Caminhoneiro que viajou ao Norte é primeiro caso de covid-19 de Riachão do Jacuípe

Um caminhoneiro com histórico de viagem ao Norte do país é a primeira vítima da covid-19 da cidade de Riachão do Jacuípe, na Região Sisaleira, a 180 Km de Salvador. O primeiro caso confirmado da doença foi divulgado pela prefeitura do município no começo da tarde desta sexta-feira (15). 

De acordo com a administração municipal, o homem ainda estava na estrada quando sentiu os sintomas de gripe e ele próprio informou sobre a situação à vigilância epidemiológica da cidade. O teste dele foi realizado na segunda-feira (11) e a confirmação veio nesta sexta. 

Apesar de ser residente de Feira de Santana, o homem de 38 anos, identificado como Elimário Trabuco de Oliveira, decidiu se isolar em Riachão do Jacuípe para evitar transmitir o vírus para a esposa e filhos. O caminhoneiro é natural de Riachão e está isolado sozinho numa casa, onde tem recebido alimentação levada por familiares que residem na cidade. 

De acordo com Juliana Carneiro, secretária de saúde do município, no momento em que ele informou que apresentava os sintomas, foi logo orientado a ficar isolado. O estado de saúde dele é estável, sem complicações respiratórias e o caso é considerado importado.

“Ele ficou em Riachão porque tem residência na cidade e familiares. Então aqui ele poderia se manter totalmente isolado, sem contaminar outras pessoas. Nessa relação, ele recebe alimentação pela família, mas sem nenhum tipo de contato. A gente sabe que esse momento chegaria e a gente precisa se esforçar para que as coisas acontençam, inclusive, da forma como aconteceu esse primeiro caso”, explicou a secretária.

Soube resultado após vídeo da prefeitura

Após a prefeitura noticiar o teste positivo à população, o caminhoneiro resolveu gravar um vídeo dizendo que tomou conhecimento do resultado através das redes sociais. “Já saiu aí o vídeo do prefeito falando do suposto motorista. Até então eu não estava sabendo que era o meu exame e depois a moça da secretaria confirmou que é meu exame”, inicia ele, que é conhecido como Pé de Cobra.

O fato gerou rumores e preocupação entre os moradores da cidade. No vídeo endereçado ao povo, Elimário pediu que as pessoas evitassem a crítica porque ninguém está livre de contrair a doença e lembrou que os caminhoneiros estão mais expostos porque precisam transitar entre as cidades. Desde o começo da pandemia o serviço de transporte de cargas em caminhões foi considerado essencial pelo governo federal.

“Tem muita gente nos grupos [de WhatsApp] me criticando, falando mal do meu caráter e da minha pessoa. Graças a Deus, eu agi como homem. Quando senti os sintomas, a primeira coisa que fiz foi comunicar à vigilância sanitária e procurar o isolamento”, diz ele.

Viagem

Em conversa com o CORREIO, ele contou que do começo de maio até decidir se isolar, passou pelos estados do Tocantins, Pará, Maranhão, Pernambuco, Paraíba e Bahia. Ao chegar na cidade baiana de Tucano, já com muitas dores, pediu ajuda a um amigo ligado à brigada voluntária Anjos Jacuipenses, que o indicou informar os sintomas à vigilância sanitária do município. A ideia, a princípio, era se isolar na cabine do próprio caminhão.

“Eu comuniquei porque jamais iria querer contaminar o próximo sabendo que essa doença pode levar à morte, não queria ter minha consciência pesada”, disse. Um dos amigos que viajava com ele, natural de Quixabeira (BA), também teve diagnóstico positivo para a covid-19. “O que eu quero é que a categoria de motorista de caminhão seja mais prudente e que se estiver sentindo algum sintoma não sinta medo de falar”, continua.

O caminhoneiro conta que já chegou a receber ameaças depois que teve o caso confirmado. “A gente está à míngua. Só falam que caminhoneiro é herói, mas ninguém está se preocupando com a classe. Aí quando cai doente, querem matar o herói”, conclui. Nesta quinta-feira (14), o presidente Jair Bolsonaro negou a ampliação do auxílio-emergencial de R$ 600 a caminhoneiros, pescadores e agricultores.
   
Situação de Riachão

Na avaliação da prefeitura, a situação está sob controle, já que Elimário não teve contato com outras pessoas. A cidade entrou no mapa da pandemia 69 dias após o primeiro caso registrado na Bahia, em 6 de março. Além do caso confirmado, outros 83 seguem sendo monitorados. Pelo menos sete cidades muito próximas à Riachão do Jacuípe já tiveram casos: Capela do Alto Alegre (1), Capim Grosso (2), Conceição do Coité (4), Feira de Santana (138), São Domingos (1), Serra Preta (1), Valente (4). Os dados são do boletim epidemiológico estadual desta quinta-feira.

Fonte: Correio