Ficção científica dentro da vida real?

A sensação é de estar dentro de um filme ou uma série de ficção científica, com pessoas cada vez mais conectadas pela tecnologia. Afinal, esta virou o principal meio de comunicação de muita gente durante a quarentena. “Sempre tem uma coisa meio Black Mirror, né? Desde Matrix, que assisti bem pequena, ficava enlouquecida pensando: ‘Será que a gente vive no mundo real?’”, questiona a publicitária Flávia Politano, 32 anos.

Quando vê os relatórios semanais que o celular manda sobre o tempo de uso no aparelho, Flávia se assusta ao constatar que passa pelo menos 10 horas do seu dia conectada ao mundo virtual. “É surreal”, reforça, incrédula. Então imediatamente lembra de cenas de filmes antes inimagináveis, mas que são comuns nos dias de hoje.

“Tem algumas coisas que são futuro distópico, tipo Código Da Vinci e Anjos e Demônios. Lembro de uma frase que fala: os deuses achariam que a gente também é Deus, porque a gente voa, se comunica de longe e tem absolutamente tudo à nossa mão”, compara a publicitária. Em seguida, reflete sobre a situação da quarentena com humor: “Essas lives que estão rolando, você vê todo mundo dentro de casa e aí pensa logo em Star Wars, no holograma”.

Paradoxo
A partir do isolamento experimentado nos últimos dias, o principal paradoxo que vem à mente é que “a tecnologia que afasta é a mesma que aproxima”, destaca Flávia. Sem ela, não poderia dar seguimento às sessões com sua psicóloga, através da videochamada. Além disso, reforça que não existiria live mundial, nem aplicativo de iFood “que traz uma comida para você em questão de meia hora”.

“Acho isso incrível. tem um lado ruim, mas tem um lado sensacional. Se você parar para pensar, tem restaurante que só existe hoje por causa da internet”, aprova. Por outro lado, Flávia está em quarentena com a mãe e se pega várias vezes sentada no sofá ao seu lado, enquanto as duas mexem no celular. “Está rolando um meme ótimo na internet que é ‘saudade de sentir o afastamento escolhido’”, cita a publicitária, ao lembrar das pessoas que iam para festas para ficar “enfurnadas no celular”.

Por isso, reforça que existe uma lição a ser aprendida com o momento, tendo as séries e os filmes como aliados do processo. O principal ensinamento, em sua opinião, “é ir devagar, com consciência, sempre atento às questões sociais e políticas, porque tem muita coisa dentro desse caldeirão de tecnologia”.

“Precisamos tentar entender o que essa tecnologia pode trazer de benefícios. As séries Black Mirror e Electric Dreams mostram que existe muito egoísmo no humano, mas é importante tentar ver como melhorar, pensar em como ser um pouco menos ruim. O equilíbrio está nisso”, defende.

Reflexão
Mesmo que exista um lado da ficção científica que não goste, que é aquele cheio de explosões e efeitos especiais, o psicólogo e professor universitário Thiago Oliveira, 31, reconhece que “a arte tem a capacidade de antever coisas que a gente não pensaria naturalmente”. “Ela faz com que a gente reflita criticamente sobre nosso dia a dia”, afirma.

“A arte te dá essa possibilidade. Tem um lado da ficção científica mais reflexivo que mostra as coisas boas e as perdas que a tecnologia traz”, reforça Thiago, enquanto cita o filme 1984, baseado no livro homônimo de George Orwell (1903-1950). Publicada pela primeira vez em 1949 e adaptada mais de uma vez para o cinema, a história mostra uma sociedade completamente vigiada pelo Estado.

“Me senti em 1984 e fiquei um pouco paranoico. O livro não previu que existiria controle através de geolocalização, mas agora o Governo lançou uma MP que permite que todos os celulares do Brasil sejam cadastrados e se tenha acesso a eles”, compara. “A tecnologia vem para responder às vontades humanas, mas toda tecnologia provoca mudanças que são imprevisíveis”, completa Thiago.

Por esse e outros motivos, o cineasta Cláudio Marques, 49, tem tentado se desconectar durante a quarentena, assim como o personagem de Tom Cruise no filme Minority Report. “É um agente especial que tem todo o aparato tecnológico, mas acaba sendo acusado de cometer um crime. Dentro de uma narrativa bem Hollywoodiana, ele tem que fugir da ultratecnologia para buscar a paz interior”, explica.

Além disso, Cláudio aproveita a pausa para refletir sobre o momento que estamos vivendo. As pessoas, em sua opinião, precisam cuidar umas das outras. “Desejo que as pessoas estejam mais solidárias e menos tecnológicas. Estamos precisando, de coisas orgânicas, físicas, de estar na rua, cuidando do outro. Que as pessoas encham o saco de lives, filmes por streaming e valorizem mais o teatro, a rua, o contato humano”, convida.

Lista de filmes e séries de ficção científica para assistir

THX 1138 (1971)
No século XXV, humanidade vive abaixo da superfície da Terra onde a polícia é formada por robôs e a diversão vem pela TV holográfica. No filme de George Lucas, as pessoas são drogadas diariamente para controlar as emoções e manter a paz.

1984 (1984)
História baseada no livro de George Orwell mostra uma sociedade futurista monitorada de perto pelo “Big Brother”. Em todo lugar há telas de televisão, que servem como os olhos do governo para saber o que os cidadãos fazem.

Minority Report (2002)
Em uma sociedade onde a tecnologia é capaz de prever crimes, agente (Tom Cruise) é acusado injustamente e precisa se desconectar para provar sua inocência. Filme de Steven Spielberg explora o livre arbítrio, a segurança e os avanços tecnológicos.

Elysium (2013)
Enquanto a população da Terra vive em condições precárias, um seleto grupo habita uma estação espacial onde a segurança e os serviços são feitos por robôs. Lá, a morte está controlada e a cura é uma realidade, mas a luta pelo poder ainda é uma doença.

Ela (2013)
Explora a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia por meio da história de um escritor solitário (Joaquin Phoenix) que compra um novo sistema operacional para seu computador e acaba se apaixonando pela voz deste programa.

Black Mirror (2011) – Netflix
Série de episódios independentes explora temas relacionados ao universo de paranoia tecnológica que se vive hoje e mostra como a vida foi transformada pelas telas. Estão lá a busca pelo like, o monitoramento virtual e a inteligência artificial.

Years and Years (2019) – HBO
Na série, pessoas fazem sexo com robôs, usam máscaras de hologramas para interagir socialmente e sonham em ser “transumanas”, ou seja, descartar seus corpos para poder viver uma existência puramente virtual.

Electric Dreams (2017) – Amazon Prime Video
Histórias independentes mostram como as tecnologias avançadas levam os conflitos humanos ao extremo. Na série, dispositivos que conectam podem destruir, consumismo que traz felicidade também polui e tira a liberdade de escolha.

Fonte: Correio