Conheça a história de baianos que levaram as festas populares da Bahia pelo mundo

Há um ditado muito comum entre os baianos que costumam viajar ou morar fora daqui: “Você pode até sair da Bahia. Mas a Bahia não sai de você. Isso se aplica a quatro personalidades que deixaram sua terra natal e foram morar bem longe: Roberto Chaves mais conhecido como Robertinho) e Solange Barreto ambos na França; Jocelma Queiroz (Jô) na Suíça e Silvana Magda nos EUA. Mesmo assim, para não esquecerem de suas raízes, criaram eventos reverenciando as festas populares e religiosas, principalmente a Lavagem do Bonfim que acontece na segunda quinzena de janeiro e a Festa de Yemanja, dia 2 de fevereiro. Ambas antecedem a grande comemoração que é o Carnaval.  Eu já tive a oportunidade de ir em todas e vou contar para vocês mais sobre cada uma. 

Lavage de La Madeleine

E quem saiu na frente foi o santamarense Robertinho Chaves (que todo Verão vem visitar parentes e amigos em Salvador e em Santo Amaro da Purificação) com a Lavage da Sacré-Coeur que durou uma edição. Em seguida veio a Lavage de La Madeleine que completará 20 anos em 2021. E ele já está planejando uma grande realização. 

“Tudo começou há 22 anos, com a produção da primeira Lavagem em Paris na Basílica da Sacré-Coeur. Um lugar que não era para ser! Um lugar onde não era o meu espaço, uma igreja onde os dirigentes da paróquia não tinham os mesmos sentimentos de inclusão. Uma igreja fechada por essa razão não vingou. O que me levou a procurar outra escadaria”, contou ao CORREIO, por telefone. 

Isso o animou bastante e o motivou a seguir. “Ao contrário da Sacré-Coeur, fui recebido de braços abertos pelo padre da igreja da Madeleine e mudou tudo. Ali, me deram força para vencer todos os obstáculos que nos deparamos ao projetar a realização de um evento afro-descendente, criado por um baiano do Recôncavo, artista, filho de uma agricultor com uma comerciante e que pretendia instalar na cidade de Luz,o coração do mundo”, recorda-se.

Nas suas 18 edições se apresentaram grandes nomes do cenário da Música Popular Brasileira, como: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mariene de Castro, Elba Ramalho, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Jau, Tonho Matéria, Marcio Victor, Marcia Freire, Carla Vísi, Roberto Mendes, Jota Veloso, Pierre Onásis. Além do Grupo Batalá, sempre presente com a sua batucada de mulheres francesas e brasileiras. 

Enquanto aguarda uma definição das autoridades parisienses para saber se poderá realizar o evento este ano (um função da pandemia do novo coronavírus), Robertinho já pensa no evento de celebração dos 20 anos em 2021. Entre as novidades o primeiro longa-metragem, dirigido pela baiana Liliane Reis, que atualmente vive na capital francesa. O filme “Madalena em Paris”, é uma co-produção franco-brasileira.

(Foto: Divulgação)

Com direito a um babalorixá (Pai Pote, de Santo Amaro) fazendo o trabalho de abrir os caminhos, a Lavage reúne uma multidão desfilando pelas ruas de Paris com baianas carregando jarros e flores e o acompanhamento de um trio elétrico fazendo a festa profana. Até chegar em Madeleine quando acontece o ritual que envolve até um padre da igreja católica, E em seguida se faz-se a Lavagem como costuma ser feita na Igreja do Bonfim.

Entusiasmado Robertinho enfatiza: ”O sucesso da Lavage de La Madeleine não foi por a caso!  Santa Madeleine viveu a resistência e ainda hoje tantos nós, negros, mulheres, estrangeiros e gays ainda vivemos resistindo. Como me falou [Carlinhos] Brown, “Madeleine e Lágrima e sofreu assim como nós negros.  Ele me disse: “Beto, Madeleine tem tudo a ver e ela nos representa . Eu respondi, ela derramou lágrimas, que hoje transformamos em água de cheiro” Tudo isso me ajudou bastante”.

Em seguida, Robertinho arrematou com aquele seu costumeiro entusiasmo:  “Sempre tive um cuidado e um olhar especial, para que a tradição das lavagens do Brasil  fosse bem retratada,  com o papel de mostrar o Brasil e a Bahia, como sempre fomos vistos no imaginário e com admiração aos olhos do mundo. A Lavage de La Madeleine  é um sonho de um brasileiro, que a saudade da sua terra, despertou o desejo trazer um pouco da sua cultura  para perto de si, através da sua determinação, ousadia e coragem de tantos amigos se transformou em realidade”. 

Festa de Yemanjá

Ainda na França, de Paris para Nice, na bela cote d’azur. Lá a baiana Solange Barreto levou a tradição da feta do Rio Vermelho, ou de Yemanjá, no dia 2 de fevereiro. O Festival Cultural Brasileiro “Fête (festa) de Yemanja Nice” é um evento organizado anualmente, desde 2012, em parceria com a Prefeitura de Nice e a associação Brasuca Show.

O Festival Cultural Brasileiro Fête de Yemanja reúne cada ano milhares de participantes. Todos desfilam em homenagem a Rainha do mar,  entre eles, grupos de dança, musicais brasileiros e, também grupos de cultura diversas (batuque do cabo verdes, Salsa de Cuba, Mahori das ilhas Wally et Futuna). Assim como acontece na capital baiana, em menor proporção, uma embarcação recolhe o balaio com os presentes para a Yemanjá. Com a benção do Pai de Santo Anderson que tem um terreiro em Lauro de Freitas.

Solange Barreto, artista baiana e carnavalesca, foi por várias vezes rainha de blocos afro da Bahia (Muzenza, Araketu) e participou de vários clips com cantores nacionais, tal Daniela Mercury. Desde 1994 sua função é de promover a cultura brasileira na Europa e no Mundo.

Festa de Yemanjá em Nice, sul da França, com Solange Barreto (Foto: Divulgação)

“O Festival tem objetivo principal de valorizar a cultura brasileira na Europa nos aspectos turísticos, artísticos e culturais. Queremos contribuir em realizações de trocas culturais entre Brasil e França. Nosso propósito é também despertar o interesse do europeu, particularmente os franceses, na diversidade cultural brasileira e os incitar a conhecer o Brasil”, comentou a organizadora.

Ao longo das edições, prossegue Solange: “tivemos a honra de receber  no nosso festival artistas e celebridades baianas como o cantor Ninha (ex- Timbalada), o Mestre da Banda Olodum Memeu, a professora e coreógrafa Nildinha do Balé Folclórico da Bahia, o artista plástico baiano Ed Ribeiro, entre outros. Este ano a oitava edição  não acontecerá no mês de julho devido às medidas de prevenção contra o coronavírus. Junto com a prefeitura de Nice, ela estuda uma possível nova data.

O festival oferece geralmente três  dias de eventos; com exposição de obras de artes ligadas a cultura baiana; áudio conferências; debates e estudos; workshops e shows musicais; cortejo e homenagem a rainha do mar com cerimonia e oferendas de flores, na presença de barcos, no grande mar mediterrâneo.

Jam Session de Montreux

Continuamos na Europa. Próxima parada a Suíça. Lá a baiana Jocelma Queiroz (Jô) criou em setembro de 2012 na beira do Lac Léman a Jam Session de Montreux por onde passaram, desde então artistas renomados como João Donato, Jacques Morelenbaum, Seu Jorge, Gilberto Gil, Mart’nalia, Armandinho, entre outros. Além da música destaque para o desfile de baianas na beira, acompanhadas por um cortejo que para numa praça onde está erguida uma estátua em homenagem ao grande Fred Mercury que morou lá antes de morrer.

Em setembro de 2013 segunda edição do evento reuniu Armandinho, Xangai e Spencer Chaplin (neto de Charles Chaplin) na parte musical e o artista plástico Bel Borba. Em 2014 o evento ganhou uma enorme proporção.

Jam Session de Montreux – Gil, Flora e Jô Queiroz (Foto: Divulgação)

Durante três dias, de 26 a 28 de setembro o balneário de Montreux foi bem movimentado. No primeiro dia do evento (26) artistas europeus e brasileiros fizeram shows num espaço público, a Praça do March. No dia 27 foi realizado no Salão Stravinski (onde acontece o Festival de Jazz de Montreux) o show Brasil Bossa e Samba em homenagem ao cantor e compositor João Donato. Ele recebeu como seus convidados Gilberto Gil e Alcione. Na mesma noite, se apresentaram juntos a cantora suíça Eliana Bruck e o instrumentista baiano Armandinho Macêdo. No dia seguinte (28) houve a lavagem no Lago com o tradicional cortejo das baianas e a participação especial de Gilberto Gil e sua mulher Flora que fizeram todo o percurso sendo homenageado com uma banda cantando algumas de suas músicas”.

 A repercussão foi tamanha que rendeu frutos para Jô Queiroz como ela explicou: “Fui convidada pelo Comitê Olímpico onde atuei como diretora artística nos jogos olímpicos de 2016 levando artistas como Carlinhos Brown, Philippe Baden Powel e outros. Foi um grande acontecimento resultado de me empenho em levar um pouco da cultura da minha terra para outros lugares”.

Lavagem de New York

Terminado o giro pela Europa, rumamos para os Estados Unidos. Agora com outra baiana retada: Silvana Magda, que já mora por lá há muitos anos na América, mas,  a exemplo dos outros organizadores citados acima, mantem uma residência em Salvador onde sempre vem com a família curtir o verão, principalmente os ensaios o Carnaval. 

‘Em 2006 quando fui convidada pelo diretor geral do Brazilian Day Edilberto Mendes para fazer parte do casting do evento promovendo-o nas mídias americanas já que tinha uma carreira solidificada como cantora e espaço na mídia local. Aceitei o desafio e o Brazilian Day passou a ter promoção nas mídias locais em New York. Em 2007, passei a fazer parte do staff e a coordenação geral do evento”.

Foi a partir que ela teve o grande saque como explica: “Passei a observar que o Brazilian Day precisava ter um pouco da comunidade brasileira. Em 2008 minha inquietação artística aflorou e coloquei para eles que para continuar no projeto gostaria de fazer um evento paralelo no sábado já que nada acontecia e os artistas locais, a comunidade e artistas independentes do Brasil poderiam estar inseridos”.

No início como é comum nesses tipos de eventos em terras estrangeiras foi muito difícil tirar do papel e executar. “Eu e o Edilberto tivemos que investir muito para acontecer e quando lhe pedi ajuda para viabilizar com alguns artistas e você me apresentou ao Jonga e o Del Feliz foi um presente, eles foram os parceiros da Bahia e como boa baiana que sou, expandi o evento inserindo outros estados e paralelo a Lavagem criei o Brazil  Week e transformei a Lavagem num desfile cultural brasileiro e assim fiz várias parcerias e  patrocinadores daí o sucesso do evento”.

Margareth Menezes na Lavagem de New York (Foto: Divulgação)

Superadas as barreiras a primeira edição da Lavagem aconteceu dia 30 de agosto de 2008 com artistas da comunidade brasileira e internacional. Em 2009 veio a primeira grande atração: Carlinhos Brown fez uma grande performance no dia 5 de setembro de 2009. No movimentado ano de 2010, quando Ivete Sangalo foi gravar seu DVD em new York aconteceu a Lavagem no dia 4 de setembro com Margareth Menezes.

Em 2011 teve Netinho/ Orquestra Popular da Bomba do Hemetério / Showdi  e Del Feliz. Até chegar em setembro de 2012 no dia 1 com Magary Lord / Armandinho Macedo / 5% / Maestro Spock e Orquestra de Frevo / Tucumanos. Carla Visi / André Rio / Adelmario Coelho / Bonecos Gigantes de Olinda foram as atrações em 31 de agosto de 2013. E em 2014 também em 30 de agosto: Alavontê / Lucy Alves / França / Chambinho do acordeom

Silvana Magda e Edilberto na Lavagem de New York (Foto: Divulgação)

No ano de 2015 Silvana fez a Lavagem no Lincoln Center também em New York com a participação de Tatau. Dois anos depois no dia 03 de setembro de 2017 ela realizou a  Lavagem em New Jersey com  o lançamento do mini trio életrico  com Magary Lord  e Edu Casanova.

Fonte: Correio