'E se eu cobrar demais?': as mães e os pais que se tornaram alfabetizadores na quarentena

Quando o ano letivo começou, a farmacêutica Vanessa Benevides, 40 anos, viu a filha Nina, 5, ter o primeiro contato com as letras. Reconhecia as primeiras palavras – as mais simples – quando a pandemia do coronavírus fez com que as aulas fossem suspensas em Salvador. 

“Ela teve muito pouco tempo de aula e, quando chegou a aula virtual, a cobrança estava sendo feita. Nas aulas virtuais, tinha que ler e escrever alguma palavra, sendo que ela não é alfabetizada. Está na etapa de conhecer”, lembra Vanessa. 

Como muitas mães e muitos pais, ela passou a acompanhar as aulas e atividades da filha. Mas esse primeiro momento atingiu contornos dramáticos. 

“Fiquei extremamente preocupada, primeiro porque não sou pedagoga, então, não tenho a capacidade que precisa para uma aula. Poderia estar gerando, em minha filha, um trauma nesse primeiro momento. Fiquei com medo de botar tudo a perder: e se eu cobrar demais? Até onde posso ir?”, conta.  

O relato de Vanessa revela um contexto com vivido por outras famílias. Desde o começo da pandemia, mães e pais têm assumido mais uma, entre tantas funções. Na ausência das aulas presenciais, da escola no ambiente físico e do contato mais próximo com os professores, eles têm arregaçado as mangas – ainda mais do que já fazem normalmente. 

A psicóloga Lívia Tourinho, 37, praticamente transformou um dos quartos da casa em uma sala de aula. Com ajuda de itens como uma lousa e um globo terrestre, descobriu a própria didática. Alguns, como a professora universitária Daniela Matos, 42, tentam usar a experiência com a docência no ensino superior para auxiliar os filhos na educação básica. 

Há quem, ainda, como o advogado Leandro Vieira, tenha se empenhado em buscar exercícios além dos que a escola envia e até começado a alfabetizar a filha por iniciativa própria. O CORREIO escutou diferentes histórias de mães e pais que encararam um desafio extra na quarentena. 

“É toda uma situação inédita, diversa da rotina comum. A escola também está se reinventando e aprendendo a construir de um jeito diferente do que a gente estava acostumado”, analisa a psicopedagoga Larissa Machado, orientadora parental e mestre em Psicologia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Vanessa tem acompanhado as aulas da filha Nina na quarentena (Foto: Acervo pessoal)

Medo do trauma 
No caso de Vanessa, o medo foi um dos primeiros sentimentos – especialmente quando viu a quantidade de atividades recebidas pela filha. 

“A escola meio que empurrou para os pais. A escola enche o aluno de atividade, mas esquece que a mãe e o pai também têm trabalho remoto e tem coisas de casa para fazer. Estava bem complicado, por isso pedi uma conversa com a professora”, explica. 

Na conversa, a farmacêutica abordou as dificuldades e insatisfações com as aulas virtuais de Nina. Hoje, a escola onde a menina estuda tem aulas virtuais de 60 minutos por dia com três intervalos para atividades. Depois do diálogo, a escola instituiu um horário semanal individual – algo entre 10 e 20 minutos – para que a professora tenha um momento com cada aluno. 

“Isso foi bom para mim, porque a professora trabalhou as dúvidas nesses minutos”, diz. A mãe de Vanessa, que é pedagoga, também deu orientações importantes. Foi ela quem explicou que muito do aprendizado das crianças acontece naturalmente. 

“Tem coisas que são mais complexas, como o S com som de Z. Isso ainda é um desafio para mim, mas minha mãe disse para deixar que isso não é para agora. Vai ser trabalhado em sala de aula. Eu fiquei mas tranquila, mas é tudo tão novo que a gente cria uma expectativa”, completa. 

Sala de aula 
Na casa da psicóloga Lívia Correia Tourinho, 37, até a arrumação ficou um tanto diferente. Pelo menos, em um dos quartos da casa, que praticamente virou uma sala de aula para os  três filhos – os gêmeos Henrique e Felipe, 10, e a pequena Fernanda, 6. 

No início, como tudo foi repentino, ninguém estava preparado para lidar com o novo contexto. Mas, nas últimas semana, houve mudanças: na escola dos gêmeos, que começara com aulas de revisão, a carga horária já aumentou e com novos assuntos. Já na escola onde a filha mais nova, Fernanda, estuda, as professoras costumam enviar vídeos e atividades relacionadas a cada vídeo.  

“Eu sinto que esse mesmo processo de adaptação e melhoramento do esquema que as escolas estão tendo, a gente está tendo dentro de casa. No início, a gente não sabia se ia durar muito ou se seria rápido. Pela própria necessidade, a gente vai se adaptando”, diz a psicóloga. 

Lívia já tinha o hábito de acompanhar os filhos enquanto estudavam. Gostava tanto que, mesmo antes da quarentena, tinha comprado o quadro branco com pincel atômico e um globo terrestre para facilitar na explicação dos assuntos. 

Para manter a rotina dos filhos o mais parecida com a das aulas presenciais, ela definiu que o horário das atividades em casa também seria na parte da manhã. À tarde, eles ficam livres para brincar, fazer quebra-cabeças ou, ainda, ver a um filme. 

Lívia já tinha um quadro e um globo terrestre em casa; hoje, usa para tornar as atividades mais didáticas (Foto: Acervo pessoal)

“Com os meninos, ajudo a conectar na plataforma, porque eles não tinham muito acesso a computador, embora já usassem celular e iPad. Depois que acabam as aulas online, vamos ver o que tem de atividade e fico cobrando”, conta. A escola onde os gêmeos estudam já tinha uma política de estimular que os próprios alunos corrijam suas atividades – e isso continua agora. 

Mas é nesse momento que Lívia também entra em cena. Atualmente, um dos assuntos é o aquecimento global, além da camada de ozônio. “Gosto de explicar o que vai gerar isso. Mostro, no globo, onde fica o Polo Norte, o Polo Sul, o que está acontecendo com as geleiras. É desse papel que eles estão carentes agora. Não é só aprender o conteúdo, mas aprender a raciocinar, a ter senso crítico”, explica. 

Com a pequena Fernanda, há ainda mais acompanhamento. Como ela está em fase de alfabetização, ainda precisa de mais ludicidade enquanto aprende os novos conteúdos.

“Não acho nem que o desafio seja ensinar, porque acho que consigo passar bem. Acho que o desafio é manter a atenção deles, a motivação. Uma coisa é estar com os coleguinhas na sala, outra é estar em casa. Mas ninguém tem culpa do que está acontecendo. Todo mundo está se reinventando, se ressignificando – as escolas, os pais, os professores”, diz. 

Alfabetização
A necessidade de manter a rotina da filha Stela, 5, foi o que fez com que o advogado Leandro Vieira, 39, desse início às aulas em casa. A escola onde a menina estudava demorou cerca de 20 dias, após o início das medidas de isolamento social, para definir como seriam as aulas.

Quando notou que a filha estava ficando ansiosa, Leandro e a esposa decidiram criar atividades para que ela ocupasse o tempo dentro do próprio apartamento. 

“Comecei a pesquisar algumas didáticas para a idade dela e algumas atividades de escola, tanto na parte de português e linguagem quanto de matemática. Imprimi vários exerícios e não só comecei a ensinar o que a série dela – Grupo 5 – está dando, como passei a alfabetizar de fato”, revela. 

Stela já era uma criança curiosa para leitura. Desde cedo, ficava querendo entender as junções de letras e mesmo a formação de sílabas. Quando via uma nova palavra, já perguntava aos pais. 

“A alfabetização dela seria só no ano que vem, mas, com essa pandemia, a gente não sabe quando as aulas vão voltar. E, se voltarem, será que a gente vai ter coragem de colocar nossos filhos logo na escola sem uma vacina? Por isso, comecei a praticar as atividades pensando também no futuro”, diz. 

Agora, ele se divide entre o próprio trabalho – atua no mercado financeiro, em home office -, os afazeres da casa e a rotina com a filha. Mesmo sem experiência com educação infantil, ele afirma estar gostando da nova função. 

Com a filha Stela curiosa para aprender a ler, o advogado Leandro decidiu ir além e já passou para a alfabetização da menina, que só seria no próximo ano
(Foto: Acervo pessoal)

“Dá trabalho e você tem que se dividir, mas é interessante também porque faz você ocupar seu tempo na rotina. Você não fica ocioso, nem para baixo, nem entristecido. No início, é difícil criar essa nova rotina, mas depois a coisa fica mais automatizada”. 

Mas mesmo quem já tinha vivência em sala de aula pode encontrar novos desafios agora. É o caso da professora Daniela Matos, 42, que é docente do curso de Gestão Pública da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). 

Morando em São Félix, ela divide com o marido, também professor da UFRB, o acompanhamento escolar dos filhos Tales, 9, e Olívia, 7. “Nas primeiras três semanas, a escola propôs atividades de manutenção do vínculo. Da quarta semana em diante, eles passaram a dar alguns conteúdos novos. O primeiro desafio foi incluir essa rotina dentro do isolamento”, lembro. 

A proposta da escola em que os filhos dela estudam é enviar um cronograma semanal com sugestões do que deve ser abordado. Além disso, os professores gravam vídeos curtos explicando conteúdos e indicam materiais audiovisuais, como canais no YouTube. 

Para ela, uma das dificuldades era que esse momento de ‘professora’ precisava vir com uma mudança na relação das crianças com os pais. 

A professora Daniela tinha experiência em salas de aula no ensino superior; agora, tem acompanhado os filhos Tales e Olívia (Foto: Acervo pessoal)

“A gente até brinca e diz: ‘agora é a professora Daniela quem está falando, ou agora é professor Jorge (o pai)’. Eu não fiz um curso de docência, mas fui experimentando isso nas minhas formações de mestrado e doutorado. A gente tem que reconhecer essa estratégia mas, de maneira nenhuma, colocá-la num lugar de substituição”. 

No entanto, ela acredita que essa situação tende a aprofundar desigualdades sociais já existentes. “É muito mais fácil para uma criança que tem um computador, tem acesso à internet, do que uma criança que só tem acesso, no máximo, um celular com um pacote de dados da operadora. No aspecto macro, isso tem criado uma angústia em muitos pais, mães e cuidadores”, reflete.  

Famílias e escolas devem ter saber quais são suas responsabilidades, dizem especialistas 
As crianças, de fato, precisam se mediadores. Na Educação Infantil, principalmente, a escola deve ter um vínculo com a família. No entanto, mães e pais não devem se cobrar para ser alfabetizadores ou pedagogos. Quem diz isso é a psicopedagoga Larissa Machado, educadora parental e mestre em Psicologia da Educação pela Unicamp. 

“Eles não têm formação para assumir o papel de alfabetizadores e pdagogos, mas eles podem assumir como pais. Uma criança que vive em um ambiente letrado, onde circula a escrita, narrativas, onde se interpreta e discute a vida já está em um ambiente estimulador para a educação”, diz Larissa. 

Criar uma rotina para as atividades da criança é uma das formas indicadas para agir nesse período. Isso inclui acompanhar as atividades e garantir que as crianças acompanhem as videoaulas preparadas pela escola. O estímulo parental também pode vir através de brincadeiras como dominós de letras, jogos de memória e desenhos. 

“Quando chegar no limite e eles não conseguirem explicar algo, devem passar para a escola. A intervenção de uma mãe e de um pai, por mais que seja criativa, não tem a formação de um profissional”, analisa. 

Para ela, a escola ‘invadiu’ a família nesse período. Por isso mesmo, é importante separar as responsabilidades e, assim, evitar que mães e pais vivam angústias desnecessárias. 

“A escola tem a responsabilidade de educar, de informar, de fazer pensar e gerar desenvolvimento. A família tem a responsabilidade na formação global, na questão dos princípios e nos procedimentos dentro de casa. Por mais que a família esteja fazendo papel de estimuladora, ela não é a escola”. 

A relação, portanto, deve ser de parceria, como defende a psicóloga clínica Isabella Barreto. É preciso construir um vínculo que não seja nem de imposição de um, nem de outro. 

“As escolas não perguntaram aos pais se eles queriam estar nesse lugar. Elas simplesmente convocaram, na grande maioria das vezes”, afirma Isabella. 

A psicóloga lembra que, nesse momento, já há angústias que vão desde o medo da covid-19 até o medo do desemprego. 

“É uma carga desnecessária colocada nessa família. É um sofrimento, sendo que esse poderia ser um momento de a escola pensar melhor em atividades que entretessem esses alunos”, pondera. 

A sugestão da psicóloga é justamente de que mães e pais que porventura estejam em uma situação de incômodo se unam para dialogar com as escolas. 

“Tem que pensar na coletividade para buscar esse acordo com a escola. Se a gente fica apenas com esse papel de estar desconfortável e sofrendo, sem tomar uma atitude e sair da queixa, a coisa vai ficar como está”. 

Famílias e escolas devem dialogar e buscar união, diz representante de grupo de escolas

Mas o momento também é difícil para as escolas. Por definição, as escolas já ocupam um lugar simbólico na vida das crianças, como destaca a diretora da Escola Experimental e da Casa do Horto, Bisa Almeida, integrante do Grupo de Valorização da Educação (GVE). 

“As famílias e as crianças estão sentindo falta porque a escola é um lugar de encontros, de interação. É um espaço vivo e também é a primeira instituição que a criança pequena frequenta depois da família”, analisa. 

Por isso, o planejamento das escolas deve ser de forma sistematizada e organizada. “A criança aprende por imitação, por experiência, por si mesma, pela interação com o outro, por repetição, por solução de problemas, por relacionar conhecimentos já existentes”. 

Ela defende que, se há algum problema na rotina de atividades da criança em casa, a família deve conversar com a escola. Para Bisa, é o momento de agir com união e com serenidade. 

“Se a família escolheu uma escolha para o seu filho, acredite naquela escola, seja parceira daquela escola. A dificuldade é tanto das famílias quanto das escolas. Se alguém disser que não está passando por dificuldades, não acredite”, completa. 

Fonte: Correio