Sem respeitar quarentena, crianças e adolescentes colocam em risco idosos

Apesar de o Governo de São Paulo ter ampliado a quarentena para 31 de maio e obrigado o uso de máscara para quem sair de casa, em muitas ruas da capital paulista, principalmente nas periferias, é comum a presença de crianças e adolescentes brincando. Para a maioria, a suspensão de aulas é considerada como férias escolares e época propícia para empinar pipa, por exemplo.

No entanto, diante do avanço do novo coronavírus, o que mais preocupa é o risco de contágio com idosos, principal grupo de risco da covid-19. “É muito difícil isolar dentro de casa crianças e adolescentes que moram em bairros mais carentes. Como agentes de saúde, orientamos sempre, mas na maioria das vezes não somos ouvidos. As crianças vão para a rua, empinam pipa, jogam bola e depois voltam para casa, trazendo risco para os avós que moram com elas”, alerta a agente de saúde de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na Ponte Rasa, na zona leste da capital paulista, Gisele Ferreira, de 40 anos.

No Brasil há 34 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, número que corresponde a 16,2% da população. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a última pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS) de 2014 mostra que 40,4% das pessoas nesta faixa etária dividem o mesmo teto com filhos e outros parentes ou agregados de qualquer idade.

“É o nosso trabalho orientar e mostrar que a situação está realmente grave, mas a sensação que tenho é que as medidas para combater o avanço da pandemia estão sendo ignoradas por parte da população”, lamenta a agente de saúde. Em média, 50% das pessoas em São Paulo respeitam o isolamento social, de acordo com o Sistema de Monitoramento Inteligente do Governo (SIMI-SP).

A realidade social brasileira aumenta os riscos provocados pela covid-19. “Muitas famílias mais carentes são formadas por pais, filhos e netos. Muitas moram em casas pequenas com poucos cômodos, onde um banheiro é compartilhado por até mais de dez pessoas”, afirma Carlos André Uehara, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

“Podemos orientar os idosos a ficar no local mais isolado da casa e não manter contato próximo com outros familiares. Evitar dormir na mesma cama com os netos, não compartilhar itens de uso pessoal e manter ações de higiene em casa, limpando sempre os móveis. Pois em muitas casas, as crianças saem para brincar na rua e os pais para trabalhar”, ressalta Uehara.

A aposentada Maria Helena Souza, de 64 anos, mora com os filhos Mário, de 43, e Márcio, de 41. E também com os netos Daniel, de 20, e Eduardo, de 9. Com hipertensão, os cuidados devem ser ainda redobrados para evitar riscos à sua saúde.

Dona Helena, como gosta de ser chamada, afirma que a rotina dentro de casa mudou. Os filhos estão adotando as medidas de higiene indicadas por especialistas da área de saúde. “O Mário sai todos os dias para trabalhar, mas quando chega sempre tira os sapatos e já vai para o banho. Na sala, temos álcool em gel e sempre higienizamos as mãos”, afirma.

Mas ela admite que há dificuldade para impedir o neto Eduardo de brincar na rua. “O Eduardo continua indo para a rua. Ele não fica dentro de casa. Sem aulas, ele brinca muito de pipa na rua com os primos. Mas sempre que chega, ele vai direto para o banho”, afirma a aposentada.

O ideal é que crianças fiquem em casa e quem sair para trabalhar deve usar máscara e evitar tocar superfícies e no rosto. Quando retornar da rua deve higienizar o máximo possível os objetos como bolsas, calçados e lavar as mãos corretamente. “Precisamos adotar ações de proteção para preservar os idosos, grupo mais vulnerável e com mais chance de desenvolver a forma mais grave da doença, que pode levar à morte”, alerta o presidente da SBGG.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de letalidade do vírus é considerada baixa, entre 2% e 3%, mas o número sobe para 8% em pacientes de 70 a 79 anos e chega a 15% em idosos acima de 80 anos, conforme estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China. Além disso, relatório da OMS com base em dados de pacientes chineses revelou mortalidade de quase 22%. Os número ainda preocupam.

Especialistas em saúde e autoridades alertam a todo o momento que os idosos não devem ficar perto de crianças, já que a maioria é assintomática, ou seja, não costuma apresentar sintomas quando está com a doença, embora o risco de transmissão seja o mesmo.

“As crianças que vão para a rua, podem se infectar durante as brincadeiras e a chance de serem assintomáticas é grande. Mas elas podem transmitir a doença para os avós que convivem ou outros parentes que tenham morbidades. Temos ainda que ter cautela neste momento e compreender melhor o papel das crianças na transmissão. Além disso, também devemos levar em consideração casos mais graves de covid-19, envolvendo crianças e jovens”, diz Marco Aurélio Sáfadi, professor de Pediatria e de Infectologia da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. 

Uma das consequências da pandemia é a quarentena que pegou principalmente as crianças de surpresa. “Elas foram tiradas de uma realidade para entrar em outra (realidade). Muitas entenderam que estão de férias. Não entenderam que é uma pandemia e pessoas estão morrendo. É preciso existir mais diálogo com crianças e adolescentes”, avalia Eduardo Goldenstein, secretário do departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo.  

Assim como na zona leste, moradores da região norte da cidade também observam muitos ‘papagaios de papel’ no céu e a garotada na rua. “Mesmo com a orientação para ficar em casa, eu vejo muitas crianças e jovens empinando pipa, como se nada estivesse acontecendo. Muitos moram com seus avós e não estão preocupados. Apenas querem se divertir”, disse a dona de casa Carla Freire, de 37 anos. 

Fonte: Agencia Brasil