Ali se estabeleceu, rebatizando aquela pequena colina onde foi instalada: o Morro do Cristo.

Uma pequena vitória, ainda assim engolida pelo sucesso colossal de Castro Alves. A década de 1960 e os anos seguintes foram de estrelato supremo no Carnaval. A estátua viria a ser o ponto de encontro dos grandes artistas da música em seus calorosos trios. 

Moraes Moreira, o pioneiro em colocar voz em cima do caminhão elétrico, imortalizou o poeta de bronze em duas canções: Chão da Praça (1979) e Chame Gente (1985).

A virada do Cristo começou com a força do Axé. Na década de 1990, Daniela Mercury puxou o Carnaval para a orla. Outros artistas acompanharam o fluxo, deixando o centro da cidade esvaziado durante a folia. 

A imagem sentia a recuperação do prestígio de seus anos iniciais, ao mesmo tempo que, finalmente, ia à forra com a irmã mais nova.

O sentimento de vingança, porém, durou muito pouco. Mesmo na Barra, mesmo com o Centro esquecido, os últimos versos da mais famosa canção de Carnaval recolocavam a caçula no topo novamente.

“É um verdadeiro enxame, chame, chame gente. Que a gente se completa enchendo de alegria. A praça e o poeta. Ah! A praça e o poeta”.

A estátua do Cristo nunca foi tema de música.

Fonte: Correio