Festivais de cinema buscam alternativas em tempos de pandemia

Desde o início da pandemia de covid-19, inúmeros eventos públicos foram cancelados e os festivais de cinema, não escaparam disso. Na terça-feira, foi a vez do Festival de Cannes, que acontecia ininterruptamente desde 1946, anunciar que a edição deste ano não iria mais acontecer. Originalmente, seria realizado entre 12 e 23 de maio e depois foi adiado para junho ou julho. Mas, diante da severidade do surto de coronavírus, o cancelamento tornou-se inevitável.

O diretor geral do festival, Thierry Frémaux, em uma entrevista divulgada no site oficial do evento, lamentou: “Estou tomado por um sentimento de melancolia e nostalgia. Tenho ido ao festival por 35 anos. É o meu trabalho, mas além disso é um incrível evento humano, artístico e gastronômico para todos”.

Cine PE vai realizar sessões em drive-in neste ano (foto: Felipe Souto Maior)

Brasil
No Brasil, os reflexos da pandemia já atingiram um dos maiores eventos cinematográficos do Nordeste, o Cine PE, que começou em 1997. A organização anunciou o adiamento da edição deste ano, que seria do dia 25 a 31 deste mês e passou para 24 a 30 de agosto. E ainda assim, ocorrerá com mudanças relevantes: a exibição dos filmes não será nas salas de cinema, mas na internet e, possivelmente, na TV.

A programação do festival estava definida e segundo sua diretora, Sandra Bertini, todos os filmes estavam selecionados e a mostra competitiva já estava pronta. Sandra reconhece que o novo formato, com transmissão digital, é necessário, mas traz prejuízos à realização do Cine PE, afinal um festival não se resume à exibição de filmes:

“Um festival de cinema é como um grande congresso profissional, em que as pessoas discutem cinema, se abraçam… A magia de um filme acontece na sua primeira exibição para o público e um festival proporciona isso”

Cláudio Marques, que é cineasta e organizador do Panorama Coisa de Cinema em Salvador, observa que festivais, especialmente Cannes, são um importante centro de negócios da industria cinematógrafica: “Cannes concilia arte e indústria e talvez seja o festival que melhor faz isso no mundo. São quatro ou cinco mil pessoas que vão lá negociar”. Cláudio já tinha passagens de avião para ir a Cannes, onde apresentaria um projeto em busca de coprodutores internacionais.

Alternativas
Para Cláudio, os festivais ganharam uma função extra nos últimos anos: são uma ferramenta importante na luta contra o streaming: “A internet se tornou um imenso buraco negro, onde você encontra tudo, mas é tanta coisa que, no fim, não é nada”. O festival, então, é como uma curadoria.

Cláudio, assim como Sandra, acrescenta que as mostras de cinema são um ponto de encontro:

“O festival reforça essa necessidade de um encontro presencial, onde as pessoas dialogam, falam sobre política, se olham no rosto, andam pela cidade…”

Por essas razões, Cláudio resiste a realizar uma versão online do Panorama. Assim, por enquanto, a edição deste ano está mantida e tende a ocorrer em novembro.

Sandra cogita também, como solução para enfrentar as restrições impostas pela pandemia, algumas sessões que vão fazer muita gente viajar no tempo: O CinePE deverá promover exibições num drive-in e já está procurando um terreno para isso.

Outros festivais já realizam mostras retrospectivas online. No dia 29 deste mês, começa o We Are One: A Global Film Festival, que terá duração de dez dias. A mostra, com acesso gratuito, vai reunir longas selecionados pela curadoria de festivais como Berlim, Cannes, Veneza e Sundance. O Varilux, somente com filmes franceses, está com uma retrospectiva gratuita no site festivalvariluxemcasa.com.br.

Assista a filmes que venceram Cannes

Parasita, de Bong Joon-ho (Coreia do Sul, 2019)
Google Play, iTunes, Looke, NOW, Telecine (a partir de 31 de maio) e YouTube

Assunto de família, de Hirokazu Koreeda (Japão, 2018)
Google Play, iTunes, Netflix, NOW e YouTube

Eu, Daniel Blake, de Ken Loach (Inglaterra, 2016)
Google Play, iTunes, Netflix, NOW e YouTube

Azul é a cor mais quente, de Abdellatif Kechiche (França, 2013)
Google Play, iTunes e Telecine

A fita branca, de Michael Haneke (Alemanha, 2009)
Belas Artes à La Carte e iTunes
 

Fonte: Correio