Complexo de vira-lata: gastamos as nossas velas com os defuntos da Itália

Ilze Scamparini chegou a chorar, ao vivo. Todos aprenderam a falar palavras como Lombardia e Bérgamo. Os mortos da Itália, lembro como se fosse hoje, enlutaram o Brasil. O Papa Francisco rezando sozinho da Praça São Pedro trouxe ainda mais dramaticidade, assim como os caminhões carregando corpos, em desfiles macabros. Brasileiros estavam consternados e lembro de ter visto algumas publicações na linha “somos todos Itália”, nas redes sociais. Brasileiros morando na Itália viraram fontes em todos os telejornais e nossas famílias paravam diante da tevê para ter notícias da tragédia, se emocionar, orar. A peste foi recebida com pompa e circunstância, por lá, e acompanhamos daqui, profundamente tocados. Sim, tristíssimo. Eu também fiquei arrasada, claro.

Centenas de mortos em 24 horas, cadáveres empilhados, mães aos prantos na tevê, profissionais de saúde exaustos, crianças infectadas, famílias partidas, caminhões frigoríficos vertendo fluidos humanos nas calçadas. O horror! Mas agora, eu já tô falando do Brasil atual. Um deslocamento geográfico que, incrivelmente, diminui a carga emocional dos fatos. Sim. Você sabe. Se isso não fosse verdade, a imprensa não estaria empenhada em mostrar o óbvio, aquilo que percebemos, rapidamente, quando a contagem era na Itália: os números correspondem a pessoas. Mas, agora, não são italianos. Nem americanos ou franceses. São apenas brasileiros. E Nelson Rodrigues tem, hoje, a demonstração mais contundente da expressão que criou: complexo de vira-lata. 

Eu já sabia que as crianças da África são mais chiques de adotar, por exemplo. Continuam sendo negras, como a maioria das nossas. Ainda são necessitadas como as tantas que temos nas filas de adoção, mas sei lá… elas chegam com uns nomes interessantes e histórias de outro continente pra contar. Assim como é muito mais papa fina ajudar os orfanatos de lá. Não, não estou julgando militância nem famílias, questões particulares. Inclusive, todo bem praticado, todo amor, vale. Mas repare o quanto há de capricho nos aplausos específicos para quem adota pequenos estrangeiros e faz boas ações internacionais. Apenas compare. É só um exemplo, entre tantos. Para voltar ao mais recente, escandaloso e evidente: gastamos as nossas velas com os defuntos da Itália, não sobrou quase nada pra os de cá.

Entre toscas interpretações do que seja patriotismo e grandes problemas na construção de identidade coletiva e individual, chegamos a este lugar: valemos menos, para nós mesmos. Gritamos, divulgamos, cantamos uma autoestima falsíssima e a prova disso aparece, à menor distração. Não foi um cara só que disse “e daí”. O Brasil, embrutecido, diz isso em uníssono, na cara de todos/as os que perdem seus amores. Muitos entendendo, apenas ao sentir na pele, que as nossas mortes também doem, sim. Ontem, eu precisei sair, depois de muitos dias, e vi cartazes onde está escrito “e daí” em cada grupo batendo papo na rua, em cada criança brincando nas praças, como se não houvesse qualquer recomendação. Dá raiva, mas também pena. E desilusão.

É para estarmos em alerta máximo. Não estamos. Agora, são os nossos que estão morrendo, mas não conseguimos achar isso tão grave. Não conseguimos chorar, nos emocionar como quando aconteceu em outros lugares. Não conseguimos nos sentir implicados, verdadeiramente ameaçados. Precisamos de “babás” que nos digam “fique em casa”, mesmo quando o mundo inteiro já sabe que essa é a única opção. Não estamos disponíveis sequer para usar máscaras e evitar aglomerações. Não ficamos incomodados com o cheiro dos nossos mortos, nem agora quando isso não é apenas uma metáfora. Nestes dias, entre muitas outras coisas, uma triste constatação: a morte made in Brazil – assim como os vinhos, as roupas, os carros, os filmes e as crianças abandonadas – não tem o “charme” dos gringos e carece de “qualidade”. Deve ser isso. Só pode ser essa a mensagem.

Fonte: Correio