Todo meu amor: minha mãe, profissional de saúde

Dizem que sou “workaholic”. Gente que trabalha demais, sabe? E, para falar a verdade, eu sou mesmo. Não que isso seja correto. Mas eu amo o que eu faço: me comunicar, escrever, articular. Herdei o dom de fazer mil coisas da minha mãe: Joseide, 65. Uma mulher generosa que leva esse nome diferente. Mistura de meu avô, seu José, com a minha avó, dona Ataíde. Conhecida como Jô ou Jota, mainha é enfermeira e atua como técnica de enfermagem de um hospital público. E é inspirada nela e nas mães profissionais de saúde, sobretudo as técnicas e auxiliares, no front da luta pelas nossas vidas, que escrevo hoje. 

Protetora, defensora e inspiração para as cinco irmãs que seguiram seus passos e entraram na área da saúde, dona Jota, é considerada a memória viva de uma das várias famílias Santos, do bairro da Liberdade. Na nossa, ela é a que sabe mais. Desde como a sua avó (minha bisavó) fugiu da aldeia indígena para se casar com o seu avô (meu bisavô), até os nomes dos nossos parentes (vivos e/ou ancestrais) das nossas raízes lá para os municípios de Cachoeira, Recôncavo Baiano, e Itaberaba, em Piemonte do Paraguaçu. Porém, nunca saberá tudo, pois no caminho das recordações encontramos a escravidão no Brasil e as cinzas deixadas por Ruy Barbosa e os seus, aos queimarem os registros desta população.   

E como é importante falarmos no passado, não é mesmo? Porque a população negra brasileira historicamente foi destituída do direito de saber a sua origem. Quando os sobrenomes dos senhores eram colocados nos negros e negras trazidos à força, perdia-se ali uma das coisas mais importantes da nossa existência: a memória. E esse processo de apagamento e silenciamento nos impacta até os dias de hoje. 

Na próxima quarta-feira, 13 de maio, completa-se 132 anos da abolição inconclusa. No amanhecer seguinte, como nos lembra Lazzo Matumbi na música 14 de maio, “não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir”. E mesmo com esse pacto branco, a população negra sobreviveu. E seguirá a sobreviver e a lutar contra uma sociedade forjada no racismo. É como Conceição Evaristo reforça no livro Olhos D’água: combinamos de não morrer. 

Na busca de cuidar e ser cuidada, voltei para a casa dos meus pais. Pessoas estas que tenho o privilégio de conversar e rir com certa frequência. Assim como, franzir a testa, respirar fundo e refletir. Recentemente, com mainha, fizemos uma reflexão sobre o avanço da pandemia da covid-19 no mundo, mas em especial no Brasil e em países do contexto da diáspora negra e do continente africano, e como isso só nos evidencia o quanto ainda não houve reparação histórica. Os impactos são gigantescos.

Enquanto o circo segue armado entre Moristas e Bolsonaristas e o pum do palhaço da Regina Duarte está fedendo a enxofre, as situações calamitosas vão desde o medo do desemprego ao mercado informal levando os/as empobrecidos/as às ruas para ganhar o sustento arriscando suas vidas; ao super encarceramento e as condições subumanas; a tensão ocasionada nas comunidades/favelas acentuando assim os casos de violência; a falta de saneamento básico e distribuição de água, ambos direitos, para que as pessoas possam se prevenir do vírus; e, também, na exposição das ditas profissões essenciais (transporte, saúde, limpeza pública, etc) sem proteção, ou insuficiente e/ou inadequada. 

Pessoas estas que podem ser uma mãe que trabalha como camelô, não conseguiu o auxílio emergencial e está trabalhando para alimentar os filhos; uma mãe que quer ver o/a filho/a, mas não pode porque ele está preso e proibido de ver os familiares por tempo indeterminado por causa da pandemia (acesse a campanha Liberdade é uma Questão de Saúde Pública); uma mãe sendo agredida pelo seu companheiro na frente de crianças em casa; ou mães de um bairro sem poder tomar banho no dia especial pela falta de água. 

Uma das coisas que me orgulho em dizer que aprendi com minha mãe, e estendo aqui às minhas tias, pois sou de uma família matriarcal, foi a luta pela sobrevivência. E ao olhar para as muitas iniquidades existentes no Brasil, antes mesmo da covid-19, pergunto: que mundo queremos pós-pandemia?

Eu, particularmente, quero um mundo em que nunca mais voltemos ao que era antes, de naturalizar coisas inaceitáveis. Que as lutas passadas, enfrentadas pela minha avó, por minha mãe, e por mim, não ultrapassem o tempo e afetem  minhas filhas ou filhos, netos/as. 

E que, por fim, minhas gerações futuras saibam quem foi Ataíde, costureira e passadeira, que criou dez filhos que se tornaram advogado, assistente social, bióloga, enfermeira, músico e professoras, e Joseide Maria, enfermeira e professora de filosofia que mudou o rumo de vida das irmãs, consequentemente, ao ser a primeira da família ao ingressar na área da saúde. Ela é o retrato das profissionais de saúde que fazem o trabalho de base e fundamental do Brasil: as mulheres negras! 

Mesmo que as revistas não publiquem na capa, mesmo que a “TV não mostre, aqui vamos nós!”

Heroínas ontem. Heroínas hoje. Heroínas sempre! 

Obrigada mãe, vó (in memorian) e tias.    

Ubuntu

Fonte: Correio